Domingo, 3 de Maio de 2009

A que tipo de enredos obedecerão os sonhos?

Ultimamente tenho dormido bastante mal. Com pequenos sonos de cerca de uma hora após o que, esta complexa e incómoda doença da próstata, me obriga a levantar para mais uma ida à casa de banho!

Felizmente que, no regresso, salvas raras excepções, tenho tido a felicidade de rapidamente retomar o sono e de poder, assim, descansar mais uma hora.

Curioso é que, nesses curtos períodos, alguns mais de sonolência semi-vigilante do que de sono profundo, tenho tido a felicidade de sonhar e não raras são as vezes em que, evadindo-me da solidão em que tenho vivido, a continuação do sonho se verifica na sequência da referida interrupção ou mesmo interrupções. Porque isto me acontece com certa frequência bem gostaria de saber porquê, já que a fisiologia do sonho se não costuma compadecer com tão frequentes, ou mesmo uma só que seja, interrupção não integrada no respectivo enredo. Digo isto porque acho estranho o que me vem acontecendo umas vezes porque sou actor do “filme” que o meu subconsciente imagina outras porque dele sou apenas mero espectador.

É destes que me recordo menos, sendo, como é natural, grande a revolta que sinto pela manhã quando, tendo a certeza de que motivariam interessantes narrativas – acaso a tal me ajudasse o meu muito escasso poder narrativo – não me consigo recordar do respectivo enredo e do seu desenvolvimento lógico mas sim de quadros dispersos, aqui e ali revividos, mas de todo insusceptíveis de virem a formar a sequencia lógica que formavam e que tanto interesse motivaram no meu “eu” adormecido.

Acontece que hoje, mais um caso estranho se passou misto de vivência real e de quadro fantástico de Salvador Dali mas que de veras me impressionou e do qual fui activo e revoltado interveniente.

Viajava não sei de onde nem para onde, pois não me recordo, a bordo de um paquete luxuoso que haveria de conduzir-nos a um comboio o qual nos levaria a uma estranha estancia de veraneio dotada de hotéis, casas pequenas e grandes mansões mas cuja arquitectura era, sem sombra de qualquer duvida, da autoria de Dali pois ali se viam jardins suspensos e escadarias sem princípio ou fim e frondosos bosques de generosas e belíssimas árvores, algumas de copas e raízes invertidas, que completavam jardins oníricos e convencionais, todos eles sumptuosos e luxuriantes e onde abundavam as fontes e a água corria livre e com a sua refrescante, agradável e característica sonoridade mas, subitamente, desaparecendo embora dotando esses lugares de uma frescura exótica de delícia e de um som edílico e propenso ao pensamento e ao verdadeiro amor.

Pois bem, traçado que estará, a largas pinceladas o cenário onde a acção se irá desenvolver para quem tiver a paciência de me ler, regresso ao estúpido cerne da história que tão amargas emoções me despertou e que aqui vos trago certo de que as ireis compartilhar comigo.

A bordo do navio onde viajara, viajaram igualmente, além de muita gente totalmente incaracterística e quase que dolorosamente comum de tão vulgar que era, dois grupos de estranhíssimas pessoas: - o primeiro, constituído por duas senhoras de muito avançada idade que se faziam acompanhar, além dos trajes, já para a sua época, antiquíssimos, de um cão de raça “cocker spaniel” de cor acastanhada e que, a despeito do seu vastíssimo e sempre bem tratado pêlo, naturalmente comprido e encaracolado, envergava estranhas roupagens de agasalho, não obstante a época estival que atravessávamos, roupagens essas cruzadas por inúmeras correias de um couro luzidio e onde rebrilhavam fivelas e uniões de um prateado impecavelmente brilhante e bem tratado, tudo perfazendo um conjunto estranho e onde a única coisa com sentido era o próprio cão, dócil, amigo das donas mas que frequentemente lhes fugia, para seu grande alarme e susto, a fim de brincar com umas crianças, roliças, sempre afogueadas das brincadeiras a que, sem descanso, se entregavam perante o olhar indulgente e de elefante enternecido dos seus progenitores, um estranhíssimo casal de formas opulentas, o segundo grupo, enfeitados de imensas jóias de péssimo gosto, sempre em conjugal desacordo e não raro provocando mesmo aquilo a que se poderia chamar mesmo de “escândalo a bordo”.

