Sábado, 12 de Março de 2011

Recordo a manhã do dia 26 de Abril ...

Recordo a manhã do dia 26 de Abril quando, conduzindo pela marginal, vindo de Oeiras, onde morava, me dirigia ao escritório na Infante Santo, em Lisboa. Estava uma manhã algo nublada – talvez pressagiando o nosso então longínquo futuro e actual presente – e eu, olhando o Bugio, respirava uma brisa que se assemelhava àquela que costumava respirar sempre que me deslocava ao estrangeiro. Uma brisa estranha: - fresca e livre… Exultava interiormente.

Um ano passou. E, a 23 de Abril de 1975, um mandado que me foi entregue após convocatória, a que compareci, na António Maria Cardoso, assinado por um tal Nápoles qualquer coisa – que vim a saber depois tratar-se de um major padeiro (como na gíria chamávamos aos da Administração Militar) do Copcon – acusando-o de pertencer a um grupo de malfeitores, mandava deter e conduzir a Caxias um cidadão que, por acaso, residia em Oeiras e tinha o meu nome. Nem rua, nem número de porta!

Com indescritível surpresa, deduzi que muito deveria eu ser conhecido em Oeiras!

Conduzido a Caxias fiquei detido numa cela de isolamento (das utilizadas pela Pide, com casa de banho privativa e água quente dia e noite) durante quinze dias. Pensava que fosse engano pois, no dia imediato, a 24, tinha aprazado uma visita à Gulbenkian, na companhia de um ten. cor. pára-quedista, para equacionar alguns últimos pormenores sobre a segurança do centro de escrutínio dos votos da eleição presidencial que se realizaria daí a dois dias, a 25 e, como tal, decidi-me, pacientemente, a esperar…

Mas não era engano. Fiquei mesmo aí os 15 dias que acima referi após o que fui transferido para uma cela com 14 beliches onde tive a companhia, entre outros, do Dr. Spínola, irmão do Marechal que eu assessorara e que morava no andar de baixo, o ex-ministro do interior, César Moreira Baptista, o Embaixador Franco Nogueira, saneado da UTIC de Santa Maria onde, dois dias antes, dera entrada com um enfarte do miocárdio e de cuja entrada na nossa “sala” me apercebera por um estranho ruído de uma maca que nos acordou a todos pelas três da manhã; era Franco Nogueira uma pessoa, cuja arrogância televisiva sempre me impressionara desfavoravelmente, mas que vim a reconhecer como cultíssima, senhora de uma extraordinária distinção e de excepcionais dotes oratórios que a todos cativava e com quem as horas se passavam sem que delas nos déssemos conta. Aprendi muito com ele.

Connosco estava igualmente o duque de Palmela (Holstein), que me ensinou a fazer “bluff” em “bridge”, coisa que nunca fizera, o Presidente da Câmara de Castro Verde, cujo nome peço desculpa de não recordar, e entre outros mais, um pobre homem algarvio cujo “crime”, segundo ele, teria sido o de ter pedido numa tabacaria para tirar umas fotocópias de uma qualquer piada impressa de Álvaro Cunhal que por lá circularia.

E assim o tempo se passou até que fui novamente colocado no isolamento numa cela idêntica à primeira por mais 15 dias por me ter recusado, não obstante as ameaças, a responder a quaisquer perguntas que me quisessem fazer sem a presença do meu advogado, e de onde saí para ser “realojado” na Penitenciária de Lisboa, cela nº 100 do 3º andar, onde encontrei e fiz mais amigos que um dia referirei quando pormenorizar uma pequena crónica que tenho em mente escrever enquanto retenho na minha memória auditiva o característico ruído das Chaimites de então cor. “comando” Jaime Neves que, em constante patrulha, nos protegia das previsíveis intenções de quem porventura quisesse utilizar uma metralhadora pesada colocada numa das varandas fronteiras à nossa ala prisional isto quando constava que Pires Veloso, vindo do Norte cuja Região Militar comandava, estaria disposto a marchar sobre a capital.

A Jaime Neves, à sua reconhecida e proverbial coragem “comando”, a minha gratidão e a de quantos, comigo, partilharam aqueles (para alguns mais) 254 dias de cativeiro que terminaram na tarde de 23 de Dezembro do mesmo ano de 1975, dois dias antes do Natal, sem interrogatório, nem processo e muito menos julgamento!

Saí tal como entrei. De consciência tranquila e admitindo ter-se tratado de um erro pois que de um engano se não tratou seguramente. Valeu, talvez, o curso de democracia intensivo que tirei e um reatar da tradição familiar prisional já que ambos os meus avós, materno e paterno, tinham sido presos pelos seus ideais republicanos de que nunca abdicaram.

A 24 mandei entregar no EMGFA um requerimento indagando das razões da minha detenção. Até hoje aguardo resposta para os esclarecimentos que então pedi…

Nem todos poderão ter idênticas e saudosamente boas recordações do post-25 de Abril. Eu sou um deles.

NOTA – Este mesmo post, com os “cortes” que a limitação de caracteres me impunha, coloquei como comentário no blog que muito aprecio do ilustre Embaixador Seixas da Costa, nosso representante em França

publicado por Júlio Moreno às 18:26
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