Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Uma visão política ou uma utopia?

O que são os Estados Unidos da América, a nação mais poderosa – mesmo em época de crise – hoje existente à face da terra? Não são uma pluralidade de Estados, de “pequenos países”, se considerados à sua escala já que cada um é, de per si, maior do que Portugal e que, no seu conjunto, formam a federação? E de todos, que eu saiba, só o Havay e o Alaska de encontram desgarrados – mas ainda assim relativamente próximos do grande continente.

São 50 esses Estados, além de outras pequenas possessões noutros locais do globo, formando um bloco que, no seu todo é governado por um Presidente e um conjunto de órgãos representativos do estado que formam o Governo Federal com jurisdição soberana sobre todos eles quando em causa estiver o superior interesse da nação no seu conjunto; em resumo, todos os estados governados por uma política federal única e de visão rasgada e uniforme, capaz de congregar o esforço de todos no interesse comum.

E, assim, a América, como vulgarmente se diz, ganhou a supremacia do mundo e se tornou no país que é já há muitos e longos anos, o “el dorado” dos pobres mais ambiciosos e oriundos dos restantes atrasados países do globo muitos dos quais enormes em área e fausto miserável mas microscópicos em pensamento e visão política.

E Portugal? O que é hoje? Nada, absolutamente nada em comparação com o que já foi, com o que teria obrigação de ter sido não fora a miopia política dos senhores da época, sobretudo daqueles que, tendo a faca e o queijo na mão, como sói dizer-se, honrando os mortos que o foram construindo, fizeram a revolução que daqui a dois dias se comemora.

Tivéssemos nós em 25 de Abril um Infante D. Henrique, um Condestável ou um D. João I e tudo teria sido bem diferente do que foi. Tudo. Em lugar deles, porém, só tivemos Condes de Andeiro e companhia limitada (mas não tão limitada quanto isso e como tanto gostaríamos que tivesse sido!).

É que era então bem possível, como desenlace lógico e coerente de uma disputa que se prolongava no tempo e dia após dias mais vidas ia ceifando, uma federação de estados do tipo “estaduniense” com a “sui generis” particularidade de, ao invés de formarmos um território contínuo e imenso, buscarmos a unidade na “pluricontinentalidade”, espalhados que estaríamos pelos quatro cantos do mundo, unidos pela mesma língua, pelos mesmos costumes e ideais, pela mesma vontade e o mesmo espírito intrépido de vencer!

Nos Estados Unidos da América a capital é Washington! Em Portugal, os Estados Unidos de Portugal, a capital essa poderia ser itinerante (até em tal matéria se inovando): - ora em Lisboa, ora em Luanda, em Lourenço Marques, em Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, em Macau e em Timor como em Ponta Delgada e ou no Funchal em cada local se empunhando a bandeira das quinas e se impondo a soberania unificada em prol de uma comunidade diversificada nos respectivos e ancestrais costumes.

Seria uma nova forma de Estado dotada de uma estrutura repartida o que nos teria forçado a desenvolver (e não a destruir, como veio a acontecer com a União Europeia) os meios de comunicação – a marinha, de que já fomos gloriosos pioneiros, a aviação e todos os demais meios de transporte de ideias e pessoas em ordem a fazer-se da União um bloco sólido e coeso tal como se sonhava aquando de Tordesilhas em que se repartiu o mundo novo e que os sucessivos traidores da pátria foram desmembrando, desbaratando e a teia “desurdindo” depois desta já tão esforçada e gloriosamente feita pelos nossos antanhos!

E que se viu em 25 de Abril? Uma Abrilada mais, uma revolução dita dos cravos que de há muito murcharam por ninguém lhes ter sabido regar os muito débeis caules, isto se é que eles alguma vez existiram e tudo não passou de um embuste dos que, querendo apenas mudar o seu estatuto militar, eventualmente prejudicado pelos oficiais milicianos que os ameaçavam, se viu, de repente e sem contar, a despeito das ideias vanguardistas que, depois, tão alto proclamaram, no final do dia com um país nos braços, qual criança indefesa e a quem ninguém sabia sequer mudar a fralda ou preparar o biberão e para a qual, bem atabalhoadamente e à pressa, tiveram de ir a correr chamar uma ama – o Marechal António de Spínola – para lhe pegar ao colo a e conduzir dos seus vacilantes e bem incertos primeiros passos…