Terminado o cruzeiro e o percurso de comboio que se lhe seguiu, já instalados nos aposentos que a cada qual fora destinado, inesperadamente se finaram as duas velhas deixando apenas como espólio visível o cão que já antes referi, o qual, liberto agora da rigorosa tutela das suas omnipresentes donas, se dedicava, a tempo inteiro e por absoluto às brincadeiras com as ditas criancinhas e que estas lhe propiciavam perante a complacência irresponsável dos papás e que constituíam em fazer ao cão o maior número possível de judiaria ao ponto de lhe terem, depois de embebidas de gasolina ou qualquer outro produto combustível, as respectivas vestes, lhes pegado fogo, deliciando-se, depois, com a aflição do cão que, doido de pavor, em vão procurava fugir do terrível mal que, em si mesmo, transportava.

Tentei, da forma mais rápida e racional possível, apagar o fogo que devorava o pobre animal, tentando abafá-lo com o meu próprio casaco ou utilizando a água que, à falta de vasilhas que a pudessem acondicionar, conseguia apanhar, em concha, com as próprias mãos.

Inexplicavelmente, porém, o cão fugia de mim e sempre que pensava poder alcançá-lo via frustradas as minhas intenções pois ele sempre se escondia em lugares onde o meu braço não chegava, propagando assim o fogo nos diversos locais onde se abrigava.

Estranhamente, porém, o fogo, vivo e crepitante, debitando enorme fumarada, não queimava o pêlo do cão, apenas lhe ia provocando enormes feridas que ficavam expostas nos locais onde as suas vestimentas haviam sido queimadas.

Em pânico confesso, coisa que eu reconhecia como rara em mim, procurei e encontrei uma rapariga veterinária que se prontificou a vir comigo prestar ajuda ao pobre animal.

Porém, à vista deste e das feridas que este apresentava disse-me necessitar de autorização superior para efectuar o tratamento uma vez que as donas já não existiam e, por conseguinte, não poderiam dar-lha. Insisti em que essa autorização seria coisa absolutamente dispensável perante o risco de vida eminente que o pobre cão corria e que eu próprio assumiria toda a responsabilidade pela intervenção que ela fizesse. Em vão. A sua recusa mantinha-se inabalável.

Juntara-se gente, como sempre acontece nestes casos, e eram as mais diversas as opiniões que se ouviam, umas dando-me razão, outras à jovem veterinária, tudo isto perante o gozo alvar e o riso selvático das gordas criancinhas que, totalmente impunes, a tudo assistiam, saltando e rindo, delirantemente felizes.

A questão arrastou-se por tão largo tempo que, pouco a pouco a revolta se foi apossando de mim a ponto de ter pensado mesmo em arrastar a veterinária para junto do cachorro para que ardesse com ele e com ela a burocracia que a paralisava.

Valeu-lhe, porém, o facto de eu ter acordado em sobressalto e, antes de me levantar de novo, ter reconhecido, aliviado, que tudo não passara de um estranho pesadelo o qual, depois de regressado à cama, felizmente não voltou, ao contrário do que já por duas vezes anteriores acontecera, mas que durante largo tempo me manteve acordado, fazendo-me pensar e tentar descortinar o fio lógico do que lógica alguma teria com certeza…

Certo que não encontraria qualquer explicação, terei acabado por adormecer e, quando, pela manhã me levantei, não procurei em Freud qual o significado de mais este estranho sonho, certo, como estava e estou, de que não o encontraria…
publicado por Júlio Moreno às 21:22
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