Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Lavar com sangue a honra ou ofensas recebidas não é “crime”…

Como aqui tenho narrado, parte da minha mocidade, durante as épocas estivais, passei-a eu em terras transmontanas, mais propriamente em terras barrosãs onde, persistia, e tudo leva a crer que ainda hoje por lá se mantenha, ainda que mais atenuada pela prolífera e contagiante dialéctica a que nos habituámos, alimentada que é pelo quarto e o mais incontestado e omnipresente dos poderes do “reino” (refiro-me ao jornalismo sensacionalista e pouco escrupuloso, para o qual o sigilo previsto na sua deontologia profissional e que parece nem sequer ceder perante a Justiça - que talvez não haja! - constitui uma das mais poderosas armas da actualidade) ainda hoje persiste, dizia eu, uma certa forma de pensar e um arreigado e peculiar sentido de “justiça”, que aqui chamarei de justiça verdadeira, dura, nua e crua e não a justiça palaciana dos nossos dias, com particular destaque para o meio político onde a opacidade e a duvidosa honestidade factual e intelectual de quem pode ou julga que pode é hoje por demais evidente e de todos sobejamente conhecida.

Nessas terras e nesses tempos, pelo menos, não era assim.

Por lá se dizia mesmo que matar não era crime desde que o facto tivesse sido praticado para defesa da honra por outrem conspurcada ou, por qualquer forma, violentada, sendo sua base legítima a defesa contra a soes mentira, a perversidade do acto ou o interesse puramente material que estivesse em causa e se não contivesse dentro dos limites de uma razoável curiosidade ou de uma inconsequente e inofensiva falta à verdade.

Vem isto a propósito de duas pequenas histórias que vos irei narrar, uma ouvida, outra vivida, em que uma vida humana foi o penhor e o preço exigidos para o que antes afirmei.

Esclareço, entretanto, que qualquer pessoa – e vários foram disso exemplo – se poderia esquecer no parque das termas, sobre qualquer banco ou caída no chão, de uma qualquer bolsa ou carteira recheada de notas de banco que, no dia seguinte, indo procurá-la, a iria seguramente encontrar, muitas vezes com evidentes sinais de ter sido remexida – a curiosidade que já mencionei – mas com o conteúdo rigorosamente intacto.

Atraiçoar, falsear, trapacear, roubar sim, tudo isso era pecado, eram crimes. Matar, desde que em certas condições, não.

E foi assim que, certa manhã, pude observar que do consultório de meu pai saía um homem, que reconheci como sendo um dos guardas da noite, e que este vinha com a cabaça ligada e algo vacilante no andar.

Algum tempo depois pude ouvir meu pai, que comentava o caso com um dos sócios da estância termal, dizer que ele tinha uma profunda ferida na cabeça que havia sido suturada com bastantes pontos e que esta lhe haveria sido feita por um cunhado com o qual mantinha certas desavenças de carácter pessoal nas quais se sentia ofendido na sua dignidade razão por que, na noite anterior, ao encontrá-lo e tendo abordado o tema sem terem chegado a acordo, fora depois por este esperado e selvaticamente agredido à traição com uma sacholada na cabeça que o não matara por pura sorte. Daí o tratamento de urgência a que o haviam trazido os que o encontraram prostrado num caminho e a peremptória afirmação que, durante este, reiteradamente fizera a meu pai, que se esforçara sempre por contrariá-lo fazendo-lhe ver os gravíssimos riscos de uma tal atitude, de que nessa noite iria procurar o cunhado e que o mataria.

Pensando havê-lo convencido a desistir de tal vingança, meu pai comentava o caso com quem antes referi, nem um nem outro tendo levado a sério as ameaças proferidas e que ambos atribuiriam à revolta de que, na ocasião, o homem estaria possuído.

Porém, o certo é que, na tarde do dia seguinte, um cabo e duas praças da GNR da vila mais próxima se apresentaram nas termas para o prender, entregando-se ele sem oferecer qualquer resistência, pois, na verdade, nessa noite havia procurado o cunhado e sobre ele havia desfechado vários tiros de pistola, matando-o. Assim lavara a sua honra e dignidade perante a emboscada cobarde de que tinha sido vítima e que, como se provou, nada nem ninguém deste mundo lho teria feito perdoar…

O segundo caso foi-me contado por pessoa digna de todo o crédito e que conhecera ambos os intervenientes.

De regresso a casa, já tarde e pelo monte, certo homem viu uma raposa que, ligeira, se refugiara na sua toca pelo que, não tendo arma de caça, foi a casa de um cunhado pedir-lhe emprestada a caçadeira para com ela abater a raposa cujo esconderijo lhe descreveu de imediato e com todas as minúcias.

Perante a estranha evasiva do cunhado em emprestar-lhe a arma, alegando tê-la já emprestado a outrem cujo nome terá mencionado mas que residia longe do local onde ambos se encontravam e desconfiando de que essa recusa não passava de desculpa para ser ele mesmo a procurar a raposa e a abate-la para si, o nosso homem agradeceu e, dirigindo-se de imediato ao prior da freguesia, que, pelos vistos, era também, caçador, a ele lhe pediu emprestada a arma dizendo-lhe para que o fazia.

Emprestada esta pelo prior, carregou-a com chumbo de zagalote e, em vez de procurar a raposa na sua toca, colocou-se de atalaia numa curva do caminho certo de que seria o próprio cunhado, que lhe negara a arma, quem iria procura-la no local que, cheio de boa fé, lhe revelara.

Dito e feito. Já noite cerrada eis que surge o cunhado de arma em punho a caminho do esconderijo da raposa. Não andou muito o pobre coitado mentiroso pois dois tiros de zagalote vararam-no de lado a lado matando-o de imediato e o nosso assassino, cometido o acto, terá então ido restituir e arma ao pároco apresentando-se de seguida no posto da Guarda onde declarou o que fizera e porque o fizera.

Condenados ambos, como facilmente se depreenderá, cumpriram tranquilamente as respectivas penas sendo certo que o magistrado que os condenou terá certamente considerado como atenuantes os motivos invocados, conhecedor que seria da índole daquele povo serrano e verdadeiro.
publicado por Júlio Moreno às 18:36
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