Segunda-feira, 17 de Julho de 2006

"História do futuro" - de Vasco Graça Moura (Escritor)

O facto de não gostar muito de Graça Moura - e nem eu próprio saberei bem porquê! - não me inibe de aqui lhe prestar homenagem pela lucidez da sua jocosa, mas verdadeira e oportuna, análise sobre a escola actual e a grande percentagem da nossa actual juventude. Sem mais comentários, aguardando apenas aqueles que os meus amigos queiram fazer, aqui deixo o texto que mão amiga fez chegar até mim.

Segue o texto:

"A escola que temos não exige a muitos jovens qualqur aproveitamento útil ou
qualquer respeito da disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a
mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos.

"Entretanto mostra-lhes com toda a solicitude que eles não precisam de
aprender nada, enquanto a televisão e outros entretenimentos tratam de
submetê-los a um processo contínuo de imbecilização.

"Se, na adolescência, se habituam a drogar-se, a roubar, a agredir ou a
cometer outros crimes, o sistema trata-os com a benignidade que a brandura
dos nossos costumes considera adequadas à sua idade e lava-lhes
ternurentamente o rabinho com água de colónia.

"Ficam cientes de que podem fazer tudo o que lhes der na real gana na mais
gloriosa das impunidades.

"Não são enquadrados por autoridade de nenhuma espécie na família, nem na
escola, nem na sociedade, e assim atingem a maioridade.

"Deixou de haver serviço militar obrigatório, o que também concorre para que
cheguem à idade adulta sem qualquer espécie de aprendizagem disciplinada ou
de noção cívica.

"Vão para a universidade mal sabendo ler e escrever e muitas vezes sem
sequer conhecerem as quatro operações. Saem dela sem proveito palpável.

"Entretanto, habituam-se a passar a noite em discotecas e noutros
proficientes locais de aquisição interdisciplinar do conhecimento, até às
cinco ou seis da manhã.

"Como não aprenderam nada digno desse nome e não têm referências
identitárias, nem capacidade de elaboração intelectual, nem competência
profissional, a sua contribuição visível para o progresso do país consiste
no suculento gáudio de colocarem Portugal no fim de todas as tabelas.

"Capricham em mostrar que o "bom selvagem" afinal existe e é português. A
sua capacidade mais desenvolvida orienta-se para coisas como o Rock in Rio
ou o futebol. Estas são as modalidades de participação colectiva ao seu
alcance e não requerem grande esforço (do qual, aliás, estão dispensados com
proficiência desde a instrução primária).

"Contam com o extremoso apoio dos pais, absolutamente incapazes de se
co-responsabilizarem por uma educação decente, mas sempre prontos a gritar
aqui-d'el-rei! contra a escola, o Estado, as empresas, o gato do vizinho,
seja o que for, em nome dos intangíveis rebentos.

"Mas o futuro é risonho e é por tudo o que antecede que podemos compreender
o insubstituível papel de duas figuras como José Mourinho e Luiz Felipe
Scolari.

"Mourinho tem uma imagem de autoridade friamente exercida, de disciplina, de
rigor, de exigência, de experiência, de racionalidade, de sentido do risco.
Este conjunto de atributos faz ganhar jogos de futebol e forma um bloco
duro e cristalino a enredomar a figura do treinador do Chelsea e o seu
perfil de condottiere implacável, rápido e vitorioso. Aos portugueses não
interessa a dureza do seu trabalho, mas o facto de "ser uma máquina" capaz
de apostar e ganhar, como se jogasse à roleta russa.

"Scolari tem uma imagem de autoridade, mas temperada pela emoção, de
eficácia, mas temperada pelo nacional-porreirismo, de experiência, mas
temperada pela capacidade de improviso, de exigência, mas temperada pela
compreensão afável, de sentido do risco, mas temperado por um realismo muito
terra-a- -terra. É uma espécie de tio, de parente próximo que veio do
Brasil e nos trata bem nas suas rábulas familiares, embora saiba o que quer
nos seus objectivos profissionais.

