Domingo, 20 de Novembro de 2011

Gostava de saber escrever.

Quando afirmo isto o que pretendo dizer, é que gostava de colocar no papel, tal como outros a seu tempo o já fizeram – Eça, por exemplo – o que, a dado momento, me ocorre e corre no labiríntico mundo dos meus neurónios – se é que posso dizer que os tenho! Digo-o não por inveja mas com uma tremenda pena de ter de o confessar... Gostava de saber escrever.  Porém, como quem porfia sempre alcança – lá diz o adágio – vou-me esforçando por fazê-lo, umas vezes melhor, outras pior mas nunca sem que, ao reler o que escrevi, me possa dar por satisfeito já que me parece ter faltado algo e nunca ter sido capaz de transmitir as ideias que, na realidade, pretendia. Será porque me perco no emaranhado delas, na sua semântica? Será porque me alongo no texto e as descrevo com demasiadas palavras e sem aquele poder de síntese que caracteriza os priviligiados? Bom, seja como for e como a teimosia sempre terá sido um dos meus atributos, qualidades ou defeitos, insisto em escrever aqui o que penso ou vou pensando e sentindo, o que é bem diferente pois os estados de alma, como o vento, também vão variando em intensidade e direcção...

Vem isto a propósito do tema de hoje. Soturno, que muitos dirão dever evitar-se quanto o possamos: - a morte, a nossa própria morte!

Neste momento, de setenta e cinco anos feitos e a caminho dos setenta e seis, é inquestionável que, para mim, ela já não andará por muito longe... Já levou muita gente que outrora conheci. Já levou meus pais e outros entes queridos e não se coibiu, mesmo, de levar meus dois irmãos, um nado-morto e outro com dias de vida, a ambos que me antecederam e de cuja existência já só muito tarde, na minha adolescência avançada, vim a ter conhecimento. Daí os cuidados, que muitas vezes considerei excessivos pelo que muito amiúde com eles me revoltei e que sempre me prodigalizava minha mãe!

Neste momento, porém, se bem que tema o sofrimento em que ela me possa fazer incorrer – nunca fui muito valente em certas coisas! – me importe enormemente, o que verdadeiramente sinto ao vê-la aproximar-se é uma tremenda curiosidade, se assim lhe poderei chamar, uma teimosa curiosidade posto que acredito que a minha capacidade de pensar vá e permaneça muito para além dela!

E essa minha curiosidade advém do facto de não conceber sequer que ela possa representar o fim de tudo, o fim absoluto, afinal inglório termo da obra esplendorosa e criativa da natureza, que não exista Deus e que, para além desta vida que conhecemos, outra não exista, muito diferente, mais simples e mais autêntica, onde o dinheiro não exista sendo substituido por um só olhar reconhecido ou uma palavra de carinho, e onde do lexico apenas constem palavras como Amor e Carinho, Luz e Amenidade, Suavidade e Certeza além da Eternidade em que terá de existir... Mais do que isso: - creio que Deus, ao julgar-nos, nos imporá como pena, caso a mereçamos, um regresso a esta vida material e temporal para que continuemos a experimentar a incerteza, o receio e a dor e sermos constantemente confrontados com o êrro e o arrependimento, com a falsidade e a injustiça, com o infortúnio e a má sorte, como muitos costumam designar o caminho que para si mesmos insistem em traçar...

Chamar-se-á a isto reincarnação, punição divina ou puro devaneio especulativo de quem, vazio de ideias do quotidiano, prospectiva apenas qual seja o futuro do seu próprio eu? Não sei. Saberei apenas que admito que esse regresso se faça como penitência dada por Deus e pelas vezes que delas cada qual possa necessitar,  até se regenerar e poder  voltar para ser finalmente incorporado no Seu infinito exército de paz celestial. O tempo que possa mediar entre a morte e uma possível reincarnação esse não interessará já pois, deixando de existir e temporalidade e o tempo como medida convencionada, um só segundo poderá representar mil anos.

Mas porque será que, assim sendo, a morte também  leva crianças, seres inocentes insusceptíveis, pensamos nós, de terem culpa? Apenas porque elas já nada estarão a fazer neste mundo e o castigo de perdê-las é dirigido aos pais que de tal dor serão, porventura, merecedores... Mas porque deixa que ecludam guerras, que homens matem homens, que roubem, violem, vilipendiem e agridam o semelhante? Apenas porque Deus ao criar o homem o fez à sua imagem e semelhança e lhe outorgou a liberdade de ser inteiramente responsável pelos actos que pratica e pelos quais responderá um dia na sua Divina presença.

Em torno do que aqui digo muito se tem escrito, especulado e até mentido e prevertido e muito mais se escreverá ainda até ao fim dos tempos. Pelos motivos que invoquei no meu início aqui o trouxe agora. É o que sinto. É no que acredito, porque para acreditar Nele basta-me olhar as serras e olhar o mar... É no que virá depois que reside esta minha expectante curiosidadeque bem quisera saber expor de forma mais simples e porventura mais eloquente.

publicado por Júlio Moreno às 20:00
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