Domingo, 25 de Janeiro de 2009

A meus Pais

O meu coração e todo o meu ser se revolta quando penso e sinto...


Sim. O meu coração e todo o meu ser se revolta quando penso nesta cruel realidade:- ao recordar-vos, hoje, sinto mais saudades de ti, meu Pai, do que de ti, minha Mãe! com isto sentindo que, embora o não parecendo, estarei a ser justo para com ambos tanto mais que as razões que assim o foram determinando de há muito que se vão esfumando e desvanecendo já!


Será, talvez, causa do que sinto e agora e aqui confesso, o facto de minha Mãe ser “omnipresente” na minha infância, quase me não dando tempo sequer para respirar e de meu Pai, bem ao contrário, ser mais distante e frio como bom transmontano que era, homem pouco exuberante de sentimentos, que pouco ou nada exteriorizava, mas de uma nobreza de carácter e de uma limpidez de alma e de abnegação pelo próximo – era médico como hoje haverá poucos, muito mais cuidando dos seus doentes do que de si próprio – e minha Mãe, severa nos meus estudos e em tudo que se relacionasse com a minha educação e formação, comprometedoramente “presente” quando eu pretendia ter as minhas fúteis liberdades e jactâncias próprias de um rapaz em puberdade, afanosamente me procurando uma camisola, evitando que eu tomasse um copo de água demasiado fria e tendo, para comigo – durante muitos anos e para mim, seu filho único – os exagerados desvelos e cuidados que só me diminuiam e envergonhavam ao pé dos rapazes da minha idade e com quem crescia no meu lento dia-a-dia.


Pobre Mãe!... Como hoje te compreendo e te estou reconhecido pelo que julgava serem demasiadamente desvelados e cansativos carinhos, quando vim a descobrir que, longe de ser o filho único que sempre julguei ter sido, soube que tivera mais dois irmãos, ambos rapazes, um nado-morto e outro que faleceu com poucos dias ou meses de vida! Daqui e por isso a redoma em que tu me criavas! O algodão em rama em que constantemente me envolvias e os extremosos e comprometedores cuidados com que me rodeavas sem que eu os pudesse compreender já que, só muito tardiamente, fui conhecedor desta triste realidade das nossas vidas!


Por isso e pelo que aqui hoje digo e confesso, te peço perdão, Mãe... Do mais íntimo e profundo fundo dos meus ser e coração te peço que me perdoes pelo que de ti cheguei a pensar e, sobretudo, pelos actos de rebeldia que perante ti algumas vezes demonstrei. Perdoa-me mas compreende-me já que os afectos não são nunca iguais e que, ao recordar hoje, com mais saudade, a figura de meu velho Pai – talvez porque tivesse perdurado mais dez anos junto de mim do que a tua – eu não quero ser injusto ou cruel contigo, quero apenas expressar com a verdade que tu mesma me sensinaste a cultivar aquilo que, na realidade sinto nestas horas em que o meu pensamento divaga e se alonga pelos tempos, às vezes já algo nebulosos, da minha infância e da minha mocidade.


E tu Pai, que hoje sei quão sensível eras sob a capa sempre austera do velho transmontano, amante das pedras, a que chamavas “fragas”, e das serranias, e que te surpreendi, sozinho, quase escondido, chorando baixinho, quando, já em casa, depois do funeral, sentiste que a tinhas perdido para sempre - a ti, que nunca tinha visto verter uma só lágrima em toda a tua vida, nem mesmo quando, no dia dos meus anos, perdeste o avô a quem tanto querias – e tu Pai, não te sintas como que envaidecido pelo que aqui deixo hoje expresso pois bem sei que a justiça era causa sagrada no teu carácter e que, por isso mesmo, bem compreenderás o que aqui hoje escrevo, numa confissão tão íntima e emotiva que tive de tornar pública para que tivesse a dimensão que ambos vós mereceis deste vosso filho que não chegou a dar-vos as alegrias com que sonhasteis e que hoje descortino claramente por entre as brumas de um passado cada vez mais distante e enevoado...


A ambos vos agradeço a vida que me desteis e que vivi e, enquanto Deus quiser, irei vivendo, procurando contornar os escolhos que, por todo o lado, se me apresentam mas sempre guiado pelo dom que de vós ambos recebi: - o de acreditar e ver, ainda que ao longe, a ténue luz de um farol que me vai apontando o rumo e guiando nesta já longa caminhada: - a luz da esperança!


Bem haja, pois, e louvado seja Deus pelos Pais que tive e que me vou esforçando por não desmerecer...

publicado por Júlio Moreno às 15:47
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds