Sábado, 7 de Abril de 2012

O tiro na vaca

Meu Pai era, durante a época balnear, director clínico das Caldas Santas de Carvalhelhos, Estância Termal situada em pleno Barroso, a nove quilómetros de Boticas, numa pequena cova formada pelas serranias envolventes e onde eu, sempre obrigado a acompanhar os meus Pais, me julgava um “desterrado” durante aqueles meses de Junho a finais de Setembro.


Quando havia gente da minha idade o tempo passava-se bem e depressa. O pior era quando não havia e eu tinha de inventar o que fazer durante todo o santo dia. Foi assim que travei amizade com a minha amiga Rola, uma égua castanha oriunda do Exército onde havia sido abatida porque cegara do olho esquerdo o que a tornava um animal perigoso por assustadiço, como me afirmava o Tio Camilo, seu dono e que, por atenção a meu Pai a quem deveria alguns favores médicos, ma emprestava sempre que eu queria para dar as minhas passeatas pelas serras as quais cheguei a conhecer quase tão bem como as palmas das minhas mãos. Tornámo-nos amigos, eu a a Rola e foram muitas as aventuras que fizemos juntos. Eu interessado nos pesseios a cavalo e ela interessada nas papas de aveia com vinho – sopas de cavalo cansado - que eu lhe dava sempre que íamos a Vilarinho da Mó, terra da Tia Miquelina, nos confins do mundo e que só se alcançava a pé, a cavalo ou de carro… de bois!

 

Mas não é mais uma das minhas aventuras com a Rola o objecto da minha história de hoje. Hoje proponho-me contar o que me aconteceu numa bela manhã quando, levando comigo um livro e uma carabina especial, de 18 tiros e calibre 22, que já havia estado apreendida por haver morto um homem mas cujo dono de então não hesitava em me emprestar, me dirigi para os lados do Lago dos Amores – um profundo lago naturalmente escavado na rocha pela própria água que nele se despenhava com grande força e de rasoável altura haveria por certo alguns milhares de anos e onde se fazia inteiro jus ao conhecido aforismo popular que afirma que “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”.

 

Pois bem, a meio do caminhol para o Lago, num belo lameiro, em acentuado declive para o pequeno rio que ai passava, transbordando do Lago, decidi sentar-me um pouco para ler um bocado beneficiando daquele local aprazível e que, qual anfiteatro, me proporcionava uma ampla visão sobre um vasto horizonte no qual figuravam os demais lameiros do outro lado do rio e onde, na ocasião, pastavam, indolentes e pachorrentas, algumas vacas.

 

Não havia passado muito tempo desde que me sentara quando uma voz, vinda do meu lado direito me saudou cortezmente e me observou, referindo-se à arma que tinha a meu lado: - “Linda espingarda!... Corta longe?...”, assim se querendo informar do seu alcance que, na verdade, era bastante elevado, muito próximo dos mil metros.

 

-“Corta longe, corta…” - respondi-lhe eu depois de haver correspondido à sua saudação e reconhecido o homem das muitas vezes que já o vira conduzindo o gado para os pastos.

 

- “Chega além às vacas?” – insistiu o homem, manifestamente interessado na arma e talvez,como como logo deduzi, em dar mesmo um tiro com ela.

 

- “Às vacas?...” exclamei eu. – “Muito para além das vacas…”, que deveriam estar a cerca de duzentos e cinquanta metros de nós. –“Muito para além das vacas…” – continuei convicto. “Quer experimentar..” – sugeri fazendo então menção de lhe entregar a arma.

 

Ora, mortinho por isso estava o nosso amigo cujos olhosbrilharam logo que acabei de lhe fazer a oferta.

 

- “Se o senhor me desse licença… era capaz de experimentar…” – respondeu um pouco envergonhado.

 

Peguei então na espingarda, meti-lhe uma bala na câmara e, recomendando-lhe que escolhesse outro alvo que não as vacas, passei-lha então para as mãos que logo avidamente a seguraram enquanto que, com a vista procurava o alvo da sua eleiç.ão. Vi então que apontava para o lameiro onde pastava o gado e, sem que o pudesse impedir, foi nessa direcção que disparou o tiro dos seus desejos.

 

Ainda o estampido seco do tiro ecoava no ar quando uma vaca das que pastavam serenamente, alçava uma pata traseira e, mugindo de dor e com ela no ar, começava aos pinotes no campo.

 

- “Ai a minha vaca que lhe acertei…” – gritava agora o homem que, desvairado, me devolvia a arma e se lançava pela encosta abaixo até ao rio que atravessou numas poldras que havia perto, logo correndo em direcção às suas vacas por onde ficou atarefadíssimo na procura das mazelas que causara.

 

Soube, mais tarde, que um curandeiro veterinário lá da aldeia lhe havia extraído da coxa de uma pata trazeira a bala que ali se alojara porque, na verdade, a arma “cortava bem longe…”

publicado por Júlio Moreno às 03:56
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