Sábado, 5 de Novembro de 2011

Mão amiga...

Como frequentemente acontece no que, por aqui, vou escrevendo, mais uma vez mão amiga me enviou, para que sobre ele me pronunciase, o texto de que seguidamente transcrevo parte, aquela que, do seu conjunto, seguramente me impressionou e quase me fez  viver a sensação real de um pai verdadeiramente amargurado. E assim, não obstante a vulgaridade literária do texto e atendendo apenas ao que li, penso mesmo que seja quase indescritível a dor de um pai amargurado.

Segue a parte do texo que, em meu entender, melhor ilustrará essa ideia pelo que a resolvi transcrever. O leitor ajuizará:

“... a figura, que não reconheci de imediato, perfilava-se diante de mim e, com metade do cabelo comprido escondendo meio rosto, inclinou-se para a frente e deu-me um beijo na face ao mesmo tempo que dos seus lábios saíam, um tanto atabalhoadamente, as palavras – Olá papá!...

“...estupefacto, porque foi essa a sensação que tive, julguei reconhecer nessa figura a pessoa da minha própria filha que, a despeito de viver a menos de 1.000 metros de mim, e dados, certamente, os seus múltiplos afazeres já não via há mais de 3 anos...  há tantos que quase lhe não reconhecia as feições...

“Eu sei que ela me considera tão responsável quanto ela por este nosso e, afinal, penoso afastamento pois julga que teremos ambos as mesmíssimas obrigações. Eu, porém, educado, que fui, à moda antiga – como o atesta a minha idade onde os setenta já há muito que foram passados – sempre lhe respondi que a água de qualquer rio sempre corre da nascente para o mar e que nunca vi, nem sequer concebo, o contrário...

“O meu olhar que, muito certamente, terá traído o meu desencanto, melhor dito, o meu desapontamento, por ver o como e o quanto e o em quê se transformara a minha filha, dantes uma figura gentil de criança e mais tarde de rapariga e de mulher e mãe...

“... tudo embora nos meus olhos continuasse sempre a criança, de olhar vivo, inquisidor e buliçoso, vestida na sua bata preta e golinha branca que era o uniforme do seu colégio e que tão bem lhe ficava...!

“À minha frente, porém,  estava uma mulher desconhecida, estranha, distante e quase tão vulgar como as mulheres com quem costumo cruzar-me na rua mas que, sem que a minha razão imediatamente o compreendesse, me chamava pai!  

“Era uma mulher magra e alta – pelo menos para mim que não servirei de bitola já que vou mingando com a idade -  vestida de escuro, com os cabelos desmesuradamente compridos e lisos que lhe caiam, uma parte sobre o rosto, ocultando-lhe quase metade da face, e a outra meia sobre os ombros e meia sobre as costas, - à moda, pensei -  perante mim estava uma mulher cansada, talvez precocemente envelhecida e onde o tempo já começara e deixar-lhe no rosto as suas indeléveis marcas...

“Atabalhoadamente falava-me numa máquina, numa impressora, parece, que em tempos idos eu lhe dera e que tinha não sei quê ou sobre a qual alguém dissera qualquer coisa... Não ouvi. Não ouvi porque não queria ouvir e sentia que os meus olhos automáticamente se desviavam dela, do seu corpo e do seu rosto, da sua figura que não pretenderiam ver assim me furtando ao choque que sabiam bem eu sentiria acaso a nova imagem substituisse aquela outra que persistia na minha lembrança!...

“Neste quadro, tão inusitado quanto nunca expectável por mim, pelo menos àquela hora e naquele local já que noutro e em diferentes circunstâncias eu sempre soube que inevitavelmente se daria, senti que o meu coração se apertava e como que fraquejava um pouco dentro da caixa, que ele próprio construira, toda ela de aço e completamente blindada e à prova de emoções...

“Pouco tempo depois separámo-nos. Um adeus e posteriormente um aceno foi a nossa despedida. Conduzindo o carro de regresso a casa onde, novamente, me esperava a solidão em que hoje vivo, fui pensando em como nem sequer tivera tempo de pensar, de articular ou mesmo de sentir... a saudade!””

Espero ardentemente que, a começar por mim, nunca os que me leiam se sintam nestas penosas circunstâncias.

publicado por Júlio Moreno às 17:32
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2 comentários:
De contoselendas a 9 de Novembro de 2011 às 02:46
Este texto toca cá dentro.Certamente já muita gente passou por experiências similares. Um afastamento de irmãos também poderá ser vivido assim. Partilhei no meu Facebook pois não existem palavras para definir os sentimentos vividos por esse Pai. Feliz pelo regresso.Abraços


De Júlio Moreno a 9 de Novembro de 2011 às 18:25
É verdade, é verdade, meu bom amigo!... Estive, efectivamente afastado durante demasiado tempo, "talvez pretensamente ocupado" em escrever o que eu pretendia fosse um livrito para distrair que sofresse de insónias e que me surge já com mais de 1.500 páginas sem que consiga encurtá-lo!... Virão muito a propósito as célebras palavras do Padre António Vieira ao terminar uma sua longa carta a um amigo: - Desculpará que esta seja tão longa mas é que não tive tempo de a fazer mais curta...
Também ando lá pelo Facebook com o meu nome que bem conhece. Como poderei aceder ao seu já que gostaria de o incluir no reduzido grupo dos meus amigos? Um abraço e até sempre... Obrigado.


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