Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

A sensibilidade empírica de um leigo em como vencer ou atenuar a crise

Nada percebo de economia, como reiteradamente venho afirmando neste mesmo lugar, mas procuro cada vez mais entender os seus meandros – que me parecem ser simples se bem que cheios de uma rebuscada terminologia técnica destinada, talvez, a afugentar os críticos mais temerosos ou inoportunos! - seguindo atentamente todos os momentos televisivos que a ela se dedicam e, perante a generalizada e, ao que me parece, bem fundamentada crítica unânime da oposição ao governo, sempre me recordo da história daquela avozinha que, ao ver passar a tropa em parada, onde só o seu neto ia com o passo trocado, comentava condoída e simultâneamente feliz: - “Que lindo! Pena é que todos levem o passo trocado menos o meu João!...”

E já agora uma outra historinha me ocorre e que não resisto a aqui invocar pois são saudosos os tempos coimbrãos em que a ouvia; dizia-se então a respeito da “alínea i” (correspondente ao então novel curso superior de economia – o meu era da “alínea e”, de direito) a seguinte cantilena:

- Cursou o “i” superior.
-Talento não há quem lho veja!
- Pode ser que ele seja um doutor,
- Mas também pode ser que não seja...

Desculpem-me os economistas este breve parêntesis, muitos dos quais eu prezo e admiro enormemente como seres humanos íntegros que são e de uma verticalidade de carácter a toda a prova, mas não resisti em invocar esta graça coimbrã dos meus tempos de irreverente estudante de capa e batina... Mas, voltando ao assunto-base destas linhas, direi:
- que é precisamente o que acontece com o partido socialista quando confrontado com a oposição, com a diferença de que ao João não lhe seria permitido desfilar com a arrogância, a altivez e a leviandade com que o partido socialista e os seus dirigentes o fazem, com especial destaque para o seu líder, sendo que os demais membros, quando intervêm, seja no parlamento seja nos debates que a TV nos propicia, me fazem, simultâneamente, recordar aqueles discos do antigamente da célebre marca “his master’s voice”: - daqui e por aqui concluindo que todos estarão errados menos ele!

Já o mesmo se passava com Salazar, hoje apontado como o grande ditador e autor de todos os males de que padecemos, mas cuja culpa – que essa a terá tido de facto – foi apenas de se ter deixado como que endeusar por quantos à sua volta pululavam para colher as benesses que sempre se vão concedendo aos “afilhados” dos quais, no entanto e como é de inteira justiça, excluirei alguns, muito particularmente Manuel Alegre com cujo ideário sócio-político me vou, a cada dia que passa, mais e mais me identificando.

E assim vamos todos assistindo, e sofrendo, às demagógicas e até ridículas discussões que mais teriam lugar no palco de uma comédia se não fora a desgraça de o palco ser o País e a comédia a tragédia do descomunal desemprego de que a crise económica e financeira de hoje vivemos terá sido, em parte, responsável temendo eu o enorme “bang” que já hoje se começa a ouvir, e foi já pressagiado publicamente por uma alta figura política do País, e que venha a dar lugar a um outro tipo de crise, essa talvez bastante pior já que pouco passível de ser dirimida apenas com palavras... Que Deus nos livre de que tal aconteça!

Fala-se muito em medidas, as mais díspares e variadas para debelar e esconjurar o espectro da miséria que cresce dia a dia com os sucessivos desempregos e famílias já com fome e as falênciasque se sucedem, a par da frenética actividade da justiça, que, no meu entender, acordou tarde demais – ouvi ontem dizer a alguém e algures na TV que não tínhamos sequer ministro da Justiça! – permitindo o aumento, hoje já verdadeiramente assustador, da criminalidade violenta e dos crimes de “colarinho branco” que se vão descobrindo uns enquanto outros até parece serem incrementados com a impunidade que lhes advém de uma justiça cada vez mais contemplativa e complacente, tantas vezes sem sentido algum, e pela real incapacidade de se perseguirem os inúmeros burlões que levaram bens e dinheiros para fora do país a coberto de uma inaptidão comprovada de os perseguir nos seus desviados caminhos, localizando-os nos locais onde se encontram e fazendo-os regressar ao país a que pertencem.

E quando assim penso ocorre-me que, quando se ouve falar tanto no salário mínimo, em abono do qual já várias lutas se travaram e continuarão a travar – e cuja criação, obra de uma modernidade incompleta por lhe faltarem outras medidas adicionais que se lhe imporiam mas que já terá valido bons votos aos governos - nunca ouvi a mais ténue referência – ainda que como medida conjuntural apenas e enquanto a crise durasse - à exigência de um salário máximo tais são as barbaridades que, neste domínio, se conhecem por, ainda que timidamente, terem começado a vir a público!

Alguém ouviu falar nisso? Eu não, nunca... E se os politicos que teimam em governar-nos, serventuários apenas de um Estado velhinho de séculos, que sempre tem teimado, e providencialmente conseguido, erguer-se dos lodaçais e escombros em que eles mesmos. de tempos a tempos. o mergulham, então que recusem os respectivos cargos ou se demitam se neles já se encontrarem investidos pois não serão certamente nem os homens nem sobretudo os caracteres de que o País precisa nas horas duras por que está a passar.. Aqui sim, aqui o rigor da lei teria de ser inquestionávelmente aplicado, simultâneamente se investigando a real proveniência de certas fortunas, sabido como o é de que a mão de obra escrava há muito que desapareceu da nossa sociedade e que o euromilhões é susceptível de descobrir-se a quem foi entregue, assim haja vontade de o fazer e coragem para prosseguir esta tão necessária missão patriótica de limpeza ética.