Senhores: - a data que depois de amanhã se comemora não é a de um 25 de Abril feito para devolver a democracia ao Povo. Resultou nisso, sim, mas só por mero acaso já que o que verdadeiramente visavam os gloriosos capitães de Abril, aos quais se vieram depois sorrateiramente juntar aqueles cujo propósito só mais tarde ficou claro – analise-se o 16 de Março que o precedeu e o seu fracasso - era tão somente o afastar o ministro do Exército e, com ele, a concorrência que muito justamente lhes estavam fazendo os oficiais milicianos que no Ultramar davam o seu sangue nas diversas frentes enquanto que os do quadro permanente ficavam, até aí ocupados em passear as fardas de cadete da academia Militar pelo Rossio e depois, as mais das vezes, acomodados nos “staff” dos estados-maiores, planeando a maneira de se safarem dali com o mínimo de beliscaduras possíveis, isto salvo honradíssimas excepções como as do hoje e tão tardiamente feito major-general, o destemido Comandante dos Comandos, Jaime Neves, a tropa que, sob o comando do general Eanes nos livrou de Cunhal e comandita no 25 de Novembro de 1975.

Como aqui já tenho referido, fui um dos privilegiados que tive a honra de trabalhar muito próximo do Marechal Spínola que me concedia o favor de solicitar frequentemente a minha opinião, na qual confiava, e com quem longamente tive oportunidade de abordar estes e outros assuntos de natureza vária.

Posso dizer-vos que lhe conhecia o pensamento, tal como muitos camaradas que com ele colaboraram – os chamados por um certo e invejoso sector militar de “spinolistas” – e um dia, quando em resposta a uma sua pergunta sobre o que pensava eu do Ultramar e da sua possível solução, lhe respondi - Penso, meu General, que a emancipação das colónias será um facto intransponível a bem curto prazo. Porém, assim como, por força da lei, um pai tem de aceitar a maioridade e a independência dos seus filhos aos 21 anos, também a mãe pátria terá um dia de aceitar a independência dos seus filhos ultramarinos, restando-lhe apenas, tal como aos pais sábios e prudentes, o terem cuidado da sua educação concedendo-lhes a formação bastante para que, uma vez livres da tutela, possam singrar por si e pela via da independencia mas sempre no respeito devido aos progenitores e na prévia audição dos seus conselhos e pareceres muito embora sejam livres de os virem, depois, a seguir ou não.

Recordo-me bem do sorriso enigmático do General ao ouvir estas minhas palavras…

E foi isto ou algo parecido o que fizemos, depois daquela situação vivida do Largo do Carmo? Declaradamente e infelizmente: -não!…

A Santa Apolónia, vindos das tocas onde se acoitavam, começaram a chegar os abutres que pouco a pouco se foram empoleirando e enchendo de poder – poder esse consentido por quem tinha obrigação estrita de nunca o ter feito, e que vemos hoje? Um Ultramar vendido e por longos e tenebrosos anos completamente perdido, e nós por cá, transformados num país paupérrimo, sem crédito nem glória, debatendo-se com uma crise ideológica profunda, quase uma crise de identidade – muito maior do que aquela que se vê à superfície, minado nos seus alicerces mais profundos e onde surgiu, como que vindo do “nada”, do mais absoluto “nada”,, uma nova classe de pseudo políticos aos quais, pouco a pouco, mas inexoravelmente, vão caindo as máscaras que bem cedo foram arranjando para melhor poderem enganar este povo generoso e hábil tanto no bem como no mal mas que, virado do avesso, nada nem ninguém saberá travar… pelo que mais uma vez citarei a Caius Julius Caesar que dizia haver lá para os confins da Ibéria um povo que nem se governava nem se deixava governar...

Contar-se-ão por muito escassos o número de homens verdadeiramente íntegros que há hoje neste país e um dos quais será, seguramente, o actual Presidente da República, sob cuja tutela de primeiro-ministro, Portugal já viveu tempos de alguma prosperidade e, sobretudo, de fundamentada esperança…

Hoje? Que vemos nós?

É o embuste e a intriga que vemos, é falsidade e a mentira que reina…

Tivesse eu a idade e a força que tinha quando, no verão quente de 75, “piedosamente”, me recolheram em Caxias por 8 meses (254 dias), e talvez ousasse contribuir um pouco para que tudo pudesse ser um pouco diferente, pelo menos para mim era-o com certeza…

Porém, como já não tenho e os meus 73 anos feitos já mo não consentem, resta-me dizer-vos que quem vier atrás que feche a porta pois a corrente de ar de leste que venho sentindo está a tornar-se verdadeiramente insuportável e tenho sérios receios de me vir a constipar…
publicado por Júlio Moreno às 17:46
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