Terça-feira, 15 de Março de 2011

A cultura de certas “elites”…

Perdoar-me-ão a blasfémia mas a sensibilidade artística com que Deus me dotou, se dá para apreciar alguns dos bons fados da Amália ou de Coimbra, de me sentir nostálgico com blues ou canções da Etta James, da Dusty Springfield ou do Frank Sinatra, ou ainda como que dentro dos ambientes criados nos quadros de certos pintores, sentindo o pó no ar ao ponto de sentir dificuldades na respiração e o involuntário despertar da tosse como sempre me acontece quando contemplo o rebanho pintado por Silva Porto no Museu Soares dos Reis, essa sensibilidade não dá, nunca deu e acho que nunca dará, por mais esforços que faça e por mais explanações que receba de mestres na matéria ou em leituras que mais e melhor as aprofundem e expliquem, para apreciar certas obras de Picasso ou de Salvador Dali.

Aprecio igualmente uma boa galeria de fotografia, particularmente quando contenha fotos a preto e branco, que sempre apreciei muito mais do que as coloridas pois essas obtenho-as quando posso ou quero, bastando-me olhar a realidade das paisagens que me deslumbram, como as searas a perder de vista no Alentejo, a crua rudeza das pedregosas montanhas transmontanas, o mar e o seu circular horizonte onde o sol se afunda num crepúsculo cheio de saudade e de promessa, a majestática quietude de um castanheiro ou de um carvalho seculares, ou ainda as folhas do Outono quando, já trémulas, ainda pendem das árvores como que olhando, tristes, as suas irmãs que, mortas, já atapetam o chão que nós pisamos…

Vem isto a propósito de uma cena que presenciei durante uma daquelas fastidiosas cerimónias a que, por dever de ofício, tive de comparecer só para ser visto e notado presente como que assinando o ponto…

Tratava-se de uma exposição de pintura que era forçado a apreciar na companhia de mais duas ou três pessoas talvez tão forçadas quanto eu a estar ali, quando, porque íamos, em silêncio, caminhando ao longo da galeria, fomos forçados a parar porque, à nossa frente, uma pequena multidão, tecendo os mais variados comentários acerca da obra que estava observando, um grande e estranhíssimo quadro, que logo admiti tratar-se mais um do género que acima referi como ininteligível para a minha embotada sensibilidade artística, e onde se destacava um dos presentes que perorava toda a sua erudição nas palavras com que apreciava a obra e se deleitava na sua exegética contemplação realçando o virtuosismo do autor e, se calhar, toda a inegualável poesia do seu pincel!

Aborrecido com o compasso de espera a que me via forçado, ansioso que estava por sair dali e poder fumar um cigarro à minha vontade – nesse tempo, e para mal dos meus pecados, ainda fumava! – vi que, pressurosamente e algo perturbado, chegava mais um personagem de vetusta cabeleira que, entrando alvoroçadamente multidão adentro, se desfazia em desculpas e pedia auxílio a algum dos presentes para o ajudar a tirar o quadro da parede para o pendurar na posição correcta.

Tratava-se do autor da obra-prima que teria confiado em alguém que, selvaticamente e sabe-se lá com que intenções, tinha pendurado o quadro precisamente ao contrário!

publicado por Júlio Moreno às 01:42
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