Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Breve história dos animais que fizeram parte da minha vida – O primeiro foi o Tatu...

 

O primeiro “senhor cão” que conheci foi aquele que, quando deixando de ser bebé de colo, me fui dando uma conta mais interessada e consciente do que se passava à minha volta.

 

Foi o Tatu o grande cão perdigueiro de meu Pai, que gostava de caçar – o que já não acontece comigo já que me custa infligir deliberadamente a morte a qualquer ser vivo que me não ataque ou que não seja reconhecidamente perigoso!

 

Como não eramos ricos . nem nunca o fomos - e meu pai, sendo médico, entendia que não devia agravar a doença dos seus pacientes, na sua esmagadora maioria gente de muito poucas posses das aldeias em redor de Vidago: - Vilarinho das Paranheiras, Loivos, Arcoçó, Oura, Pinho e muitas mais de que me não recordo já o nome, - tratando-a das suas maleitas para lhas agravar depois – como dizia - com contas para pagar, era ele quem cuidava da preparação dos seus próprios cartuchos para o que adquiria os invólucros, já com o fulminante, bem como a pólvora e o chumbo – bolinhas de diferentes calibres - e os carregava numa maquineta de que nunca me deixou sequer aproximar.

 

O Tatu, porém, quando lhe cheirava a pólvora todo ele era um alvoroço e nada o fazia parar, agitado de felicidade na previsão de mais uma caçada, correndo de um lado para o outro e abanando a cauda que era como um chicote quando nos atingia nas pernas.

 

Era o Tatu um perdigueiro “Navarro”, de dois narizes que, conforme contava o meu pai, costumava subir a pedras altas para daí farejar os ares após o que, descendo delas, se encaminhava na direcão das perdizes que invariávelmente encontrava parando, como que sunitamente petrificado, pata no ar e cauda esticada, sem fazer o menos ruído até que meu pai, que o seguia, lhe fizesse sinal para avançar. Assim detectava as perdizes a uns nove ou dez metros de distância que logo levantavam voo ao pressenti-lo mas já com pouco tempo para escaparem, uma ou duas, aos tiros certeiros que meu pai então disparava. Depois, vendo onde caíam e por muito que, por mal feridas se tentassem esconder, o Tatu logo as ia buscar trazendo-as delicadamente ao dono que as pendurava no seu cinturão.

 

A vida profissional não deixava ao meu pai grandes oportunidades de praticar a caça o que só fazia quando não tinha entre mãos qualquer caso de especial perigosidade mas, mesmo assim, nunca se asusentava para caçar sem deixar sempre em casa, a minha mãe, muitas vezes a sua enfermeira e secretária – além de ministro das finanças! -  uma detalhada informação do local onde o poderiam encontrar em caso de necessidade tendo sido varias as vezes em que o foram chamar a meio da sua caçada que ele imediatamente abandonou para acorrer a quem necessitava dos seus serviços para o que havia sempre preparada em casa uma maleta com o material de primeiros socorros que, ou estava com ele no carro, ou era entregue por minha mãe a quem o fosse à serra chamar.

 

Fora da época da caça o Tatu, não obstante a sua idade já algo avançada, além de fiel amigo e atento guarda da casa compartilhava também das minhas das minhas brincadeiras, deixando-me andar a cavalo nele até que cansado, pela fadiga ou pelo meu abuso, decidia deitar-se não havendo mais forma de o fazer retomar a sua actividade pseudo equestre.

 

Dócil para toda a gente era, todavia, algo cioso da dedicação que meu pai pudesse dedicar a outros animais, principalmente aos cães que dele naturalmente se aproximavam e a que meu pai, nunca indiferente a tudo o que tivesse quatro patas, às vezes afagava um pouco na cabeça. Entre vários, recordo-me de entre eles haver um cachorro grandalhão e de cor castanha clara que tudo indicava não ter dono e que costumava andar por ali, perto da nossa casa e que tinha por hábito o exceder-se nas manifestações de alegria que manifestava quando via o meu pai. Embora estando muitas vezes presente, o Tatu nunca mostrou importunar-se muito com o que acontecia até que, uma bela tarde, o outro cão, ao ver que o Tatu se aproximava para também ele ser o legítimo alvo dos afagos do seu dono, se permitiu rosnar-lhe mostrando-lhe os dentes numa atitude de manifesto desafio e posse.

 

Contava meu pai que nunca tinha visto tal comportamente no Tatu e que, para além da surpresa, foi enorme, não obstante a ajuda que logo teve de outras pessoas que a tudo assistiram, a dificuldade em separar ambos os cães, sobretudo em evitar que o Tatu que, então cego de raiva, já

tinha filado o seu antagonista pela garganta e estava prestes a asfixiá-lo ou a partir-lhe o pescoço, acabando por matá-lo ali mesmo. O outro cachorro, ferido e mal se sentiu libertado logo fugiu, tendo, muito seguramente aprendido a lição, desaparecendo e, pelo que dizia meu pai, nunca mais terá sido visto por ali.

 

Um outro acontecimento merecerá referência na vida deste Tatu.

 

Um dia, convidado por um médico seu colega e amigo, meu pai resolveu ir à caça para os lados de Pinho – a uns bons vinte quilómetros de casa – e, porque o outro caçador levava dois ou três cães que queria mostrar a meu pai, este resolveu deixar ficar o Tatu em casa partindo ambos no carro do primeiro, seriam, pelo que me recordo de ouvir a meu pai, aí umas sete e meia de manhã.

 

Pois qual não foi o espanto dele quando, por volta do meio dia, lhe apareceu o Tatu em plena serra e a seu lado pronto para lhe fazer companhia na caçada que já ia longa! Ele havia conseguido escapulir-se de casa e descoberto o caminho até ao dono, a ele se apresentando como julgava ser o seu dever e zangado, talvez, por haver sido trocado por outros "camaradas" novatos e vindos da cidade!...

 

Morreu, creio que, de velhice. Não me recordo exactamente como mas sempre que dele me lembro é com saudade que o recordo e mudamente lhe agradeço a paciência que sempre demonstrou para comigo, uma irrequieta e irreverente criança entre os quatro e cinco anos e que não reparava no respeito que lhe deveriam merecer aqueles bigodes já brancos do velho e tão dedicado amigo que o Tatu sempre foi para todos nós...

 

 

publicado por Júlio Moreno às 16:27
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