Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Curioso!

Em três estações de rádio que já hoje ouvi pela manhã (são 08h56 desta quinta-feira, 16 de Outubro de 2008), em todas elas ouvi dizer que Obama tinha vencido o debate de ontem - ao qual assisti e do qual tenho a mesmíssima opinião.


Verifico, porém e com espanto, que um orgão tão essencial na Comunicação Social de hoje, como o é este Portugal Diário da IOL, noticia, pela voz do seu articulista, que "MacCain vence o último debate"!!!...


Verifico, assim - e um tanto alarmado, confesso-o - o enorme poder da comunicação social no nosso mundo de hoje e, sobretudo, os malefícios (ou benefícios) que pode causar na opinião pública uma "desinformação" ou uma informação "distorcida" por uma mera - e, naturalmente, aceite porque livre - opinião pessoal de um articulista que, quanto a mim, não terá sabido olhar em todo o seu redor ou terá tido, no mínimo, um ângulo de visão inferior a 180º ( quando Deus quer, mais um técnico politólogo, uma das raríssimas profissões modernas que os dicionaristas ainda não assimilaram).


Mas, em que ficamos? - Obama foi melhor ou foi pior que MacCain?


Para mim, e sem qualquer margem para dúvidas, foi muito melhor porque mais sereno, mais conciso, menos tendencioso e apaixonado por uma causa já vivida e ultrapassada, e, sem uma especial e verrinosa acutilância, demonstrou, inequívocamente e à saciedade, que a mudança do Novo Mundo está consigo.


Bem haja, no entanto, quem pensa de modo diferente. Se não houvesse o negro que valor daríamos ao branco? Isto para não esquecer que o mal costuma vir sempre do danado do “cinzento”...


Gosto do que acabo de escrever. Gosto mesmo. Revejo-me nestas palavras e, por isso, vou publicá-las no meu Blog. Sempre por lá fica para memória futura e para entretenimento de quem gostar um pouco destas coisas...


Para melhor compreensão do que acima fica dito, transcrevo, seguidamento, o artigo do PD da IOL :


“McCain ao ataque vence o último debate


“Derradeiro debate na campanha para a presidência dos Estados Unidos poderá servir para relançar o candidato republicano


Por: Filipe Caetano


“E ao último debate John McCain decidiu atacar ferozmente. Face à queda nas sondagens, o candidato republicano jogava tido no derradeiro encontro com o seu opositor, agora que faltam vinte dias para as eleições. E McCain acaba por vencer o debate, apostando num estilo mais duro, nomeadamente nas questões relacionadas com a economia, dizendo que os «americanos são vítimas de Wall Street, têm raiva e têm razão». Resta saber se este triunfo será suficiente para reposicioná-lo na corrida pela Casa Branca. “O jornalista da CBS News, Bob Schieffer, teve mais espaço para intervir e tornou a discussão de ideias mais interessante do que nos encontros anteriores. A Universidade Hofstra, em Hampstead, no estado de Nova Iorque, acabou por receber o mais interessante dos debates presidenciais, onde os dois candidatos se sentaram lado-a-lado, olharam-se nos olhos e apresentaram posições muito diferentes sobre quase todos os assuntos, o que terá sido esclarecedor para os eleitores indecisos.


“«Senador Obama, eu não sou o Presidente Bush»


“Não houve assunto que não fosse abordado, até mesmo os ataques surgidos nos anúncios e comícios. McCain trouxe para a mesa uma figura que apelidou de «Joe canalizador» para vincar diferenças em relação ao seu opositor, principalmente no que toca aos impostos. Obama dirimiu argumentos, recordando que pretende «cortar impostos a 95% dos americanos», carregando na carga fiscal às «grandes empresas, que têm apresentado grandes lucros». McCain discordou e disse que Barack pretende «espalhar a riqueza», quando essa decisão tem de pertencer ao canalizador.


 “A campanha negativa


“Um dos temas centrais do debate foi o nível de ataques atingido pelas campanhas na televisão. Obama estava nitidamente reprimido e nunca se deixou empolgar, apesar de ter acabado por comentar alguns assuntos menos desejados entretanto levantados por McCain. “Assim sucedeu quando foi abordado o seu alegado envolvimento com William Ayers, um ex-radical dos anos 60 que tem sido associado a Obama. «Este tema transformou-se no centro da campanha de McCain, mas devo explicar que o senhor Ayers não está envolvido na minha e não será meu conselheiro na Casa Branca», afirmou o democrata, arrumando a questão e dizendo que «as pessoas estão fartas destas coisas e querem ouvir o que os candidatos têm a dizer sobre assuntos fundamentais como a saúde e a economia». “Ambos admitiram que o tom da campanha era duro e acusaram-se mutuamente, com McCain a dizer que Obama já gasto mais dinheiro em anúncios negativos do que qualquer outro candidato, enquanto Barack respondia com um dado: «100% dos seus anúncios foram negativos».


