Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Frequentemente me lembro dela com um misto de saudade e de ternura…

Viera com a família de Vila Real que a acolhera ao abrigo do programa da Caritas para as crianças refugiadas da guerra.

Correria, penso, mas não estou bem certo, o ano de 1949 ou de 50, e recordo perfeitamente o seu rosto de criança ainda mas que já mostrava bem os traços de uma linda rapariga e depois da bela mulher em que mais tarde se transformaria certamente. O loiro acinzentado dos seus cabelos curtos e revoltos condiziam plenamente com a cinza dos seus lindos olhos e com a palidez acentuada do seu rosto que, com o restante do seu delgado corpo, completavam a sua frágil e delicada figura. Era o primeiro ser que eu via assim tão diáfano, doce, suave, harmonioso e sereno, quase etéreo e irreal, como me parecia!

Como disse, ela era linda e tudo nela era proporcional e perfeito numa rapariguinha da sua idade, tinha 13 anos mas, como tive a oportunidade de verificar depois, com uma experiência de vida como jamais pensara poder coexistir numa rapariga dessa idade. Fora o que a guerra dela fizera. Ela que tinha visto e sua família ser fuzilada pelas tropas alemãs as quais, numa chuvosa manhã de Inverno, havia visto irromper pela sua pequena propriedade rural adentro e na própria casa e que, na sua frente, violara repetidamente a sua mãe, tia e irmã mais velha depois de fuzilados o pai, os dois irmãos e o tio que, em casa e em tão má hora, se haviam refugiado com a família.

Chamava-se "I" e, tão presentes e gravados na sua memória estavam todos aqueles horrores a que assistira que, sempre que éramos sobrevoados pelo avião da carreira de Londres, que por ali passava duas vezes por dia, ou por qualquer outro, logo corria a meter-se debaixo de uma mesa ou de qualquer outra coisa que por ali perto estivesse e lhe pudesse oferecer o abrigo que o seu condicionado subconsciente ainda reclamava. Era austríaca e viera até às minhas termas serranas com a família que a acolhera tendo sido ela minha primeira experiência como mulher que, bem ao meu invés, que não passava de um imberbe e curioso rapazinho de 14 anos, estudante do liceu e totalmente ignorante dos segredos da vida, designadamente daqueles que eu supunha só poderem ser pertença dos adultos ou dos jovens a partir de certa idade, me mostrou que era. 

Sozinhos, os dois quase da mesma idade, tinhamo-nos acostumado e ir falar para o extremo da esplanada, para uma espécie de miradouro sobre o extenso vale onde, sob um velho sobreiro que ali havia, haviam construído uns toscos bancos de madeira que emolduravam uma pequena mesa de pedra, redonda como a mó de um moinho e assente sobre um grosso e redondo pilar, também ele de pedra e que, com toda a segurança, a sustentava. E era aí que ela satisfazia, no seu ainda incipiente mas esforçado português, toda a minha mórbida curiosidade em perguntas que lhe fazia sobre o que tinham sido os horrores da guerra que presenciara e que vivera, o que, no meu imaginário infantil mas marcadamente masculino envolvia desde logo todo um conjunto de acções bélicas, tanto de heróis como de vilões e em que os homens se digladiavam uns aos outros sem que, ao certo, soubessem por que o faziam.

Durante a guerra, juntamente com meu pai, habituara-me a ouvir a BBC e os relatos "ao vivo" do extraordinário locutor que foi o Fernando Peça... Eram tão vividos, emotivos e dolorosos os relatos que, a meu impiedoso pedido, ela me fazia e que tanto lhe custariam, eu sentia-o, mas que tinha igualmente de deixar ficar a alguém como testemunho de todo aquele seu sofrer, e que eu tanto a incentivava a contar, pelo que, muitas vezes, a mim se encostava, encolhida e tremente, como que procurando no meu corpo um refúgio seguro para as suas próprias recordações tão reais as deveria sentir à medida em que delas se ia recordando. E desses contactos físicos, dessa aproximação de sentimentos e do calor tépido do seu franzino e delicado corpo, terá nascido algo de diferente que, tanto nela como em mim, fez despertar os estranhos sentimentos humanos que em nós residem em silêncio e a que quase ousaria em chamar de amor, mas que, como é normal, e pela parte que a mim se referia, só muito mais tarde se deveriam e poderiam revelar. 

