Domingo, 5 de Abril de 2009

História de um Verão - Parte I

Chegaram para almoçar e sentaram-se, discretamente, numa das poucas mesas que ainda estavam vagas, num dos extremos da grande sala de jantar. Era um casal novo, muito novo ainda. Ela não teria vinte anos a julgar pelo seu aspecto físico, pálido e franzino e pela timidez com que caminhava por entre as mesas evitando os olhares que lhe dirigiam à sua passagem e de onde a onde esboçando apenas um tímido sorriso. Ele, que vinha logo atrás, uns anos mais velho, não muito alto e de aspecto algo boçal, só aparentemente desenvolto, era o retrato acabado do novo-rico sem princípios nem educação.

A sala toda reparou na sua entrada, comentada que fora toda a manhã quando se soube que alguém havia chegado na véspera, já de noite, e ao deparar-se, a quem já descera a caminho do parque, do balneário ou somente para tomar as suas águas, estacionado ao fundo das escadas e coberto por aquela poeira serrana e branca das estradas térreas de montanha, aquele Porche negro que ali se encontrava.

Estância termal pequena, perdida no verdadeiro coração do Barroso e já dos romanos conhecida, como o comprovara o castro recém descoberto num dos cumes sobre o lago dos amores, e onde, para além das águas, da amenidade do clima e de um ar de excepcional pureza, das conversas das senhoras de meia idade que ali faziam regularmente tratamento e que já se conheciam de anos anteriores, só em raras ocasiões acontecia o juntarem-se pequenos grupos de gente mais nova, rapazes e raparigas, para os quais a diversão era, para além do bailarico à noite, findo o jantar, as partidas que constantemente pregavam uns aos outros e as passeatas que faziam, de burro ou a pé, pelo alto das serras mais próximas ou pelos sinuosos caminhos que bordejavam o pequeno ribeiro, quase rio, que por lá passava.

O casalinho assim recém-chegado almoçou rapidamente e, tão rapidamente quanto almoçara, logo desapareceu no longo corredor que conduzia aos quartos sem uma palavra ou um gesto que pudesse ser tido como amistoso ou de tentativa de integração no meio onde havia acabado de chegar. Silenciosos, comeram quase em silêncio e em silêncio desapareceram o que constituiu motivo de comentários vários entre a vasta e costumada clientela dos aquistas então presentes.

Pelas três da tarde, o Porche roncou e, levando apenas o seu condutor, arrancou e desapareceu estrada acima numa núvem de poeira que, dada a quietitude daquele princípio de tarde, tardou bastante em dissipar-se. Nele, porém, e como dissemos, só ia ele, o rapaz já que a rapariga, essa ficara, talvez no quarto, porque não viera despedir-se e não se via por qualquer lado que fosse.

Nessa noite, ao jantar, apenas ela, silenciosa e tímida como antes já o fora, entrou na sala para jantar já este se aproximava do fim e muita gente a havia abandonado, dispersando-se por aqui e acolá, ou regressando aos quartos em busca de qualquer pequeno agasalho, ou pelo salão contíguo, ou ainda em amenos passeios pela esplanada adjacente ou aquela outra que se estendia até ao parque ao fundo da escadaria.

A gente nova, entre a qual eu me incluía, foi-se aglutinando no pequeno pátio adjacente ao salão do hotel aguardando a hora em que a música se iniciasse dando, assim, lugar ao bailarico que todas as noites era costuma fazer-se e que constituía a única diversão nocturna daquelas agradáveis noites estivais. Naquele momento, porém, o motivo da conversa entre nós fora, como, aliás, não teria podido deixar de ser, o comentário dessa noite e centrara-se nas mais diversas suposições e conjecturas sobre o jóvem casal que assim aparecera para logo e, tão súbitamente como havia chegado, desaparecer sem que ninguém lograsse saber – e a curiosidade, sobretudo entre as raparigas, quatro ou cinco ao todo, era imensa – dos motivos por que o fizera. Durante algum tempo ainda se esperou que a rapariga pudesse aparecer quando ouvisse a música que daí a pouco se iria fazer ouvir mas, iniciada esta, cedo essa esperança se desvaneceu pois dela nem sombra nem rasto se vislumbrou sequer!

No segundo e terceiro dias que se seguiram tudo aconteceu na mesma. Vinha para almoçar e jantar e logo de seguida desaparecia sem mais ser vista pelo que o facto, cada vez mais, fazia avolumar os mais díspares comentários e conclusões sobre o que poderia estar a passar-se com ela, uma moça tão nova e simpática, como parecia ser, e que se movia como se fora uma sombra, silenciosa e sem ruído algum, só aparecendo na sala de jantar e desaparecendo logo de seguida. Os comentários já não eram só do grupo mas sim de todos os demais hóspedes do hotel que, sobre o assunto, teciam os mais diversos comentários e faziam as mais estranhas conjecturas.