"Ora, depois de uns séculos de vida ligada à terra e de mais uns séculos de
vida ligada ao mar, chegou a fase de as novas gerações portuguesas viverem
ligadas ao ar, não por via da aviação, claro está, mas porque é no ar mais
poluído que trazem e utilizam a cabeça e é dele que colhem a identidade, a
comprazer-se entre a irresponsabilidade e o espectáculo.

"E por isso mesmo, Mourinho e Scolari são os novos heróis emblemáticos da
nacionalidade, os condutores de homens que arrostam com os grandes e
terríficos perigos e praticam ou organizam as grandes façanhas do peito
ilustre lusitano. São eles quem faz aquilo que se gosta de ver feito, desde
que não se tenha de fazê-lo pessoalmente porque dá muito trabalho. Pensam
pelo país, resolvem pelo país, actuam pelo país, ganham pelo país.
Daí as explosões de regozijo, as multidões em delírio, as vivências mais
profundas, insubordinadas e estridentes, as caras lambuzadas de tinta verde
e vermelha dos jovens portugueses. Afinal foi só para o Carnaval que a
escola os preparou. Mas não para o dia seguinte.""

publicado por Júlio Moreno às 19:44
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Oh! Meu Portugal de antanho!...

Oh! Meu Portugal de antanho, como já te perco e quase não vislumbro de tão civilizado que tu estás!

Já tens crimes bárbaros e com os requintes das tortuosas mentes doentias de Hollywood e de outros mestres do cinema-droga que, de rostos sujos e de barbas e cabelos intelectualmente apodrecidos, pelo despudor e pelo vício, pela vaidade e pela ausência de escrúpulos, nos seus delírios de protagonismo a qualquer preço, vão educando, ao seu jeito, uma humanidade pobre de espírito e já quase desprovida de valores!

Sim, nós, por cá, matávamos por questões tão triviais como um muro erguido em terra a partilhar, um desvio de um rego de água para alimentar o pasto de um lameiro, uma infâmia propalada ainda com cheiro ao vinho da taberna ou uma infidelidade conjugal provada ou suspeitada. È certo que se matava. Mas matava-se limpo. De peito descoberto, jogando forte no preço da honra a defender. E quase todos pagaram pelos crimes que cometeram.

Hoje… Hoje mata-se, insidiosamente, sorrateiramente, todos os dias e a toda a hora porque a modernidade e o irresponsável desatino dos desautorizados governos assim o consentem e quase garantem. É a febre do lucro fácil, do gozo fácil, da luxuriante podridão já tão necessária à nova vida urbana como é o ar que respiramos. E os criminosos, os grandes criminosos, vão ficando impunes!

Viajar já não é mais percorrer, caminhar, desbravar, observar e guardar para recordar depois. Hoje, viajar transformou-se num mero acto de mudança de um sítio para o outro, percorrendo em horas o que dantes demoraria dias, meses até, sem tempo para mais que não seja ir...

A publicidade usa a mulher e os seus segredos, que expõe a nu e à voragem de quem deles se aproveita em toda a sorte de negócios alguns operados por gananciosos sem escrúpulos que bebem o sangue dos seus corpos e lhes deixam, depois, a carcaça, a pele e o osso já sem préstimo retirada que foi deles a alma, o mistério e a juventude!

O lucro é hoje olhado como única finalidade da existência e a vida que nos foi confiada estiola-se e gasta-se com um fito único: - produzir! Pelo lucro tudo é feito, tudo é desfeito, tudo é contestado, sofismado e iludido! Vai longe o tempo em que fazíamos guerras por princípios. Hoje guerreamo-nos mais depressa e soezmente por vaidades e mentiras fazendo reinar na política verdadeiros prodígios na velha arte ou ciência de enganar um povo!

