Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Julgo conhecer bem as minhas deficiências

Julgo conhecer bem as minhas deficiências (ou insuficiências) e uma delas é, precisamente, tal como hoje mesmo uma grande amiga minha mo recordou, o facto de escrever textos muito compactos, cheios de extensos parágrafos, o que, para muitos, será confuso de ler mas que, para mim, é a quase unica maneira que sei de escrever – ou de pretender fazê-lo pois, na verdade não me considero, nem me poderia nunca considerar, escritor ao exemplo de meu Avô que esse o era de facto, além de eminentíssimio filólogo, professor e grande cultor e defensor da lingua pátria!

Falta-me o poder de síntese, eu sei. Mas esse poder é, precisamente, o que só os verdadeiros escritores, os eleitos, possuem e eu não sou certamente um deles.

Consola-me, porém, conhecer as palavras que, um dia, o Padre António Vieira, - célebre pelos sermões que proferia e que arrastava multidões para ouvi-lo dada a profundidade das suas mensagens e os seus excepcionais dotes de oratória – estando no Brasil, terá escrito numa carta a um amigo em Portugal a qual, sendo bastante comprida de texto, terminava mais ou menos assim: - “Desculpe amigo esta ir tão longa mas não tive tempo de a fazer mais curta!...”

Na verdade, escrever um texto, revê-lo, sintetizar uma ideia e colocá-a por tal forma no papel que, muito embora lhe diminuindo as palavras com que a expressemos esta não seja beliscada no seu conteúdo, na mensagem que pretenda transmitir, isso dá não só trabalho, e muito, como também só estará ao alcance de raríssimos mestres de linguagem com não menos raras capacidades intelectuais que lhes permitam a síntese a que antes me referia. Quisera ser um deles mas, infelizmente – reconheço-o honestamente e sem mágoa – não sou.

Porém, ao longo da minha vida de trabalho útil – porque hoje gente há que pretende tratar-me como um parasita social - tive o privilégio de conhecer alguém dotado desse dom excepcional; alguém amigo, verdadeiramente amigo, que já morreu e a quem aproveito aqui para prestar a minha mais sincera homenagem de sentida saudade.

Chamava-se esse amigo de Guerreiro Mendes e foi meu colega e colaborador no árduo trabalho que um dia lhe pedi de erguer um Gabinete Técnico Estudos de Segurança, o célebre GTES de que muitos se recordarão, estou certo, numa das empresas que, na ocasião, ambos servíamos: a Securitas.

Acontecia frequentemente termos conversas sobre algum tema importante e momentoso de trabalho e, como eu lhe reconhecia aquele mérito de bem escrever e de, com rara mestria, explanar e expor no papel ideias aparentemente confusas e complexas, mas que a sua pena tornava leves e plenamente inlteligíveis masmo pelos mais obtusos espíritos que as lessem – e alguns havia, recordo-o bem - não raro era pedir-lhe que minutasse um texto sobre o que havíamos discutido por forma a podermos transmitir as nossas ideias ao restante pessoal da empresa encarregado de as executar.

E era certo que, pouco tempo depois, ele me presenteava com uma ou duas páginas dactilografadas e onde nada faltava do que havíamos discutido e conversado.

Habituei-me, por isso, a ser exigente e comodista em demasia e a pedir-lhe o que eu próprio não seria capaz de fazer: - que encurtasse o texto por forma a torná-lo mais “leve e, quiçá, mais fácil de interpretar pelos respectivos destinatários que padeciam então da só hoje reconhecida iliteracia.

E o bom amigo Guerreiro Mendes, regressava à sua mesa de trabalho, revia e refazia o texto, encurtando-o quase para metade e sem perder um só que fosse dos conceitos essenciais que deveriam informá-lo. E mais: - se lhe pedisse redução maior, mais ele o conseguia reduzir maravilhando-me porque mesmo assim, se bem que à custa de árduo e rebuscado trabalho, permaneciam incólumes os conceitos ou as directivas a transmitir.

Sei que, por vezes, algumas horas se passavam antes de o conseguir produzir, porém, porque a perseverança - assim como a sua pontualidade - eram um dos seus múltiplos atributos – por isso terá morrido tão jóvem! – um novo , reduzidíssimo e completíssimo texto brotava da sua pena para o teclado da sua secretária que mo trazia e que eu apreciava como se de um verdadeiro milagre se tratasse!...

Era assim o ex- tenente Guerreiro Mendes, ex-ajudante do Batalhão nº 1 da GNR, aquetrtelado no Beato, em Lisboa e com quem tive a honra de ter trabalhado naquela empresa no início dos saudosos anos setenta...

E de cada vez que nele penso logo me vem à lembrança esta raríssima capacidade que possuía e que eu, mau grado, quando de tal me lembro, me esforçe por imitá-lo, sabendo bem que nunca o conseguirei porque nisso ele era único!

Paz à sua alma, bom amigo! Obrigado e que Deus me perdoe se alguma vez alguma coisa te fiz que te magoasse e, involuntáriamente, pudesse desmerecer da tua mais do que meritória obra...
publicado por Júlio Moreno às 01:51
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