Domingo, 5 de Abril de 2009

História de um Verão - parte II

... (continuação)

- Aceito sim – respondeu – e fa-lo-ei com gosto pois, na verdade, não há nada pior do que estar sozinha num sítio onde se não conhece ninguém e eu não tenho muito jeito para relacionamentos com quem não conheço...

O resto do percurso foi feito falando da beleza das montanhas, da esplendorosa luminosidade daquele sol serrano e do ar acolhedor que a estalagem lhe proporcionara assim que a vira além do bem que esperava que as águas lhe viessem a fazer pois estava ali a fazer um duplo tratamento, de pele e de nervos...

- O cavalo é seu? – perguntou.

- Não, não é. É daqui da aldeia de um dos doentes do meu pai que achou por bem por-ma diáriamente á disposição como paga não sei de quê favor que o meu pai lhe terá feito... Ele raramente leva dinheiro às pessoas daqui da aldeia e isso torna-os gratos, como vê... Além disso eu e a “Rola” já somos velhos amigos pois já há mais de dois anos que nos conhecemos e privamos durante o verão que sou forçado a permanecer aqui... Como vê, ela vem atrás de nós e eu não preciso de a segurar pelas rédeas... É como se fosse um cão que segue o seu dono... Mas se parassemos e estivessemos bastante tempo a conversar no mesmo sítio haveria de ver como ela se aproximaria e me dava uma focinhada nas costas como quem diz “anda lá embora que eu estou cansada de esperar...” É assim a “Rola”...

Ela riu agradavelmente surpreendida com a história que eu acabara de lhe contar e disse-me que também tinha feito equitação num esquadrão de cavalaria da Guarda Republicana, em Lisboa e que fora aí que conhecera o seu marido...

- Quer montar então? – perguntei um tanto temeroso pois não sabia como se coportaria a “Rola” tendo-a como cavaleira...

- Não, não – respondeu – noutra ovasião talvez mas hoje não porque se faz tarde e, além disso não estou preparada para poder montar... Pelo menos teria de vestir calças o que, como vê, não tenho comigo agora...

Entretanto tínhamos chegado às termas e aí nos despedimos. Ela seguiu para o balneário e eu fui entregar a “Rola” ao rapazinho que já me esperava para a levar para a cavalariça na aldeia.

Foi das raras vezes em que cheguei a tempo de almoçar o que me valeu o elogio do meu pai que acabava de sair do consultório e, com a minha mãe descia as escadas da casa onde tínhamos os quartos especiais que nos estavam atribuídos.

Estava a sala cheia e decorria já o almoço quando ela chegou, sorridente, o que não era nada habitual e sem se coibir de, ao caminhar para a sua mesa, me fazer um pequeno aceno com a mão ao qual correspondi ao mesmo tempo que perguntava ao meu pai:

- O que tem aquela rapariga, pai?

Surpreendido, tanto quanto reparei que a minha mãe ficara, meu pai respondeu-me com outra pergunta bem clara e elucidativa:

- Desde quando é que se julga com o direito de saber de que sofrem os meus pacientes? Isso não é da sua conta... - E por aqui se ficou a minha infeliz e inoportuna pergunta que não mais ousei repetir.

Findo o almoço fui logo rodeado por quantos repararam no aceno de mão que Cristina me fizera tendo sido obrigado a repetir, vezes sem conta, como o acaso quis que eu me desempenhasse, e bem, da missão que me fora confiada.

Ainda as perguntas que me faziam não haviam cessado já Cristina que, como de costume, mal acabara o almoço logo desaparecera, dirigindo-se ao seu quarto, fez a sua aparição a uma das portas que davam para o pequeno patio exterior onde nos encontravamos reunidos e, em passos algo hesitantes, não fora eu ter ido buscá-la para a apresentar aos demais, se juntou finalmente ao grupo onde as raparigas, sempre as mais vorazes na caça de novidades, a haviam cercado, arrebatado de nós, rapazes, e submetido à tortura, como ela mesma mais tarde me confessou, de tudo lhe perguntarem, de tudo quererem saber a seu respeito e do marido e das razões por que este a abandonara ali sozinha indo-se embora.

Nesse dia e nos restantes quinze que se seguiram, Cristina juntou-se a nós e connosco ficou sempre que lhe era possível mas sem prescindior das suas escapadelas matinais nas quais, tanto eu como a “Rola”, tivemos o prazer de a acompanhar tendo sempre o cuidado de nos separarmos aquando do regresso para que não desconfiassem dos nossos furtivos encontros.

Aplicarei bem aqui a palavra furtivos pois, não obstante ela ser mais velha do que eu dois anos, durante aquele curtíssimo tempo que durou a sua estadia, chegamos a manter relações de certa intimidade depois dela me ter confidenciado de que o seu casamento não passava de fachada pois dera-se na sequência de uma noitada festiva durante a qual ele, bêbado ou não, a violara quando a levava a casa tendo-se seguido o casamento por imperativa obediência aos imperativos de ambas as famílias que não tomaram em consideração as alegações que ambos então fizeram de que se tratara de um mero e infeliz acidente o qual ela já lhe perdoara pelo que o casamento de ambos se baseava no acordo que tinham feito de, respeitando as conveniências, ambos fazerem as suas vidas completamente independemtes um do outro isto não obstante ele se tivesse muitas vezes mostrado demasiadamente rude e violento para com ela.

A vinda para as termas devia-se a um pequeno ecsema que lhe surgira na base e no lado de um dos seios e que não cedera a nenhum dos tratamentos até ao momento prescritos pelos inúmeros dermatologistas que já havia consultado sendo aquele uma das últimas hipóteses de cura que lhe restaria.

Cristina era uma fascinante e carente rapariga e uma total novidade como mulher para o jóvem imaturo que eu naquela altura representava. Todavia foi com sinceridade que na altura a amei e ela me amou também e com sofrida saudade que nos separámos ao fim daquelas duas semanas de enorme e terna cumplicidade mal sabemdo eu que, anos volvidos a iria reencontrar em Lisboa, no Rossio, mais concretamente na pastelaria Suiça, numa tarde calma e já quente de final de Primavera quando eu, saído que fora do serviço de oficial de dia ao Comando-Geral da Guarda e tendo a tarde livre, me resolvera a dar uma volta por aquelas bandas.

O casamento dela já se desfizera há muito e o meu estava no fim também. Por momentos e nos dias que se seguiram foi grande a tentação que ambos sentimos de retomar a ligação que muitos anos antes havíamos iniciado mas nada passou de projectos e, como quase sempre acontece nestas coisas, a razão ou a falta dela fez com que nos faltasse a coragem de dar o passo em frente tanto mais que ela agora iria ser a mãe dos tres filhos que eu já tinha...

Sabia onde morava mas nunca a procurei. Telefonou-me duas vezes e outras tantas lhe retribuí, mas, a partir de um último encontro na “Versailles” na Avenida da República, nunca mais voltei a ve-la.

Dela recordo apenas a doçura magoada do seu olhar e seriedade com que ele me penetrava quando em mim se fixava isto para além da alegria que senti ao verificar que o ecsema do seio finalmente desaparecera, tendo cedido, ao que parece, ao tratamento que, em boa hora iniciara e que depois continuara, sem voltar ás termas, pois a sua economia não lho permitia, mas persistindo na ingestão diária da água mineral cujos garrafões comprava e que me garantiu continuar a tomar todas as manhãs.
publicado por Júlio Moreno às 21:45
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