Meu Portugal de antanho, onde estás tu?

publicado por Júlio Moreno às 17:19
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Domingo, 16 de Julho de 2006

"Sócrates e Cavaco em colisão no TGV"

Publicava-se no PD da IOL de hoje o artigo do Diário de Notícias que referia - "Sócrates e Cavaco em colisão no TGV - Primeiro-ministro diz que suspender o projecto "seria um erro que o país pagaria caro". Terá sido esta - diz o articulista - "a resposta às reservas manifestadas pelo Presidente da República que apelou à realização prévia de «análises custos-benefícios muito profundas»

Ora, o senhor "primeiro-e-único-ministro" deve explicitar claramente por que afirma que seria tão grave erro suspender o projecto do TGV para uma mais profunda análise do "custo-benefício", tal como o recomenda o Presidente da República.

Em minha opinião, neste como em outros temas, co-incineração, por exemplo, o engenheiro Sócrates manifesta uma completa arrogância e falta de respeito pelos portugueses que, embora tendo votado em si em maioria, (que escolha tinham mais?), cada dia em maior número, deixarão de o apoiar.

Precisamos de melhor nível de vida, de mais emprego e de maior tranquilidade na velhice. Dispensamos TGVs que, poupando escassa meia hora em longos percursos, gasta o que não temos, potenciará gravíssimos acidentes e será utilizado por meia dúzia de abonados que poderão pagar o elevadíssimo custo dos bilhetes como se de uma viagem à lua se tratasse! Uma completa loucura em termos de conjuntura sócio-económica actual e tendo, apenas, como determinante a sua teimosia, que todos sobejamente lhe conhecem, além de muito prováveis negociatas mais ou menos camufladas a que a política, de um modo geral, nos vem habituando.

Para já e com a sua remodelação tecnológica assistimos, estupefactos, à absurda tentativa de construir uma casa começando pelo telhado!

Não se esqueça senhor engenheiro de que governar um país não é fazê-lo só para alguns e motivo de gozo pessoal. Governar um país é, acima de tudo, sacrifício, dedicação e competência o que o senhor de todo ainda não conseguiu demonstrar falando e gesticulando muito mas muito pouco dizendo. Atente na carta aberta e hoje pública que lhe envia o Prof. Dr, Santana Castilho já que, ao que parece o senhor teima em ignorar as duas, reservadas, que a antecederam! Por que não responde, senhor engenheiro? Por que razão não explica a omissão do estado em pagar à CGA os 23,75% que impendem sobre os vencimentos dos funcionários públicos? Por que não explicita a dualidade de critérios que parece existir quando ao Edifício Coutinho de Viana do Castelo e a torre existente na Covilhã? Por que não modificou o quadro legal que permite aos bancos, que duplicaram lucros em época recessiva, pagar apenas 13 por cento de impostos?

Felizmente que hoje tem, acima de si, quem, com maior legitimidade do que a sua, lhe poderá e saberá fazer frente se necessário. O Povo saberá esperar para ver mas olhe que, se calhar, já não estará disposto a esperar muito!.

publicado por Júlio Moreno às 11:20
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Sexta-feira, 14 de Julho de 2006

Um outro blog me suscitou o tema: - os meus cães e eu.

Adoro animais, especialmente os cães, aqueles que, com mais tempo e com mais amizade e paciência, me vêm acompanhando na vida e de que guardo as mais gratas e fortes - alegres e tristes - recordações.

Começarei por recordar, criança ainda, dois deles: o Max e o Tatu. O Max que, quando pequenino ainda, acorrendo, pressuroso, ao meu chamado, trocava as patitas, acabando por tropeçar e cair, rolando então ao meu encontro como se de um novelo de algodão em rama se tratasse. Cresceu e fez-se teimoso. Dono de um nariz preto que, com o negro dos seus olhos, quais pretas azeitonas, era quanto se descortinava em toda a majestosa brancura do seu farto pêlo. O outro, o primeiro da série de Tatus de nome, era perdigueiro, “pointer”de raça, nervoso, submisso e dócil. Obediente e escrupuloso cumpridor das instruções recebidas, nunca subia ao primeiro andar e muito menos entraria a porta do meu quarto. Nessa manhã, porém, contrariando o hábito, abeirou-se de mim, que ainda dormia, e acordou-me, lambendo-me a cara. Duas horas mais tarde, davam-me a notícia. Morrera atropelado!

