Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O quarto tinha dimensões exíguas…

Forrava-o um conjunto de panos ondulantes, de um vermelho vivo, e de onde, a espaços raros, sobressaía um tecido branco que dir-se-ia ali colocado para símbolo de uma pureza inexistente e ocultação do acto selvático que estava em vias de concretizar-se.

Não sei porque razão lá estava. Só sei que estava ali, de corpo e espírito presentes e sem que nada pudesse fazer que evitasse o que estaria prestes a suceder.

A mulher, muito nova, rapariga ainda, encontrava-se estendida sobre a espécie de cama que o conjunto de tecidos formava, e tinha um corpo lânguido, magro e distendido, dir-se-ia que não rígido mas que eu sentia ser só de aparência pois todos aqueles nervos, músculos e tendões que o formavam estavam tensos e retesados como cordas de um violino.

Ela era jovem e ia morrer. A vida, um tribunal ou qualquer força superior havia-o decidido e eu fora destacado para a assistir e acompanha-la nos últimos momentos sem ordem ou poder para intervir no que quer que fosse.

Mais envergonhado e apiedado do que revoltado, porque era a lei, os nossos olhares pouco se cruzavam mas eu sentia que, por vezes eram os dela, suplicantes e ao mesmo tempo duros e penetrantes, que se cravavam no meu corpo numa súplica muda para que lhe mudasse o destino pois queria viver.

Era neste ambiente e cenário dantesco de terror que, tanto ela como eu, estávamos e nos sentíamos envolvidos, impotentes e inconformados.

Subitamente o silêncio que até aí reinara foi interrompido por uma frase sua. Simples. A mais simples de todas que conseguia articular: - Não quero morrer… tira-me daqui, faz com que eu saia deste martírio sem sentido e sem proveito a que estou submetida,

A voz dela era pausada, próxima e longínqua e soava-me como se falasse de outrem que não dela mesma e naquelas condições. Na fronte formara-se-lhe uma pequeníssima perla de suor que me esforcei por limpar sem articular qualquer palavra que não conseguia.

Media pela primeira vez em a vida em tempo e o tempo, esse, era o que ali representava a vida.

Tentado a trocar a minha própria vida pela dela ela percebeu-o e disse-me que se eu tivesse de morrer também que morreríamos juntos pois lhe seria impossível continuar vivendo com semelhante peso sobre os seu frágeis ombros. E a verdade dessas palavras descobri-as eu nos olhos que fixamente me olhavam enquanto que os meus, fugidios se arredavam dos dela, da penitente de que eu próprio ignorava a falta.

Três vezes me levantei, acordei e, agitado por tudo aquilo que via sem entender, e por outras tantas vezes voltei a adormecer sem que esse sonho me abandonasse e deixasse de perseguir sempre que o sono e o cansaço de mim se apoderavam…

O dia rompeu finalmente e acordei com os pequenos pontos de sol coados pela persiana semi-aberta a darem-me na cara.

Respirei de alívio mas instintivamente olhei em meu redor como para me certificar de que tudo aquilo não passara de um sonho mau e de que, efectivamente, ela não morrera, Ao pé de mim não estava qualquer cadáver!...

Nessa mesma manhã e no computador procurei Freud e o seu livro Significado dos Sonhos na esperança de resolver ali todo o mistério. Nada encontrei, porém, que me elucidasse e servisse para me aquietar o espírito que durante todo o dia permaneceu vergado ao peso de algo que fora superior a mim e que eu não lograra vencer sem que soubesse sequer o quê…

PS. Este sonho foi tido em vésperas de DELARA DERABI ter sido criminosa e inesperadamente enforcada em nome de uma justiça vergonhosa o que só pude pude verificar dois dias... depois! Teria sido um sonho premonitório?
publicado por Júlio Moreno às 02:44
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