Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

O prometido que não pude cumprir

Tal como creio que já havia dito aqui, venho contar-vos hoje mais um dos episódios da minha mocidade, talvez aquele de que mais me arrependo e que, quando o relembro, como agora, mais toca a minha alma e faz doer o meu coração. Oxalá saiba transmiti-lo com o sentimento simples mas profundo que ele me provoca e que, de tão singelo que é, consiga tocar igualmente os vossos corações como desde sempre vem tocando o meu.

Aconteceu com a Tia Felismina.

Era ela mais uma das lavadeiras da estância termal de que vos tenho falado. Era a mais velha, e que passava o dia debruçada sobre o lavadouro do rio, pequeno ribeiro represado naquele ponto, de águas cristalinas e tão puras que, juntamente com o esforço das lavadeiras, conseguiam por a roupa branca mais branca do que a própria neve.

Figura franzina, já de idade avançada desde o primeiro dia em que a vi – teria eu aí os meus onze ou doze anos – nariz aquilino, tez morena e pele já enrugada, muito faladora, constantemente me repreendia sempre que eu, a montante da represa onde estava o lavadouro e onde o sabão não chegava para incomodar e afugentar os peixes, me aproximava demasiado do rio, aí um tanto fundo, tentando pescar com um anzol feito com um alfinete alguns escalos do rio e, com eles, repovoar uma segunda represa, essa existente mais abaixo, no parque e sob a velha ponte de madeira que levava ao balneário.

Recordo-me de pensar que a Tia Felismina me parecia como um grão-de-bico a que tivessem colocado um lenço tal como o costumavam usar as mulheres da nossa aldeia.

Anos passados, numa bela manhã estival, estava a Tia Felismina já reformada e a viver na sua casa de Vilarinho da Mó, povoação serrana já por mim aqui referida e onde os automóveis continuavam a não poder ir, um grupo relativamente grande de hóspedes do hotel, do qual eu fazia parte, decidiu dar um passeio pela serra indo, por sugestão minha, até àquela pitoresca e tão autêntica aldeia barrosã, hoje em vias de extinção como tempos depois se veio a verificar quando o asfalto por lá apareceu e com ele os tractores, o ruído dos motores e os gases poluentes dos respectivos escapes, um ou outro carro, a electricidade e a própria televisão – era a civilização que chegara e que hoje tanto nos faz pensar, por destruidora e só aparentemente confortável quando abusivamente e excessivamente utilizada!

Como levava a minha máquina fotográfica, fui tirando algumas fotografias pelo caminho ao intrépido grupo que assim se havia proposto a desbravar aquele, para muitos, autêntico deserto barrosão.

Foi, pois, conversando, rindo e tirando fotografias que o caminho até à aldeia, talvez uns seis ou sete quilómetros, foi percorrido e muita gente pode então ver como se vivia no meio da serra em casas feitas de irregulares pedras toscas, formando paredes como que tecidas, de tão harmoniosamente que eram colocadas umas sobre as outras, grossas portas e janelas, quando as havia, de maciço carvalho, todas cobertas de colmo e sem quaisquer resquícios de conforto citadino.

Chegados, logo perguntei pela Tia Felismina que, como figura carismática que era e de quem já havia falado ao grupo ao longo do percurso, logo alguém, se prontificou a ir chamá-la pelo que ela, em sabendo-se procurada, logo se apressou a vir ver quem seria, ali logo me apertando num longo e carinhoso abraço e efusivamente saudando a todos os restantes que certamente lhe recordavam os tempos que passara nas termas onde os via passar a cada passo e com quem chegava mesmo a falar algumas vezes.

Lembrei-me então de lhe pedir para tirarmos todos ali uma fotografia que prometi enviar-lhe logo que revelada. Logo acedeu de bom grado mas com uma condição: - a de que nela figurassem também alguns elementos da sua própria família pelo que se apressou de imediato a despachar emissários em todas as direcções convocando a Maria, a Zefa e a Joaquina, o Tonho, o Manel e o Zeferino e muitos, muitos mais que, no momento, se encontravam nas suas lides campestres dispersos por largas áreas.

E foi assim que tive a oportunidade de verificar, e com espanto devo confessá-lo, de que quase toda a povoação era familiar dela pois tantos eram os que se juntaram e a quem ela chamava pelos respectivos nomes que tive de colocá-los em escada e meia-lua e a uma distância considerável para que a objectiva os pudesse captar a todos. No meio, risonha e irradiando felicidade naqueles olhitos pequeninos e perscrutadores, o rosto que velho e enrugado mas que me era tão caro, com o seu eterno lenço pela cabeça, a tia Felismina!

Porém, desilusão das desilusões, quando me preparava para tirar a primeira foto reparei que o rolo tinha acabado não possuindo eu qualquer outro de reserva. Assim sendo, e sem coragem para comunicar tal facto a quantos ali se aprontavam para o acontecimento, sobretudo por ela, não fui capaz de dizer nada e… apontando a máquina, simulei tirar as fotos que eu sabia nunca existiriam, prometendo depois, quando reveladas, enviar-lhas como presente.

Perante tal impasse, que teria tido a obrigação de ter previsto, tinha já arquitectado para mim mesmo uma desculpa que só mais tarde comunicaria: - as fotos teriam ficado mal, muito mal mesmo, pelo que lá voltaria depois a pretexto de as refazer e assim corrigir os erros cometidos. Ao grupo, porém, e já no regresso, comentei o lamentável sucedido sendo o comentário unânime e reconfortante de isso eram coisas que muitas vezes e sem querer aconteciam…

O final das férias aproximava-se e com ele o términos da época balnear pelo que deixei para o ano seguinte o compromisso que a mim mesmo me impusera: - voltar àquela aldeia e tirar então as fotos que não tirara da primeira vez.

Regressado no ano seguinte com o propósito que acima referi, do qual me não esquecera porque, com estranho presságio, ele me perseguira todo o tempo, preparava-me para regressar a Vilarinho da Mó quando alguém me disse em tom simples de conversa que a tia Felismina falecera nesse Inverno!

Creio que as almas sensíveis que tiverem lido as linhas que aqui escrevo não poderão deixar de sentir o que eu então senti e todo esse sentimento de remorso que me tem acompanhado desde esse momento…
publicado por Júlio Moreno às 12:33
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