Depois destes, muitos outros: - perdigueiros, pastores alemães, boxers, cães “sem marca” e até um Castro Laboreiro se seguiram.

De todos, e de cada um muito haveria que contar! Recordarei apenas duas cadelas: - a Diana, Castro Laboreiro puro, igual à que ao tempo se encontrava enjaulada no Jardim Zoológico de Lisboa com o letreiro “Animal feroz – não aproximar da rede”, decidiu a sua longa vida comigo quando, de enrolada a um canto, preguiçosa e aparentemente ensonada, de um salto me abocanhou o braço apertando-o, sem morder, mas com força suficiente para que recebesse a mensagem. Eu apenas dera um açoite no meu filho mais novo que, advertido várias vezes, teimosamente, me não deixava ler o jornal e que, por força de tanto teimar, me levara àquele extremo depois de haver deitado ao chão o cinzeiro de que me servia. Ele, pequenito, sentara-se no chão lavado em lágrimas e a Diana, largado o meu braço e depois de lhas ter enxugado exaustivamente como se dum seu filhote se tratasse, sentou-se entre mim e ele numa clara atitude de aviso e desafio. Nunca senti tanta gratidão como naquele momento! Morreu velhinha lá em casa adorando sempre o seu menino que bem mal lhe ia pagando tamanha dedicação – com indiferença.

A outra cadela, a Érica, boxer e tigrada, passava todos os momentos que podia junto de mim apenas me trocando um pouco pelo calor das chamas da lareira no Inverno. Compreendia as minhas palavras e frases, qualquer que fosse o tom em que fossem proferidas e, por vezes, sentada e olhando-me nos olhos, permitia-me longas conversas que acompanhava cheia de atenção, movendo a cabeça ora para um ora para o outro lado, e fazendo-me acreditar que, a todo o momento, me responderia usando a minha própria linguagem já que eu tão mal saberia usar a dela! Subitamente adoeceu. Durante muito tempo andou em tratamento que acabou em complicada cirurgia para extracção do útero. Tumor maligno. Já não podia aguentar as dores quando, perdida toda a esperança, satisfazendo-lhe os seus mudos mas insistentes pedidos, decidi pôr fim ao seu sofrimento pedindo ao veterinário que a observasse e lhe desse a injecção letal. Morreu suavemente, como que me agradecendo aquela dádiva, apoiada nas minhas pernas, com a cabeça no côncavo das minhas mãos e olhando-me, de olhos cada vez mais embaciados, num adeus que nunca esquecerei…

A despeito dos crimes de que o poderão acusar pelo colaboracionismo mantido com os nazis relembrarei aqui as sábias e bem verdadeiras palavras de Alexis Carrel: – “Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães!”…

publicado por Júlio Moreno às 16:06
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Sinto-me de plástico, impermeável…

Recorto e passo aqui o título “Adeus Cabala”, publicado no PD da IOL de hoje e que refere:

“Madonna está insatisfeita com a sua religião. Segundo o jornal "The Independent" a pop star está insatisfeita e poderá, em breve, abandonar a religião Cabala. A mesma fonte revela que as razões estão ligadas com o facto da cantora estar a gastar muito dinheiro e por problemas que a crença estaria a trazer no seio da sua família. Ao mesmo jornal, amigos da Madonna disseram que ela também estava preocupada por não poder celebrar o natal, já que a mesma religião proíbe”.

Fui ver, fui vasculhar tudo o que me permitisse dar ou negar a razão a Madona, até mesmo ao significado etimológico da palavra - [Cabala (também Kabbalah, Qabbala, Cabala, cabbala, cabbalah, kabala, kabalah, kabbala) é um sistema religioso filosófico que reivindica o discernimento da natureza divina. Kabbalah (קבלה QBLH) é uma palavra em hebreu que significa recepção – (inWikipédia, a enciclopédia livre)]” - e de tudo apenas concluí uma coisa, coisa essa de que há muito vinha suspeitando mas de que hoje tive plena certeza e consciência: - julgo que serei hermético e mesmo impermeável a certos fluxos ideológicos tão bem aceites nesta modernidade salobra à qual, definitivamente, não quero pertencer.

