Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Os eufemismos -e não só- da vida moderna

Curioso como sou e já sem nada, ou muito pouco, para fazer, dada a idade que já vou ostentando, tenho ocupado parte do meu tempo a assistir a alguns programas directamente transmitidos do Parlamento, nomeadamente daqueles em que intervém o nosso primeiro – verdadeiro artista em falar muito e dizer muito pouco e em fazer com que o tempo se esgote sem responder às perguntas que os parlamentares lhe fazem directamente, e igualmente das “Comissões de Inquérito”, recentemente constituídas, e onde os senhores Deputados – ou depoentes, consoante os casos - discursam, discorrem, falam e comentam sobre os mais variados assuntos, nos quais seria, à partida, lícito supor-se que fossem verdadeiros especialistas ou peritos mas que, paradoxalmente, acabamos por verificar, e muito mais vezes do que seria de esperar, que o não são ou que, sendo-o, não sabem ou não querem exprimir-se correctamente na língua pátria preferindo a utilização de termos que, podendo parecer-lhes de muito bom tom e de alta erudição utilizar, mas que, para infelicidade sua, pura e simplesmente, não existem.


Na verdade, “alavancar” , “alencar” ou “elencar”, “agilizar” e outros, como tantas vezes venho ouvindo, tudo termos interessantes, que compreensivelmente procurarão transmitir uma ideia que claramente se percebe, mas que, mau grado nosso, ou melhor, mau grado deles, pura e simplesmente não existem e, que eu saiba, não farão – ainda - parte do léxico português ignorando eu se o farão dos vocabulários brasileiro ou dos PALOPs – para usar, também eu, uma sigla tão ao gosto da actual cultura nacional.


Como meu saudoso Avô, o Prof. Augusto Moreno, também eu gosto de ouvir a eloquente e sã sonoridade da língua portuguesa sem necessidade de nos socorrermos de neologismos pouco consensuais ainda e que, pela frequência com que vêm sendo utilizados, ainda nos levarão a considerar correcto (e não erro de palmatória) que um qualquer estudante venha a escrever um dia numa prova de exame que fulano ou beltrano foi “pego” em lugar de preso - como se ouve quase diariamente nas telenovelas brasileiras – quando, na verdade, pego é termo português mas de significado completamente diferente do que acima referimos pois, - se derivado do latim “pelagu” ou do grego “ pélagos” - , significará o ponto mais fundo de um rio, lago, etc., onde não se tem pé, um abismo, uma voragem, um pélago, um sorvedouro, ou ainda o macho da pega, uma pequena refeição dada aos trabalhadores entre o almoço e o jantar, uma petisqueira, ou em sentido popular o namorado ou ainda a flor do cardo que se agarra ao fato.


Por outro lado é curioso notar a preocupação com que os economistas (sobretudo estes) se socorrem de expressões britânicas para se referirem a operações bancárias ou a situações de mera actividade contabilística, (certamente aquelas que vêm nos manuais por onde estudaram mas que eu me recuso a admitir não existam em português para exprimir situações semelhantes e de igual valor.


Porém, não é só aqui que eu noto os referidos “eufemismos” que eu próprio utilizarei ao referir-me a ética – ou a princípios éticos, isto para evitar a expressão de moral muito duvidosa, - de quem nomeia para o seu próprio gabinete, ao que julgo saber, um dos seus próprios familiares directos quando, no que me toca – e como já tantas vezes aqui o tenho referido – na minha família sempre se usou uma isenção e separação de tal modo rígida e pragmática quanto e estes assuntos que, tendo meu avô materno, médico e ofcial da Marinha de Guerra, carro do Estado, nunca deixou que nele entrassem nem as sua mulher nem qualquer das filhas o que levaou a primeira tantas vezes me dissesse nem saber sequer de que cor eram os estofos desse mesmo carro!


Que diferença, senhores, que diferença!...


É claro que tudo isto se passava há setenta e tal anos e daí para cá muito se alterou na moral e sobretudo na vergonha dos portugueses!


Consultando no dicionário a palavra "vergonha":  - (Lat. * verecumia < verecundia), s. f. - perturbação moral produzida pelo receio do ridículo, da desonra, etc.; pudor; pejo; rubor de pejo; timidez; acanhamento; acto indecoroso; desonra, opróbrio; • s. f. pl. - as partes pudendas.

publicado por Júlio Moreno às 19:38
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