 “O «canalizador» e o resto


“McCain tentava falar do que lhe interessava e voltava a abordar «Joe o canalizador», criticando a proposta de Obama de aumentar impostos para contribuintes que ganham mais de 250 mil dólares por ano, o que afectaria os pequenos e médios empresários. McCain não percebe «porque é que os impostos têm de aumentar», enquanto Obama frisava a sua opinião, voltando a falar no «corte para 95% dos americanos». “Durante 90 minutos, falou-se muito de economia, mas também de ambiente, nomeadamente a necessidade de aumentar a independência energética. A aposta nas energias renováveis é algo comum aos dois candidatos, mas McCain não pára de falar do nuclear, enquanto Obama aponta para outras saídas mais consensuais. Uma coisa é certa: ambos querem reduzir a dependência da Arábia Saudita e Venezuela. “Na totalidade do debate, a crise ocupou 22 minutos do tempo, enquanto um quarto-de-hora foi gasto no tema das acusações e campanhas negativas. O resto foi para a educação (12), comércio e energia (10), seguros de saúde (9), aborto (8) e a opinião sobre os candidatos à vice-presidência (7).””

publicado por Júlio Moreno às 09:36
link | comentar | favorito
Sábado, 11 de Outubro de 2008

Curiosamente...

Tarde de sábado, 11 de Outubro de 2008, curiosamente acabo de ver um programa no canal da SIC Notícias onde era manifesta a barafunda e a baralhada de opiniões sobre o tema do momento: - não a crise financeira à escala global, não!; o tema em acalorada análise era o do "casamento" entre homosexuais, proposta de lei que recebeu um rotundo e bem merecido “chumbo” da Assembleia da República, bem ao invés do que há já dois ou tres anos acontece na nossa vizinha e estranhíssima Espanha!

Porque por várias vezes senti vontade de dar um passo em frente e tentar entrar naquele pequeno “écran” que a TV me mostrava e, se mais não fosse, tentar pôr alguma ordem na discussão que os moderadores, “doutoralmente” presentes e muito intervenientes, óbviamente não quiseram ou não souberam fazer, dando, assim, mais um "reality show" aos tele-espectadores, reservei as minhas tão impulsivas energias para vir aqui dar a minha “achega” a tal tema, hoje elevado ao grau (inimaginável por mim!) de ser, tal como ali foi apodado e reiteradamente afirmado pelos respectivos defensores do casamento entre homosexuais, uma gloriosa conquista da democracia,,,


.Antes, porém, achei interessante procurar algumas definições lexiológicas (encontradas, primeiro, no Grande Dicionário Universal da Texto Editora, edição informática e depois na Diciopédia 2006 da Porto Editora) sobre alguns termos que ao longo da minha tão ignorante vida (vejo-o agora) me foram de todo em todo estranhos e hoje, (confesso-o) de muito difícil compreensão.


Referirei, pois, do Grande Dicionário Universal:


DEMOCRACIA - (Gr. demokratía, m. s.), s. f. sistema político fundamentado no princípio de que a autoridade emana do povo (conjunto de cidadãos) e é exercida por ele ao investir o poder soberano através de eleições periódicas livres, e no princípio da distribuição equitativa do poder. - POLITÓLOGO – Não achei definição no velho dicionário que costumo consultar pelo que concluo tratar-se de um dos muitos neologismos em que a nossa língua vem sendo fértil desde a revolução dos cravos pelo que me decidi por procurar outro termo mais simples e correlativo como: - POLÍTICA -• (Gr. politiké), s. f. ciência do governo das nações; • arte de dirigir as relações entre os Estados; • princípios que orientam a atitude administrativa de um governo; • conjunto de objectivos que servem de base à planificação de uma ou mais actividades. - XENOFOBIA -• (Gr. xénos, estrangeiro + phob, r. de phoein, ter aversão), s. f. aversão às pessoas ou coisas estrangeiras. - HOMOSEXUAL - • (Gr. homós, semelhante + sexual), adj. referente à atracção e/ou a comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo; • que tem essa atracção e/ou esses comportamentos; • s. m. e f. pessoa homossexual. - NEOLOGISMO - • (Gr. neós, novo + lógos, tratado), s. m. palavra ou termo de formação nova, a partir de elementos gramaticais da própria língua ou estrangeiros; • acepção nova de uma palavra já existente na língua; • doutrina ou teoria nova. - MENTIROLOGIA – Por, tal como já antes me acontecera, não ter encontrado o termo – penso que pugnarei para que passe a ser aceite como neologismo da língua portuguesa; por esse facto e dada a omissão, procurei: - MENTIRA - • (Lat. mentita, sob o influxo de mentir ?), s. f. afirmação contrária à verdade;• falsidade; • ficção; • ilusão; • juízo errado; e, finalmente, CASAMENTO - • s. f. união legítima entre homem e mulher; • enlace; • matrimónio; •consórcio; • núpcias.