É que, na verdade, não consigo compreender como se possa abandonar uma religião que é uma crença, algo que deverá brotar e viver dentro de nós, que nasceu connosco, cresceu connosco, connosco tomou consciência de que existe, vive, sofre e contesta connosco sem que nada possamos fazer contra ela, sem que nada tivéssemos ou possamos vir a fazer em favor dela, assistindo, impotentes, às suas mutações e apenas nos restando verificar e aquilatar da sua existência porque, tal como o nosso espírito, ela é intocável, etérea, sem dimensão ou forma, mas existe.

Acho que podemos criticá-la quando a julgamos menos condizente com os nossos desígnios mais íntimos, que podemos, mesmo, renega-la quando afronta outros desejos insatisfeitos. Mas trocá-la?!... Trocá-la, talvez, como quem troca de camisa, escolhendo, dentre várias, a que melhor condiga com o momento ou excisando-a, ficando a peito nu?

Tal eventualidade afigura-se-me tão absurda e tão impossível como o agnosticismo e, por isso, deverei considerá-la mesmo como se não existisse e nunca tivesse existido. Mas o “The Independent”, jornal que não julgo capaz de vender papel ao quilo, com mais ou menos tinta, dá-lhe este relevo sensacional, explicita-o, o Portugal Diário publicita-o e logo passa à frente tratando de algo mais que tenha acontecido neste mundo de estupefacção em que me sinto viver!

Trata-se de Madona. Uma mulher sem graça que, para muitos, se transformou, ela própria, em religião. Uma mulher livre-trânsito para aqueles que, sem norte, procuram um rumo na imensa solidão da sua triste ignorância… Será que sou eu que sou mesmo impermeável ou, de algum modo, terei tendências algo demagógicas?

publicado por Júlio Moreno às 13:23
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Quarta-feira, 12 de Julho de 2006

Reflexões de um leigo sobre o Homem e Deus e já não sobre Deus e o Homem

Creio que todas as religiões serão unânimes em conferir ao seu Deus a Sua primazia absoluta em relação ao Homem, feito, segundo a fé cristã, à Sua imagem e semelhança.

Porém, surpreendido fico hoje ao verificar que, invocando razões irrecusáveis de progresso científico e talvez incentivado pelos aparentes sucessos que tem tido, cada vez mais o Homem desafia esse seu Deus, decididamente invadindo territórios e percorrendo caminhos que, à luz da sua crença e da sua fé, lhe deveriam estar vedados - aqui incluindo igualmente os agnósticos que, na minha óptica, pura e simplesmente não existem por mera impossibilidade de facto.

Refiro-me, como certamente já concluíram, à procriação medicamente assistida, recentemente consagrada em lei, e que, através do livre arbítrio que consente, para além de por em causa o supremo poder decisório da divindade, se projecta em terrenos que se mostrarão antagonicamente pretendidos pelo próprio homem que hoje se socorre do ADN de cada indivíduo para poder garantir a sua génese e, com ela, indagar da sua única possível proveniência - circunstância essencial nas ciências médicas e criminais, por exemplo - e amanhã deixará de poder fazê-lo!

Refiro-me também à clonagem e à remota possibilidade de se “construírem” seres vivos copiados uns dos outros, dotando-os da mesma aparência física e, o que será previsível num estádio próximo, das mesmas circunvoluções cerebrais que o mesmo será dizer dos mesmos neurónios, logo intelecto, vontade e espírito!

O carácter metafísico da essência humana parece, assim, condenado a desaparecer e o homem transformado numa coisa mais igual ou menos igual a outra coisa. Será possível esta coexistência do “ser coisa” e do “ser pensante”?

publicado por Júlio Moreno às 00:08
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Sábado, 8 de Julho de 2006

Coisas que entendo e não entendo

Entendo a guerra como meio de defesa contra uma agressão em curso, e não só eminente, mas já não entendo a agressão que a possa motivar.

