Terça-feira, 7 de Abril de 2009

O estranho caso do Ninho da Águia

Era uma manhã cheia de sol, de um sol brilhante e sadio de Julho ou Agosto, não me recordo bem, e trotava eu a cavalo, na minha querida “Rola”da qual já tenho aqui falado e saudosamente recordado, pela imensa planície sobranceira à estancia termal onde todos os anos passava os meus verões que bem poderia assemelhar-se às pradarias do “Far West” dos “cowboys” americanos, de solo vermelho, irregularmente pedregoso e poeirento, de mato rasteiro, de urze, carqueja e tojo, a caminho de Vilarinho da Mó , pequena aldeia perdida nos confins do mundo e à qual voltarei daqui a dias para vos narrar um dos mais tristes episódios da minha mocidade e que, além de outras, tinha a inacreditável particularidade de nela ainda viver gente que nunca vira um automóvel mas que conhecia na perfeição os aviões que, por volta do meio-dia e nem sempre muito alto, por ali passavam diariamente a caminho de Londres! – quando, reparando uma vez mais no estranho e longínquo monte de pedra que me ficava à direita, mais semelhante a um vulcão e do qual conhecia uma história, que já ouvira contar a muita gente, e que o dava por ser o “ninho da águia” mas que eu nunca visitara pessoalmente, pelo que me decidi a ir vê-lo mais de perto tal era a curiosidade que nesse momento me assaltou.

Assim, desviando-me do caminho que levava, galopei na sua direcção parecendo-me que a distância que dele me separava em vez de se encurtar a cada passada da “Rola” cada vez mais se alongava, ficando, na realidade, longe o tal “ninho da águia”.

À medida em que me ia aproximando, porém, maior e mais imponente ele aparecia ante os meus olhos, feito que era de enormes penedos de sólido granito, caprichosamente sobrepostos, arredondados pela erosão dos séculos e em boa parte cobertos por aquele musgo acinzentado e seco que tão peculiar é nas rochas da região, sobretudo naquelas altitudes, cerca dos 900 metros.

Chegado ao sopé das grandes massas de granito que o formavam e tentado a escalá-las até ao topo pois, a ser verdade o que diziam, seria aí que se deveria encontrar o famoso e tão falado ninho, pus-me a estudar qual o processo de escalada de que me iria servir, eu que nunca fui alpinista e sempre tive, como tenho, um confessado receio por essas aventuras, mas que, na ocasião, a curiosidade, aliada à natural imprevidência juvenil que me movia, me impediu de pensar nisso sequer.

Encontrado o caminho, reentrância aqui, rebordo acolá, deixando a “Rola” livre, de rédeas soltas no pescoço, como sempre, tasquinhando alguns cardos ou folhas mais tenras e mais apetitosas de carqueja que por ali ia encontrando, lá fui fazendo a escalada que, à medida em que progredia, mais perigosa (e radical, como se diz hoje) me parecia pois cada vez mais pequeno se me ia afigurando tudo o que para trás deixara.

Reconheço-o agora, como quase de imediato o reconheci, ter sido um tanto temerária aquela aventura tanto mais que a um pé ou a uma mão em falso corresponderia necessariamente uma queda que me não deixaria em muito bom estado, tanto mais que ali não havia qualquer espécie de socorro medindo-se por algumas léguas de distância o que mais próximo estaria acaso alguém passasse e me providenciasse esse socorro.

Imprudências de juventude a merecerem severo correctivo mas que, a despeito de todos os conselhos que lhes dermos, toda gente nova teima e teimará sempre em cometer…

Avançando vagarosa e cuidadosamente na subida, ciente de que voltar para trás me seria já difícil, acabei por alcançar o cume onde, para meu grande espanto, vi que se abria um enorme, largo e fundo buraco, naturalmente cavado na rocha, e com o fundo meio oculto pela sombra mas onde pode distinguir o que me pareceu serem gravetos de mato e, no meio destes, uns ovos de um amarelo esbranquiçado.

Pensava ainda se seriam, de facto, os ovos de águia quando um súbito pressentimento, seguido por um nervoso relinchar da “Rola”, me alertaram para algo que de estranho se estaria a passar naquele preciso momento. Assim e deixando de observar os ovos, levantei a cabeça a tempo de ver uma enorme sombra projectar-se sobre a penedia e uma pássaro descomunal, certamente a águia, planando na minha direcção, com as patas e garras bem projectadas para a frente, numa deliberada atitude de ataque ao intruso que ousava assim devassar-lhe o ninho.

Talvez porque o gesto instintivo que tive ao proteger-me, levantando o braço, e o facto de rapidamente me ter agachado o mais possível, fez com que o ataque eminente se gorasse e ela, de uma plumagem negra, diria que um tanto avermelhada, e de uma enorme envergadura de asas – mais de metro e meio, estimei eu! – passou por mim para logo voltear sobre um dos lados e voltar ao ataque, ataque esse que terá repetido por umas três ou quatro vezes mas que, quis a providência divina, nunca teve o êxito que a sua autora pretendia, após o que se afastou, pairando mais alto e em círculos, talvez delineando outra estratégia ou apenas observando quais as minhas reais intenções.

Devo confessar que naquele momento, em que os espíritos costumam ser mais lúcidos e mais ágeis na resposta às adversas circunstâncias, eu, pelo contrário, me encontrava totalmente tolhido pelo medo, medo esse devido a duas ordens de razões: - primeiro, porque temia um novo e bem sucedido ataque da águia que teimava em sobrevoar o local e, segundo, porque o caminho que escalara me parecia agora inacessível na descida de tão perigoso que era, de facto.

Porém, nesse momento, algo dentro de mim me disse que, contornando o enorme buraco e do outro lado das rochas, o que dali não via, iria encontrar um meio fácil de descida, uma espécie de escadas toscamente talhadas na rocha e que, por elas, poderia facilmente e em relativa segurança atingir o almejado chão.

Foi o que fiz sem hesitar e, para meu enorme espanto – de hoje, que no momento nem em tal devo ter pensado – as tais escadas lá estavam e por elas desci a salvo e lestamente logo montando a “Rola” que, entretanto se aproximara, e dali me afastei a galope e o mais rapidamente possível ao mesmo tempo que, voltando de vez em quando a cabeça, podia ver que a águia continuava sobrevoando o seu ninho, agora provavelmente mais tranquila e segura de que ninguém lho iria profanar.

Já longe do local e de regresso ao hotel para o almoço, não me cansava de pensar nos riscos que correra pelo que só muito mais tarde me atrevi a referir o episódio a minha mãe, já que com a cumplicidade sigilosa da minha “Rola” com essa poderia sempre contar.

Todavia o que hoje me preocupa e mais perturba sempre que recordo o que se passou é o facto, aparentemente simples e sem o menor significado, de eu ter tido a percepção, para não dizer que a certeza, de que do lado oposto àquele onde me encontrava, e que eu não poderia nunca ver dali, eu iria encontrar as escadas de pedra que me proporcionaram a possibilidade de me salvar daquele apuro quando o certo é que nunca ninguém tal mo tinha referido e era aquela a primeira vez que eu tinha visitado esse local.

Como saber, pois, da existência de tais escadas?

Este o mistério que persistirá para quem, ao contrário de mim, não acreditar que são várias as vezes que Deus nos fará voltar a esta terra – como reza a crença indú - talvez com o intuito de que nos aperfeiçoemos cada vez mais a ponto de com Ele nos podermos vir a considerar como realmente feitos à Sua imagem e semelhança…
publicado por Júlio Moreno às 14:41
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