Seguidamente os mesmos termos, mas rebuscados agora na versão informática da DICIOPÉDIA 2006, da Porto Editora, acima citada. Pude, assim encontrar:


democracia -  substantivo feminino 1. sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2. nação democrata; democracia cristã interpretação do conceito de democracia à luz da doutrina cristã e, principalmente, da doutrina social da Igreja Católica; democracia directa situação político-administrativa em que o poder é exercido directamente pelo povo; democracia representativa situação político-administrativa em que o povo governa através de representantes seus, periodicamente eleitos; (Do gr. demokratía, «governo popular», pelo lat. democratìa-, «id.») POLITÓLOGO – a informação que me surge é a de que não foi encontrada qualquer referencia para o termo procurado “Não foram encontradas ocorrência(s) da(s) palavras pesquisadas” – Assim sendo, procurei:


política - substantivo feminino 1. ciência ou arte de governar; 2. orientação administrativa de um governo; 3. princípios directores da acção de um governo; 4. arte de dirigir as relações de um Estado com outro; 5. conjunto dos princípios e dos objectivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de actividades em determinado domínio; 6. figurado modo de se haver em qualquer assunto particular para se obter o que se deseja; estratégia; táctica; 7. esperteza; maquiavelismo; figurado astúcia; 8. figurado cortesia; urbanidade; civilidade; cerimónia; política externa relações entre os Estados; (Do gr. politiké, «a arte de governar a cidade»):  xenofobia - substantivo feminino antipatia ou aversão pelas pessoas ou coisas estrangeiras; (De xeno-+-fobia);  homossexual[ks] - adjectivo 2 géneros 1. relativo à homossexualidade; 2. que sente atracção sexual por pessoas do mesmo sexo; substantivo 2 géneros pessoa que se sente sexualmente atraída por outras do mesmo sexo;  MENTIROLOGIA - a informação que me surge é a de que não foi encontrada qualquer referencia para o termo procurado “Não foram encontradas ocorrência(s) da(s) palavras pesquisadas” – Assim sendo, procurei:


mentira - substantivo feminino 1. acto ou efeito de mentir; 2. engano propositado; afirmação contrária à verdade, com a intenção de enganar; peta; falsidade; 3. embuste; erro; 4. ilusão; 5. vaidade; mentira piedosa mentira que se diz com a intenção de fazer bem a alguém; detector de mentiras dispositivo capaz de discernir no mentiroso uma reacção emocional (respiratória, cardíaca, vascular ou psicogalvânica) desencadeada por algo que, proposto bruscamente, se relacione com a sua mentira; (De mentir);  casamento - substantivo masculino 1. acto ou efeito de casar; 2. contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto; matrimónio; 3. cerimónia que celebra o estabelecimento desse contrato; núpcias; 4. situação que resulta do acto de casar; 5. estado de casado; 6. figurado enlace; união; 7. figurado combinação; (De casar+-mento).


Devo acrescentar, a título meramente informativo do que é hoje e baseado apenas no que verdadeiramente é a realidade que me rodeia, que, para mim. POLÍTICA é a arte ou ciência de enganar um povo  e de que me parece urgente introduzir no lexigo luso-brasileiro a novíssima palavra MENTIROLOGIA, como técnica científica e normalmente associada à política (e a outras não menos ilustres actividades) e que visa ensinar o como, o quando e o porquê de se dever e poder mentir a terceiros sem que dessa "qualidade ou atributo" possam advir sanções mas antes elogios e gratos agradecimentos de um vasto e distinto leque da sociedade a quem ela é dirigida ou por quem ela é ou irá ser sentida.


A título meramente complementar - isto porque à Lei já quase ninguém liga o que quer que seja, tão prolixa e confusa ela é no nosso País - o que preceitua sobre CASAMENTO a nossa Constituição e o Código Civil Português:


 Da Constituição de 2005:


Artigo 36.º - (Família, casamento e filiação) - 1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade. - 2. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração. - 3. Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à manutenção eeducação dos filhos. - 4. Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo, ser objecto de qualquer discriminação e a lei ou as repartições oficiais não podem usar designações discriminatórias relativas à filiação. -5. Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos. -6. Os filhos não podem ser separados dos pais, salvo quando estes não cumpram os seus deveres fundamentais para com eles e sempre mediante decisão judicial. - 7. A adopção é regulada e protegida nos termos da lei, a qual deve estabelecer formas céleres para a respectiva tramitação.