Já há bem pouco tempo disse aqui mesmo que os bancos têm funcionado como verdadeiras albufeiras de dinheiro, retendo-o e abundantemente o armazenando, retirando-o da normal circulação fiduciária, qual Alquevas especiais que depois servirão para mitigar a sede a compadres e amigos – como se vem provando e comprovando ultimamente não obstante a clamorosa gritaria que se gera sempre à volta dos tão proclamados créditos mal parados mas continuando os cidadãos a serem diàriamente perseguidos por quase anónimas ofertas telefónicas de financiamentos, alguns dos quais vão ao ponto de descaradamente se afirmarem como já previamente estando aprovados.

Simultâneamente, e sem que sejam tomadas providências visíves e palpáveis sobre este assunto, muito se fala das facilidades tributárias extraordinárias de que a banca vem beneficiando por oposição às das restantes empresas que essas sim, são as que dão trabalho à grande maioria dos portugueses, os verdadeiros obreiros do produto nacional e à sombra das quais vêm vivendo os inúmeros parasitas que pululam por aí.

Mas quanto a medidas que reponham o necessário equilíbrio... nada!

Ocorre-me referir aqui, por mera associação de ideias, já que nada haverá que ligue os dois temas, que, enquanto Salazar se referia às antigas colónias por “províncias ultramarinas”, o actual governo chama “complementar” ao seu segundo orçamento que se recusa a ver como “rectificativo” e com isso muito se vangloria.

Pensará o nosso Primeiro que nós somos idiotas ou nos deixamos impressionar com a sua histriónica verborreia e reconhecida habilidade em deixar sem resposta as perguntas que no hemiciclo lhe são claramente feitas pela oposição? Se calhar é mesmo isso que pensa, mas a seu tempo verá quão enganado estava quando assim pensava.

E já agora aqui deixo uma outra ideia, talvez louca, talvez impraticável, talvez mal-querida por muitos dos que venham a ler estas pobres linhas: - porque razão, quase ao exemplo do que acontece quando se proclama o estado de sítio, não se estabelece, em claro texto de lei excepcional, um limite máximo que particulares e empresas possam manter imobilizado em depósitos à ordem ou em operações de pura especulação bolsista e se não obriga a que os remanescentes de tais montantes, por iniciativa do próprio titular ou por outrem que a eles se candidatem a título de empréstimo e com o aval do Estado, seja investido na criação de empresas novas, pequenas empresas e viáveis depois de concluída essa mesma viabilidade por comissões especializadas a criar para o efeito e com prazos bem definidos para pronunciarem as suas decisões. Empresas governadas por “gerentes” e que dispensassem esses numerosos Conselhos de administração e séquito de administradores, suas secretárias e representantes a uns e outros se atribuindo proventos extraordinários a título de ajudas de custo para despesas de representação ou intermináveis frotas de veículos possantes e de último modelo e que tão frequente quão inoportunamente – do ponto de vista económico, entenda-se – vêm sendo renovadas...

Ocorre-me, a propósito e em mais um parêntesis, o caso recente da substituição do veículo atribuído ao senhor Governador do Banco de Portugal – hoje tão questionado por tão manifesta incompetência ou falta de autoridade - por outro novo no valor de 66 mil euros já que o anterior estaria um pouco gasto ao cabo de 5 anos de uso!... De bradar aos céus!

Mas e retomando o tema:
- assim se combateria também a crise, se faria efectivamente proliferar o emprego e se repartiria a mão de obra disponível pelo país inteiro sem que os novos empresários fossem tentados a acorrer e concentrar-se nos grandes centros urbanos ou nas suas cercanias, aumentando a poluição e contribuindo para que milhares de horas úteis de trabalho não se perdessem mais nas intermináveis filas de acesso aos respectivos locais de trabalho, nos centros onde, efectivamente, a maior parte da economia activa se encontra concentrada.

Ideias simples e simplesmente expressas por quem nada sabe de estratégica económica mas que “sente” que não será com o investimento público que o governo obstinadamente insiste em levar por diante – a alta velocidade ferroviária e o novo aeroporto de Lisboa – que a crise será debelada.

E já agora uma palavra apenas para referir que não será fácil que, a manter-se a nossa ancestral mentalidade da enorme importâncie de se ser doutor, haja um “doutor” ou um “engenheiro” que aceite lavrar um campo de batatas e nele as plantar para as colher mais tarde... E se não houver batatas não sei se me saberão bem os “euros” ainda que bem temperados com maionese, isto falando só das notas porque os meus dentes já não conseguiriam roer as moedas...

Longe vai o tempo em que, em Inglaterra, o homem em cima de um tractor, sujo e suado, com quem o amigo em cujo carro eu ia no momento conversava enquanto aguardava a sua vez de avançar no cruzamento de estradas onde nos encontravamos na ocasião, eu vi, nessa mesma noite, vestindo um impecável “smoking” e conversando animadamente na recepção para a qual eu também havia sido convidado. Soube depois que era engenheiro e dono da bela propriedade rural de que ele mesmo se ocupava! Seria isso possível aqui em Portugal? Já não digo então – anos de 1972, 73 – mas mesmo hoje em que se fala á boca cheia de democracia mas cuja enchada que eu vejo em certas mãos são os ferros de golfe de certos administradores e gestores públicos que, afanosamente se ginasticam, cavando a terra por esses “fairways” adiante!...
publicado por Júlio Moreno às 14:05
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