Não obstante isso não negarei aqui que essa aproximação excitava os meus sentidos e que terá sido essa a vez primeira em que senti que era, ou melhor, que viria a ser um homem. E de tal modo chegou mesmo a fazê-lo, tão abertamente e sem rodeios nem temores de qualquer espécie, afirmando-me que o acto de fazer amor era comum acontecer a qualquer momento durante a guerra, em qualquer cave, escombro ou campo aberto, em locais não atingidos ainda pelas granadas ou onde estas tivessem aberto como que convidativos ninhos e desde que se juntassem um homem e uma mulher ou um rapaz e uma rapariga que não era necessário que se conhecessem mas sim que de tal ambos estivessem famintos e talvez para que, no meio de todo aquele inferno, se sentissem ainda vivos. Ela, porém, nunca o fizera, até porque era muito pequenita nessa altura, mas desde sempre que o desejo de o fazer a perseguia pelo que julgava ser agora, que me conhecera e que de mim gostava - como tantas vezes chegou a dizer-mo - e o local lhe parecia propício, que sentia ter chegado o seu momento e pelo qual tanto e tanto esperara.… Confuso e perplexo, não só recusei como, assustado, fui adiando esse dia, que nunca se concretizou, revelando uma imaturidade e pudor tais que, bem ao contrário do que seria de esperar-se, talvez mais a tenham feito exacerbar na sua própria e quase delirante excitação e desejo com o propósito, nunca confessado mas tantas vezes insistido, de ser ela, então, a iniciar-me. Com a estranha e mista sensação constante de desejo e fuga, que de dia e de noite assim me perseguia, o tempo da sua permanência decorreu tão rapidamente que, a despeito das incipientes aproximações já narradas e sempre por mim abortadas no último momento, o que hoje se me afigura só compreensível pela noção que tinha da inviolabilidade e de ser quase intocável a mulher amada, nada aconteceu entre nós a não ser o facto de ter visto, e pela primeira vez na minha vida ao natural, o corpo belo e quase nu de uma rapariga linda, evidenciando-se-me então um supremo esforço de tentação que não logrou vencer-me.…

Hoje, tendo a minha vida sido o que foi, confesso que não sei se para bem se para mal recordo-a muitas vezes!...

Mas o dia da partida chegou. Foi no fim do almoço, recordo-me como se fora hoje, há pouco tempo atrás ainda. As malas já no carro e as costumadas despedidas. Eu, encabulado, confesso-o, andava por ali vendo que ela chorara. Inesperadamente, porém, e sem que nada o fizesse prever ela atirou-se ao meu pescoço e, desfeita em lágrimas, disse, alto e bom som, para que todos bem ouvissem, como ouviram, que me amava e queria que eu fosse com ela ou então ser ela a ficar ali e, ao mesmo tempo que assim falava, deu-me um beijo na boca, longo, amante e dolorido... o primeiro beijo de amor que recebi em toda a minha vida e ao qual não sei - e em consciência não o poderei nunca afirmar, até porque não saberia como fazê-lo, se o correspondi ou não! Recordo-me apenas do tremendo rubor que me terá colorido as faces, que senti que me ardiam como se queimadas por fogo abrasador, e durante todo esse verão - como ao longo desta também já longa vida! - rara foi a noite em que dela me não tivesse lembrado e até hoje a guardo num lugar cativo no meu cantinho de afectos que sei existir no meu coração, hoje pertença de outrem a quem já narrei esta história e que me tem incentivado a procurar saber o que foi feito dela, coisa que nunca fiz mas o que prometi fazer, e farei, se for por ela acompanhado.…

publicado por Júlio Moreno às 19:34
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De me a 15 de Abril de 2009 às 14:05
Precisa de a encontrar. O primeiro amor fica eternamente gravado.
Procure-a, por favor!


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