Entendo a lacuna da lei por erro ou incapacidade humanas mas, reconhecida esta, não entendo porquê dela se possa retirar um benefício.

Entendo os conceitos de legitimidade e de legalidade mas não entendo porquê, na prática, o segundo se deva sobrepor ao primeiro, vencendo-o.

Entendo um parlamento como voz da nação, com deputados eleitos; mas não entendo por que se deva votar em quem, em consciência, se não conhece.

Entendo o que possa ser politicamente correcto mas não entendo a sua pacífica e tácita coexistência com o civica e moralmente condenável.

Entendo que se persiga a modernidade mas não entendo por que se devam ignorar os valores que a precedem.

Entendo a economia e as suas leis mas não entendo que possa ser ela a levar à destruição de enormes quantidades de bens alimentares quando parte do mundo morre de fome.

Entendo que o intelecto possa e deva ser livre mas não entendo que alguém, com arrogância, se possa afirmar agnóstico.

Entendo a liberdade jornalística de informar, mesmo mentiras, mas não entendo que se continue a privilegiar o segredo das fontes.

E há muitas, muitas coisas mais que, sendo compreendidas na essência, nunca poderei vir a entender na prática. Sinto que o homem divaga, há séculos, sem rumo, no seio das suas próprias contradições e que, quanto mais se pretende afirmar menos se afirma e mais se perde em termos de credibilidade e sensatez, refugiando-se hoje na tecnologia que habilmente vai sabendo converter no ópio dos povos sem que estes se apercebam de que será dessa mesma tecnologia que virão a ser vítimas. Já hoje se verifica que a informática e a robotização geram desemprego. Com facilidade se conclui que a urbanização e o “modus vivendi”, onde toda a motricidade e produtividade são geradas a petróleo, conduzem ao caos climático, que já é dos nossos dias! Daí à extinção de vida no planeta será um passo apenas. Há milhões de anos desapareceram os dinossáurios. Temo que num futuro próximo desapareça a própria humanidade!

Tudo isto será apenas uma parte do que compreendo mas não entendo e, talvez por isso, seja levado a invejar o eremita e o seu mundo próprio, de cogitação e recolhimento.

A cada dia que passa me sinto mais próximo de Agostinho da Silva e do seu pensamento linear, cáustico e incisivamente draconiano causando-me pena o facto de ainda permanecer tão ignorado!

publicado por Júlio Moreno às 16:12
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Quinta-feira, 6 de Julho de 2006

Rescaldo de um desafio de futebol

Gosto de futebol com peso, conta e medida. De certos jogos. Talvez quando haja mais qualquer coisa que, para além do jogo, verdadeiramente se discuta. Talvez questões de identidade nacional, de amor pátrio, resquícios de história que terão ficado por contar, sei lá! Qualquer coisa que transcenda, e em muito, o virtuosismo do jogo e os passes mágicos feitos com a bola.

Foi com este espírito que segui, atento, o campeonato do mundo em que participamos apetecendo-me abraçar, um por um, aqueles homens que tão abnegadamente se esforçaram ao longo deste mês e meio que levamos de emoção!

O senhor árbitro do Portugal - França esteve mal, muito mal mesmo. Da sua má actuação resultaram jogadas inverosímeis, que deveriam ter sido interrompidas à nascença e mereceriam cartões, no mínimo, amarelos. Manifestou um enorme desleixo, a roçar a incompetência, na condução do jogo e uma claríssima dualidade de critérios quanto aos “penalties”, o que assinalou e o que deixou por assinalar.

Enquanto os resultados dos jogos ficarem "exclusivamente" entregues aos senhores do apito e não tenham de ser obrigatoriamente validados através da visualização, "a posteriori" e no prazo de poucas horas, por um credível júri de arbitragem, dos lances mais importantes e polémicos, susceptíveis de terem determinado o resultado provisório, os desafios de futebol nunca serão efectivamente ganhos pelos esforçados jogadores que suam, se esforçam e se lesionam mas sim por uma qualquer eminência parda, mancomunada com a que corre, corre pelo campo como uma barata tonta, mas cujo moral se desconhece, e as reais intenções e hábitos também.

