Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

Continuando a história dos meus amigos caninos...

 

A seguir à morte do Max e talvez para tentar compensar-me da sua perda, meu pai resolveu presentear-me com um pequeno perdigueiro “Pointer” (meu pai talvez não desistisse de fazer de mim um caçador!), de pêlo pigarço e compridas orelhas quase todas castanhas, como era o velho Tatu cuja história já aqui referi. Dir-se-ia uma réplica dele mas em ponto pequeno e muito novinho ainda.

 

Escusado será dizer da minha alegria quando meu pai me deu o cão.

 

Minha mãe, porém, desde algumas asneiras que tinham sido feitas pelo Max, estabelecera como lei que os cães nunca mais poderiam aceder aos andares superiores da casa pelo que se deveriam limitar ao quintal e ao rés-do-chão. Assim, o novo Tatu – nome que entendi dever dar-lhe em homenagem ao velho amigo que já desaparecera e dada a sua semelhança com ele – depois de educado limitava-se a tentadoramente colocar a pata no primeiro degrau que levava ao primeiro andar mas mais não fazia nem que o chamassem.

 

Um dia, estando sentado num banco do jardim do parque, o Tatu, que andava às correrias por ali, resolveu saltar para o banco e sentar-se ao meu lado. Só que, com tão pouca sorte o fez que entalou uma das patas dianteiras entre as tábuas do banco e depois não conseguiu tirá-la pelo que começou a ganir de dor com o esforço que fazia.

 

Sem pensar e apenas tentando resolver a situação do meu pequeno cachorro, debrucei-me sobre a pata entalada e rodei-lha um pouco para que ele a pudesse tirar. Nessa operação de socorro devo tê-lo magoado um pouco pelo que, instintivamente, ao mesmo lempo que lhe libertava a pata, ele. em pura acção de defesa e obedecendo, como seria de esperar, ao seu instinto animal, mordeu-me na orelha esquerda pondo-a a sangrar.

 

Nessa altura e não obstante a dor que sentia na orelha ferida, que o Tatu, manifestamente aftito se apressou logo a começar a lamber, limpando o sangue e desinfectando-me a ferida que me causara, quase ameaçando comer-ma, não obstante a dor que sentira e a minha pequena idade recordo-me de me ter começado a rir com mais pena do cão do que de mim próprio.

 

Durante todo esse dia fui cumulado de atenções pelo meu amigo de quatro patas que, não se cansando de me pedir desculpa através do seu olhar meigo e verdadeiramente contristado, e, sempre que podia, dava-me uma nova lambidela na orelha que me ferira o que me fez sentir o seu verdadeiro arrependimento pelo que fizera a par da sua enorme preocupação e assumindo em tudo atitudes e sentimentos que habitualmente julgamos serem só apanágio dos humanos o que não será verdade!

 

Cêdo, porém a ferida sarou – a saliva dos cães terá esse poder desinfectante e curativo – e o incidente foi por ambos esquecido muito embora, pelo que me lembro, nunca mais o tivesse visto a saltar para cima de qualquer banco semelhante àquele que o magoara.

 

E assim ia decorrendo a nossa vida entre as brincadeiras próprias da nossa mútua juventude. Uma manhã, porém, completamente ao contrário do que seria habitual, acordei sentindo que algo me soprava no pescoço e me fazia cócegas no rosto. Era o Tatu que, desobedecendo pela primeira e única, como depois se veio infelizmente a comprovar, vez à proibição que escrupulosamente respeitara até aí de nunca subir ao primeiro andar, me viera acordar o que fazia pela primeira vez pelo que foi imediatamente corrido pelas escadas abaixo.

 

Horas depois vieram dizer-me que fora mortalmente atropelado por uma camioneta, na estada nacional, do outro lado da estação, cujo motorista, para não ser responsdabilizado, havia fugido nunca tendo sido localizado a despeito dos esforços que todos fizémos nesse sentido.

 

Até  hoje que esta dúvida me persegue: - será que o Tatu, pressentindo a sua própria morte, quis vir despedir-se de mim?

 

Resta-me a eterna dúvida e a permanente saudade que a sua lembrança sempre me tropuxe, traz e sei que trará...

publicado por Júlio Moreno às 11:57
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