Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Às vezes penso que sei escrever…

É verdade. Às vezes penso que sei escrever e que isto de alinhar palavras a representar ideias é coisa fácil que não demanda mérito algum ou então bem pouco. Puro engano o meu!

Escrever é, na realidade, muito mais do que isso e muito mais difícil pelo que, revendo o que aqui vou deixando, acabo de ser assaltado pela ideia de ir propor ao “Infarmed” que passe a considerar os meus escritos como substitutos úteis e inócuos para os tantas vezes perigosos psicotrópicos e outras drogas indutoras do sono dos doentes que delas careçam…

Assim, com grande sacrifício para quem me lê – o que desde já reconhecidamente agradeço – aqui vou, para meu gozo e passatempo - escrevinhando algumas coisas: - histórias, críticas e, frequentemente, azedas palavras de revolta que me vão na alma, arrependimentos por tudo o que, devendo-o ter feito, nunca fiz, e reflectindo alguns pensamentos saudosos que ultimamente me têm perturbado e, estranha coisa!, vindo a dar algum sentido à minha vida!

E quando tudo pareceria indicar o contrário, à medida em que esses pensamentos se me vão alongando na distância da memória, mais nítidos se me vão tornando, quase ao ponto de os sentir de novo, como que reconvertidos nas sensações que então me provocaram e com a mesma intensidade com que então as vivi! …

Estranha coisa esta nossa mente! Estranho este extraordinário complexo de neurónios que, se funcionando bem, ou razoavelmente bem, como julgo ser o meu caso, revelam ser uma máquina enorme e poderosa mas que, se, funcionando mal, nos atiram para um canto, apodados de senis, de loucos, de escleróticos e de sei lá mais quê!

Quis Deus que os meus genes fossem perpetuados – pelo menos no que às próximas duas gerações se refere - em três filhos, dois rapazes e uma rapariga, em quem depositei todas as esperanças de continuidade mas que, ou por uma razão ou por outra, nem sempre têm sabido – ou podido – corresponder-lhes, talvez como reflexo crítico, não totalmente isento de verdade, do meu comportamento como pai ausente que, de certo modo, fui - se bem que justificadamente, creio - mas que muito me pesa por senti-lo de certo modo injusto, submetidos que foram a estranhas influências das quais não souberam nunca apartar-se.

Um dia me ocuparei deste assunto que é dos que mais me preocupam mas para o qual, sinto-o bem, não me encontro totalmente preparado ainda.

Mas, regressando a esta espécie de auto-análise crítica de acção e omissão que hoje decidi fazer, sei que se não fui bom pai também não fui aquilo que meus pais gostariam que tivesse sido como filho e para o que tanto e tanto se esforçaram, no almejado futuro que para mim sonharam, nele empenhando tantas vezes os parcos recursos económicos que iam conseguindo tudo isto como que duplamente me culpabilizando num julgamento que só talvez a poeira, assente, dos muitos anos de um porvir longínquo deixará que justiça se faça realmente.

Eu sei-o, eu sinto-o e, com isso, como que, dia a dia, veria mais nitidamente acinzentar-se a minha vida não fora o lenitivo que encontrei em hora em que já nada me seria lícito esperar em tal domínio...

Em compensação, porém e talvez, sei que prossegui uma vida diferente da que esperavam tendo atingido, sem necessitar do grau de doutor em coisíssima nenhuma, uma posição de certo e prestigiante desafogo numa vida quase sempre penosa e não isenta de escolhos mas onde me soube afirmar – passe a imodéstia – com dignidade e a competência com que algumas vezes, e publicamente, me gratificaram e de que, passe a incongruência, tão modestamente me orgulho, devo confessá-lo.

Dediquei a minha vida à causa da segurança pública e depois à da tão incompreendida segurança privada onde, pela boca de outros, que não da minha, cheguei a merecer a qualificação de ser um dos homens que, então, mais “de segurança” sabiam em Portugal.

Disseram-nos personalidades responsáveis que muito me honravam com os frequentes pedidos de opinião que me faziam, sabendo, como o sabiam, de que eu não era, nunca fora nem nunca seria, um “yes man”, característica acomodatícia tão em voga naqueles tempos onde subir na vida sem empurrar para baixo os que nos rodeavam era coisa difícil e requeria isenção, tenacidade e algum mérito.

Por isso e porque me apaixonei verdadeiramente pela profissão que escolhera, que a ela me tenha dedicado muitas vezes à custa do necessário descanso pessoal, muitas vezes não atentando em que não é o que mais trabalha em horas ou esforço físico o que mais mérito terá mas sim aquele que melhores resultados obtém com o seu método e disciplina mental a par de uma crescente curiosidade profissional que nunca se sacie.

Pois bem. Era precisamente aqui que eu queria hoje chegar. Ter podido, ou poder ainda, transmitir aos meus filhos todo o saber acumulado e de experiência feito, que sinto ainda possuir e que, pelo que vejo ao meu redor, tão útil lhes seria, a eles como ao próprio País, hoje repleto de gente incompetente, arrogante e só presumidamente responsável mas que não faz a mais pálida ideia do que está fazendo.

Não pude ou não soube fazê-lo pois essa seria a herança que eu gostaria de lhes deixar um dia parafraseando o grande e sábio provérbio chinês: - não lhe deixando a cana mas tendo-os ensinado a pescar…

Vai longo o texto onde sinto ter divagado um pouco embora esta fosse a mensagem que aqui queria ter deixado dita: - penaliza-me hoje enormemente o não ter sabido ou podido deixar ficar aos meus filhos – se calhar porque deles não fui nem serei credor de confiança – o que a vida me ensinou pois tenho a certeza de que para ambos teria sido benéfico: - para eles pela quase certeza de uma vida não só útil como melhor sob todos os pontos de vista, para mim pela certeza que me confortaria o saber cumprido o dever gerativo que a cada pai se impõe.

A Vossa indulgência e compreensão peço para o desabafo tão íntimo a que Vos submeti. Por isso, muito obrigado.
publicado por Júlio Moreno às 19:17
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