Sábado, 11 de Abril de 2009

Assaltam-me hoje as recordações daqueles tempos em que fui realmente feliz!...

Era criança e passei a jovem, cheio de ilusões, mas revoltado por uma condição que me obrigava a passar o verão na montanha, longe da praia, do mar – a atracção de toda a minha vida! – dos namoricos citadinos que aconteciam ao longo do ano, desterrado no meio de mato e das pedras que só mais tarde compreendi e comecei a amar, quase sempre sem gente da minha idade para com ela partilhar as aventuras próprias da minha geração – isto desde os onze, doze anos até aos dezoito, data em que, por circunstâncias muito especiais , ingressei na vida militar onde me mantive por longos 15 anos primeiro no Exército e depois na Guarda Nacional Republicana.

Julgava-me, assim, vítima de uma tremenda injustiça, desterrado, isolado do mundo e dos meus anseios mais verdadeiros mas, hoje o reconheço, sendo, afinal, feliz, e feliz de uma felicidade que não mais regressa em toda a vida muito embora aqui e além ela me tivesse acenado e perpassado por mim, fugidia e mas nunca agarrada a tempo de não poder mais fugir.

E quem me dera poder regressar hoje a esses tempos e aproveitar, agora em plenitude, tudo o que então desperdicei Isto porque, na realidade, era feliz e tão feliz que, independentemente do poder regressar nos anos e na idade, coisa que julgo hoje de somenos valia para mim quando creio ter encontrado finalmente algo porque lutar, ter encontrado o verdadeiro farol que sempre procurei para por ele poder rumar a minha vida.

À época desse meu calvário, que ia de Junho a finais de Setembro já que meu pai, como director-clínico das termas, era obrigado, por dever do respectivo cargo. a nelas permanecer durante esse período de quatro longos e intermináveis meses os verdadeiros desterrados éramos nós, minha mãe e eu, que ele, serrano de origem e por temperamento, rejuvenescia sempre que para lá ia a despeito do muito trabalho que tinha com as enormes canseiras de ser simultaneamente temporário médico de aldeia cujas doenças e doente dir-se-ia que por ele esperavam todo o ano para só nessa altura se manifestarem tal era a empatia que desde cedo se gerara entre ele e os “seus doentes”, com o carinhosamente a todos se referia, gente serrana e muito pobre e que vinha dos quatro cantos da região para consultá-lo. talvez conhecedor da fama de bom médico que o acompanhava desde a sua longa permanência na vizinha vila de Vidago onde fora médico municipal por duas décadas e onde sempre vivi até aos meus dez anos de idade.

Minha mãe era citadina e pouco dada a conhecimentos constantemente renovados, como sempre acontece nas termas onde os aquistas se revezam no máximo de vinte em vinte dias; eu, com as ilusões próprias de uma juventude que desabrocha, desejando outros lugares, outros bulícios, outras gentes da minha geração, o que, como disse, nem sempre acontecia já que tempos havia em que era eu sozinho perdido comigo mesmo no meio daquela gente "velha" toda e quando algum rapaz ou rapariga da minha idade aparecia nem sempre o que a princípio parecia ser uma bênção caída dos céus, se transformava na pretendida realidade, antes num fantasmagórico pesadelo, dada a antipatia natural que entre nós surgia, num calvário que, se algo de diferente não viesse entretanto amenizar, mais o aumentava num mínimo de quinze a vinte dias!

Valia-me então a “Rola”, a minha querida égua, que me levava, ora a passo ora voando, por todos aqueles caminhos da serra que ele conhecia e que para mim eram sempre fonte de inspiração e depois mesmo de admiração pela constante renovação que neles via a cada nova passagem que por eles ia fazendo.

Saudades, meu Deus, saudades!... Saudades de tudo o que era verdadeiramente verdadeiro, sadio, poeirento e cru e onde aprendi a olhar um pouco para dentro de mim mesmo o que a pouca gente é dada a felicidade de poder fazer contentando-se com a futilidade do que nnos rodeia, com a lisonja e a mentira interesseira que os envaidece e, pobres infelizes!, tantas vezes nos esquecendo de que só no que é simples e óbvio está o segredo verdadeiro de uma existência plena e que merece ser vivida.

Sem que o soubesse então como sei hoje, e hoje o sinto, eu tive essa felicidade.

Pena foi que ela se não mantivesse pela vida fora e cedo se transformasse no pesadelo que fui arrastando ao longo de uma existência oca e sem sentido, não fossem os filhos que, para meu bem ou meu mal, gerei para este mundo e que, por sua vez já me deram os netos em que, no longínquo amanhã de ontem e que tão célere hoje que se aproxima, farão com que seja, talvez, por alguém e nalgum dia recordado!

O meu destino, porém, esse já está traçado: - alguém muito querido cremará o meu corpo e deitará ao mar metade das cinzas que dele restarem, enterrando a outra metade na raiz do mais bonito castanheiro ou carvalho de um lugar já escolhido pois quereria poder continuar-me no frio sangue de alguns peixes, dos tantos que já vi, e na seiva vivificante que irá subir até à verde folhagem de uma majestosa e secular árvore serrana que, dobrando-se, por vezes, ao forte vento de algumas tempestades, irá aguentar e manter por séculos a vida que, para mim e enquanto homem, Deus terá querido que fosse tão curta!
publicado por Júlio Moreno às 11:09
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