Nota - Inequívocamente que na Constituição se pressupõe e prevê o nascimento de filhos como consequência natural do casamento, o que necessáriamente não acontecerá, senão artificialmente e através de uma pseudo-adopção.


Do Código Civil Português:


ARTIGO 1628º -(Casamentos inexistentes) -É juridicamente inexistente: a) O casamento celebrado perante quem não tinha competência funcional para o acto, salvo tratando-se de casamento urgente; b) O casamento urgente que não tenha sido homologado; c) O casamento em cuja celebração tenha faltado a declaração da vontade de um ou ambos os nubentes, ou do procurador de um deles; d) O casamento contraído por intermédio de procurador, quando celebrado depois de terem cessado os efeitos da procuração, ou quando esta não tenha sido outorgada por quem nela figura como constituinte, ou quando seja nula por falta de concessão de poderes especiais para o acto ou de designação expressa do outro contraente; e) O casamento contraído por duas pessoas do mesmo sexo.


Concordo que um homem viva e goste de viver com outro homem; concordo com que duas mulheres se amem e pratiquem os actos íntimos que irão consubstanciar isso mesmo, mas o que não aceito é que se percam as noções históricas e milenárias em que toda a sociedade em que vivemos se fundamentou, cresceu e, bem ou mal, vivificou, de que o casamento se fez para perpetuar a espécie - como disse Cristo "crescei e multiplicai-vos".


Vivam juntos, sejam felizes juntos, mas chamem à sua união um contrato de co-habitação e ou de comunhão de vida, mas não pretendam alterar o verdadeiro significado e sentido de uma palavra que direi "sagrada" porque sacramento como é a do "casamento". Por esta ordem de ideias qualquer dias alguém quererá casar-se com o seu cão ou o seu gato... porque com "tubarões" já muitos são casados!


Opiniões! Esta é a minha,,,


Ah! Já me esquecia de acrescentar que relativamente ao termo "DEMOCRACIA" também não estou bem de acordo em que, não obstante a sua etimologia e, como tal, a sua origem, queira verdadeiramente significar o governo do Povo. Para mim significará, tal como para Winston Churchill já significava, isso sim, o governo do DEMO e de um demo demente ainda por cima!


Ponto (como agora se diz ao finalizar uma sábia tirada que não queremos ver discutida)...

publicado por Júlio Moreno às 18:18
link | comentar | ver comentários (18) | favorito
Domingo, 5 de Outubro de 2008

IDEIAS...

E o homem sozinho, sentado há tanto tempo naquele banco do jardim público onde as folhas do Outono já tinham começado a cair e onde, de tempos a tempos, passava, numa corrida, uma criança, o homem sorria por fim.


Nele, o filósofo encontrara a chave de todo o mistério mas também nele o cientista que fora - estava aposentado da função pública, da sua escola - revelava-se perplexo, confuso e, pela primeira vez na sua vida, se interrogava sobre se teria valido a pena tanto trabalho, tantas privações, tantas noites sem dormir, tanta ansiedade e tanta frustração! Teria valido a pena? Mas porquê tanta dúvida quando o segredo de tudo estava, afinal, num conceito bem simples, passível de definição através de uma palavra pouco usual mas que, nem por isso, deixava de figurar entre os termos que o comum dos mortais entendia e sabia empregar com propriedade: - assimilar.


Na assimilação estava a vida, o progresso, tudo, absolutamente tudo. Na oportunidade dessa assimilação, na rapidez com que era feita, na precisão com que era interpretada, no tratamento posterior do conhecimento por tal via adquirido estava o que nos habituáramos a chamar: a civilização. Realmente, o homem sábio, que passara a sua vida a estudar, a investigar, a experimentar e que, paradoxalmente, à medida em que os seus conhecimentos cresciam e se acumulavam dentro de si, mais dúvidas tinha, mais ignorante e insignificante se sentia, esse homem que estava destinado a acabar, a morrer, a ter um fim, sentia-se angustiado e revoltado contra uma natureza que lhe dera um brinquedo com que brincara mas que não poderia dar, doar, vender, transmitir a mais ninguém a não ser na directa medida em que esse alguém fosse capaz de assimilar o seu pensamento, de beber esse seu conhecimento armazenado nas circunvoluções do seu cérebro gasto e onde as confusões já há tempos tinham feito a sua aparição!