Depois, o consagrado costume, de “bom tom”, (não confundir com “fair play”) de tolerar as arbitragens só porque não ficará bem dizer aquilo que nos vai na alma, embora politicamente correcto, terá de acabar e, em casos como este, não é só um jogo que estará em causa, são milhares ou milhões de adeptos que, tal como eu, se sentem lesados, ofendidos e impedidos de ripostar, a começar pelos próprios jogadores, bem ao contrário do que já antes outros fizeram ao correrem com Junot e Companhia deste nosso país pequenino mas orgulhoso e valente com apenas 110 mil licenciados contra os dois milhões dos traiçoeiros e megalómanos franceses.

A linguagem diplomática e de salão onde o não e o sim se pronunciam “nim” não cabe no mundo do futebol. E, assim sendo, será que vamos continuando a tolerar, ainda que seja só pelas palavras que ficam por dizer, estes napoleõezecos de trazer por casa, megalómanos por tradição e em cujas hostes parecem alinhar tantos franceses de conveniência? Intencionalmente afastados por um poder oculto, que não pela verdade do jogo, o que, por certo, nunca se virá a descortinar, mas onde não deverá ser também alheia a tradicional rivalidade Uruguai – Brasil, restar-nos-á fazer votos para que sejam os italianos a “vingar” a ofensa que nos foi feita e a colocar um ponto final na arrogância desses senhores, não dos jogadores, que esses raramente são os maus da fita, mas sim daqueles que se sentirem tocados pelas linhas que acabo de escrever.

É que, e tanto quanto sei, a Itália têm tantos licenciados quanto a França!...

publicado por Júlio Moreno às 07:33
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Domingo, 2 de Julho de 2006

Divagations about love

When a man says to a woman “I love you” may be he loves her and may be not. But, when a man says to a woman “I do love you” and he really loves her, day after day the word becomes so small to represent his emotion that soon it will become useless and another word must be invented to do it well.

So many crimes have been committed on behalf of those few words that I think they probably are some of the most dangerous words to be pronounced since the begin of the life on earth.

It is so easy to love as to do it not. Being loved or not being loved it makes us to be so happy or so miserable that is only on those occasions we really feel the meaning of life and at the same time what really means to be confident or afraid of the future. Love may represent the heaven and the hell not exactly at the same moment but mostly at the same time.

Personally I think that all kind of human emotions are represented in love. Freud would say that sexuality is the main reason for love but I think that love is the main reason for sexuality.

Spirit and matter they must form a real cocktail and be very well mixed to allow anybody properly speak about love. People will have not many occasions to explain their real meanings if not applied to real and concrete loving situations.

Most of the representations of concepts that a man is able to do are round, spherical or made in circles. Considering that we may execute the graphic representation of the human basic feelings and its development as one circle, and that is why we can say that the hate is so near to the love - the extremes touch each other - passion can be considered an extreme love or an extreme hate: that is why it kills so often.

publicado por Júlio Moreno às 19:21
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A pedra e o homem.

Invejo a perenidade da pedra, tanto da rocha bruta, coberta de musgos e dispersa pelos montes, como daquela, artesanalmente trabalhada, que, nas muralhas dos castelos, contempla, muda e queda, toda a história que por si passou e a que mais haverá de passar!

Interrogo-me então: - será que a pedra é, para o Criador, mais importante do que o homem, Ser criado à Sua imagem e semelhança e ao qual Ele emprestou a vida? Porquê perpetuar aquela por milénios e conceder a este tão curto ciclo de afirmação na memória do tempo? A resposta que encontro é uma só, aquela que o meu coração me dá e a minha razão consente: - embora ambos existam, a pedra não tem alma, é só um corpo; o homem, esse tem alma, tem espírito que habita dentro dele, e, por isso mesmo, é muito mais perene. É imortal!

publicado por Júlio Moreno às 19:17
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