Sendo eu, por força do destino, o residente mais permanente, já que as ocupações de meu pai – o médico director-clínico da estância – a isso me obrigavam, fui incumbido, por decisão da maioria, de me aproximar dela no dia seguinte, que seria o quarto. e procurar trazê-la para o nosso convívio já que nos parecia ser até mais nova do que algumas das moças presentes. Contrariado, aceitei a incumbência e comprometi-me a convidá-la, no dia seguinte, mal a visse e a ocasião se proporcionasse.

Ocorrerá referir, entretanto, que, de todos os presentes, era sempre eu o mais madrugador, ocupando as minhas manhãs, cêdo, desde cerca das oito horas e, muitas vezes, mesmo para além das horas normais do almoço - servido pontualmente à uma da tarde - em longas e solitárias cavalgadas pelas montanhas, aldeias e planaltos dos arredores para o que contava com a minha amiga “Rola”, uma égua castanha clara de meia idade, nervosa e voluntariosa, por muitos considerada como um animal perigoso porque, dizia-se, já teria morto um rapaz com um coice que lhe dera, mas que, para mim sempre se revelou de uma submissão, odediência e, diria mesmo, de uma amizade e cumplicidade difíceis de descrever, o que tentarei fazer em futuros episódios em que aqui procurarei relembrá-la e que fizeram com que, tantos anos volvidos, eu nunca a tivesse esquecido e, com ela, as aventuras – e foram várias – por que passámos ambos. Tinha um defeito a “Rola”, era cega do olho esquerdo, pelo que tudo o que sûbitamente surgisse desse lado, uma folha de papel de jornal que esvoaçasse, uma pequena cobra do mato rasteiro ou um lagarto, por exemplo, a fazia assustar-se sendo então quase imprevisível a sua reacção. Essa deficiência, porém, aprendera ela a compensá-la com a acuidade auditiva que desenvolvera, o seu poder olfativo e aquele intuição com que Deus protege os infelizes a quem o destino ou as circunstâncias implacáveis de um infeliz e fortuito acaso, haviam conduzido a tal deficiência.

Ora, nesse dia, o meu quotidiano mais uma vez se repetia pelo que, seriam aí umas onze horas da manhã quando, cavalgando vagarosamente no planalto deserto sobranceiro ao hotel e já depois de havermos feito as nossas habituais corridas de galope por outros locais bem nossos conhecidos, a “Rola” estacou, relinchando um pouco ao mesmo tempo em que esticava as orelhas na direcção de um pequeno fraguedo ali perto existente, bem na nossa frente, e movendo-as como se de um verdadeiro equipamento de radar se tratasse, me alertou de que algo de anormal se passaria por ali pelo que me apressei a afagar-lhe o percoço já reluzente de suor e com palavras brandas que ela já bem conhecia, a incitei a que andasse mais um pouco até que me apeei, largando as rédeas, sabedor que era de que ela me seguria como sempre o fez, e caminhei cautelosamente em frente a tempo de a ver que ela se cobria com uma enorme toalha de banho branca que teria ao lado daquela outra onde, tudo o indicava, havia estado deitada ao sol e onde permaneciam, displicentemente, algumas peças interiores de “lingerie”...

Por motivos óbvios e muito embora não fosse esse o seu nome verdadeiro, chamar-lhe-ei aqui Cristina, devendo acrescentar que, na ocasião, em que o mais confuso de ambos era eu,foi ela quem, afinal, acabou por romper o silêncio constrangedor que se estabelecera isto para além do pequeno e abafado grito de susto que se lhe escapara na sequência e no momento da minha súbita aparição.

- Estou a aproveitar um pouco deste sol... – esclareceu. - Disse-me o médico que me faria bem desde que me não expusesse em demasia... Só quinze minutos... Por isso vim...

- Fique à sua vontade e desculpe-me a intromissão... Foi a minha égua que me deu o sinal e eu só vim ver o que era...– respondi, já mais refeito da surpresa que tivera.

Dispunha-me já a montar para me ir embora quando Cristina se adiantou e disse:

- Se me der um bocadinho de privacidade eu arranjo-me num instante e acompanho-o para baixo pois só agora reparo que já são horas de regressar pois ainda tenho de ir ao balneário tomar banho antes de almoçar...

- Como queira... – respondi, ao mesmo tempo que me afastava, eu e a “Rola”, para trás das rochas e de modo a facultar-lhe uma completa liberdade de movimentos tal como me pedira e se me impunha.

Momentos volvidos, Cristina apareceu vestida com um ligeiro camiseiro, solto e de cor clara, e trazendo, pendurado num dos ombros, um enorme saco de lona alaranjada e no qual deveria armazenar as toalhas com que estava, o livro que tinha consigo e os pequenos pertences de toillete que também tivera a oportunidade de ver dispersos sobra a toalha onde se deitava.

E foi assim, sem que nada o fizesse prever que o prometido contacto que deveria estabelecer com ela efectivamente ocorreu, tendo tido então a oportunidade de lhe transmitir, enquanto caminhavamos encosta abaixo, o convite de que fora encarregado pelo grupo para que, uma vez que se encontrava sozinha, se juntasse a nós.

- Talvez seja mais divertido para si... não sei... – concluí um tanto desajeitadamente.

... (continua na parte II)
publicado por Júlio Moreno às 21:58
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