Com ele todos os conhecimentos que adquirira se esfumariam e se decomporiam como ele, deles nada mais restando do que aquilo que, em vida tivesse podido, e sabido, transmitir a outros homens, porventura mais jovens do que ele, e da interpretação que esses outros homens fizessem daquilo que tinha constituído toda a sua existência e da utilidade que soubessem ou com que fossem capazes de dar aos seus conhecimentos. Dessa capacidade que resultaria da assimilação que tivesse sido feita dependeria mais um passo na senda do progresso da humanidade!


A genética! A engenharia genética fazia vislumbrar uma longínqua solução do problema... Mas seria ela capaz? E se o fosse, quando?...


Mas, além do mais, ele apenas tinha tido uma mulher que tivesse olhado para dentro dele e essa estava hoje demasiado longe de si, talvez irremediavelmente longe no tempo e na distância!. As demais que conhecera todas o tinham olhado e visto apenas por fora: - desde a época em que tivera uma boa constituição física, em que não desagradava de todo e despertava, talvez, algum apetite sexual, até ao outro em que os sinais exteriores de riqueza que então tinha tido oportunidade de manifestar, lhe tinham atraído grande quantidade de admiradores e admiradoras cada qual mais interessada do que a outra e todas se expondo, com maior ou menor descaramento ou pudor, à sua natural curiosidade e cobiça de macho.


Pensando bem, estava em crer que a pior invenção do homem tinha sido a do espelho porque fora nele e com ele que haviam despertado as maiores emoções que um homem pudera ter: a imagem exterior e real de si mesmo. Antes do espelho, o homem só se vira nas superfícies espelhadas das calmas águas, quase paradas, elas sempre lhe devolvendo a sua própria imagem mas sempre ligeiramente distorcida e algo nebulosa, como que teimosamente continuando e mantendo o mistério que a natureza produzira ao criá-lo. Mas tudo isso era, apenas e só, o exterior. O seu interior, o seu cérebro, as suas emoções, devaneios, anseios, mêdos e frustrações nada disso espelho algum lhe dera e se algum outro ser humano lho reconhecera, ou por ignorância ou por egoísmo, nunca lho demonstrara pelo que, sabia-o agora, iria morrer sem nunca ter conseguido aquilo que no seu delírio mais puro e verdadeiro sempre pretendera: - viver para algo e que esse algo fosse continuado por alguém – um alguém nunca representado pelos filhos que tivera e que hoje estavam sempre ausentes da sua vida - e que dele se tivesse apercebido...


Reparando melhor no solo ainda humedecido do orvalho da noite anterior e que rodeava o pequeno banco de jardim onde se sentara, descobriu um pequeno carreiro de formigas que, para cá e para lá, se apressavam, correndo, numa missão qualquer de que a natureza as incumbira. Reparou que esse carreiro atravessava o pequeno caminho de saibro que o separava do banco fronteiro ao seu, vazio, como quase sempre acontecia, e deu-se conta de que muita gente que passava, sem sequer se aperceber daquilo que pisava, ia matando com frequência dezenas, talvez centenas de formigas que, mesmo assim porfiavam em continuar o seu destino e o seu labor.


Como era cruel a natureza! – pensou.


À sua frente, esvoaçando, uma pequena folha amarelada pelo Outono que já ia a meio, veio, tranquila, pousar-lhe numa das pernas onde, por momentos se manteve, até que uma pequena lufada de vento a fez vibrar para logo escorregar para o chão onde se aquietou no abrigo que os seus pés juntos lhe ofereciam. Então o homem, cansado que estava daquela posição em que já há algum tempo se encontrava, levantou-se com algum esforço, não sem antes se ter debruçado para apanhar a pequena folha que caíra do seu colo e que, consigo decidira levar para a colocar, talvez, sobre a sua mesa de trabalho, mesmo à sua frente para a contemplar sempre que estivesse teclando naquela maravilha da técnica que era o computador que tanta companhia lhe fazia...


Ainda pensou em afagar carinhosamente uma pequena formiga das muitas que continuavam correndo ante os seus olhos mas logo desistiu: - a desporporção dos seus dedos e a fragilidade do corpo negro acastanhado dos bichinhos, nunca lho consentiriam... Como era cruel a natureza! - pensou de novo.


E, assim pensando, vagarosamente encaminhou-se para casa pois tinha de preparar qualquer coisa para comer dado que a hora do almoço se aproximava já.

publicado por Júlio Moreno às 15:53
link | comentar | ver comentários (2) | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds

Em destaque no SAPO Blogs
pub