Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Passou-se no café...

Via-se que ela vinha a fugir de qualquer coisa e que apenas iria ali para buscar descanso e refúgio, talvez bebendo um café.

O seu ar distante, ausente mesmo, fazia com que os seus olhos divagassem pelo recinto como que procurando alguém que não estivesse lá. Dir-se-ia que procurava a própria ausência.

Uma mesa vaga orientou os seus passos e, acercando-se, lentamente ocupou uma das tres cadeiras que, vazias, a circundavam. Sobre aquela que estava à sua direita colocou a bolsa que trouxera a tiracolo e, com um ligeiro assentimento de cabeça, cedeu a outra aos ocupantes da mesa vizinha que, educadamente, lha solicitaram. Da bolsa havia retirado o telemóvel que, displicentemente, colocou à sua frente depois de ter afastado um pouco um dispensador de guardanapos ostentando publicidade. Olhando o pequeno aparelho parecia aguardar que ele tocasse ou então o momento para tomar a decisão de fazer com ele uma chamada...

Da minha mesa, longe da entrada, pude ver perfeitamente o homem que assomara à porta pouco depois e cujo olhar aquilino percorrera lentamente todas as mesas ocupadas até se deter naquela que ela ocupava e onde acabara de sentar-se não haviam decorrido ainda cinco minutos e para a qual rapidamente se dirigiu.
Porém, no momento em que dela se acercava chegava também, solícito, o empregado que, de bandeja na mão, dirigia à mulher a habitual pergunta afim de satisfazer o seu pedido. Todavia tal pergunta não chegou sequer a ser completamente formulada porque o recém-chegado, denotando uma total ausência de civismo, de educação ou de respeito não só para com ele como também para quantos acabaram por presenciar aquele triste cena, transpirando ódio, o interrompeu e afastou brutalmente, fazendo com que a bandeja e as chávenas vazias que esta continha caíssem ruidosamente ao chão e que ele mesmo, desiquilibrando-se, quase derrubasse uma das mesas mais próximas juntamente com os respectivos ocupantes.

A mulher, essa, não se mexera do seu lugar e permanecia aparentemente serena e como se tudo quanto à sua volta se desenrolava naquele momento não tivesse nada a ver consigo. Apenas pareceu surpreender-se quando o homem lhe agarrou violentamente um braço e a quis obrigar a levantar-se, certamente para que o acompanhasse.
Foi nessa altura que ela, como que  tendo tomado súbita consciencia do que se passava se esforçou por libertar-se e, com a mão que tinha livre, lhe deu uma bofetada que soou bem alto no ambiente estranhamente silencioso que, entretanto, se formara.

Pálido, com os dedos dela bem marcados na face atingida, foi a vez dele a esbofetear com violência, o que repetiu por várias vezes e com redobrada violência ao ponto de fazer com que na comissura dos seus finos lábios sem baton tivesse surgido um pequeno fio de sangue.

Certamente dotado daquela força sobrenatural que a raiva que transparecia no seu rosto lhe concedia, depois de já ter feito tombar a mesa onde ela se sentava, o homem conseguira finalmente levantá-la e já arrastava a mulher consigo quando, sem que nada o fizesse prever, o velho de barbas que perto se sentava lendo o seu jornal e no qual ninguém até então reparara, incluindo eu mesmo, se levantou vagarosamente e, retirando do bolso direito da velha samarra transmontana que vestia uma pistola, a apontou ao homem que para ele olhava agora apavorado e, aparentando uma calma que muito provavelmente não sentia, sobre ele disparou três tiros certeiros que o atingiram, fazendo com que, depois de levar ambas as mãos ao peito de onde o sangue já jorrava, caísse pesadamente no chão, largando a mulher e magoando, na queda, uma criança que do espanto e mudo temor iniciais passou a um choro aflitivo e aos gritos que só acalmaram quando a mãe, também ela pálida de susto e depois de vencer a contra-corrente dos habituais mirones, a conseguiu levar para fora do café.

Na generalizada e ruidosa confusão que se seguiu e que deverá considerar-se normal dadas as circunstâncias que a provocaram, a voz grave do velho homem que disparara sobrepôs-se fazendo então ouvir as seguintes palavras:- “Eu avisei-te, filha, eu avisei-te de que o matava se ele te tocasse!...”

O que se passou a seguir foi o habitual em casos desta natureza: uma ambulância, dois carros da polícia e um chorrilho das mais díspares e disparatadas opiniões.

publicado por Júlio Moreno às 21:56
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