Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

CONTRADIÇÕES DA MODERNIDADE E DO PROGRESSO

“Aqui d’El Rei” que o país e o mundo estão em recessão! – o que, em linguagem simples,se deverá entender que hoje se gasta mais do que o que se produz e servirá para alimentar os povos, actualmente e na sua maior parte, cada vez mais famintos e dependentes de certas “castas” - ditas políticas - auto-nomeadas, de competência medíocre quando não corrupta e mal intencionada!

Basta ouvir o monocórdico, repetitivo e, por isso mesmo, “chato” e cansativo discurso do nosso primeiro-ministro - e dos muitos economistas em geral - para se concluir que é na economia que estárá a salvação do mundo e nos seus êrros a sua desgraça!

Quem escreve este texto é um leigo na matéria, apenas sensível ao sofrimento generalizado em que hoje se vive e às recordações que lhe advém dos seus tempos de ilusão e juventude e permanecem vivas numa mente que o “progresso”, sem sucesso, teimosamente tentou corromper, desgastar e envelhecer.

 Chama-se hoje progresso à evolução teórico-económica dos povos e em que, cada vez mais, se criam máquinas e instrumentais de complexa tecnicidade mas que nunca ninguém poderá “comer” para se manter vivo! Ou será que, um dia destes, quando tivermos fome, poderemos dar algumas dentadas nos “Magalhães” tão propalados pelo nosso primeiro e com eles saciar a fome dos nossos estômagos, garantindo, desse modo, o vigor e a robustez necessárias à continuidade da vida?

Vem isto a propósito de algo que já há bastantes anos me chocou imenso e que ainda hoje, quando em tal penso – e o que é bem pior, quando a tal assisto! – me causa verdadeiros arrepios de genuíno mêdo pelo futuro que estará reservado aos milhões de netos existentes neste mundo e que as modernas guerras – em tudo artificiais e geradas nos cómodos gabinetes dos políticos e dos banqueiros – consentirem em deixar viver que vivam!

 Convidava-me, então, um amigo a visitar uma sua fábrica, textil, onde, por sinal, muito me impressionou, a vastidão dos salões de fiação e depois da tecelagem onde, para além do barulho ensurdecedor da maquinaria, era patente, a azáfama dos operários que diligentemente se moviam por entre a finíssima poeira que no ar pairava, isto não obstante os potentíssimos aspiradores que sobre os teares existiam e a absorviam a sua maior parte.

Devia empregar essa fábrica para cima de mil operários, entre homens e mulheres, e, paredes meias com ela, um sereno ribeiro corria e fertilizava os campos de cultura que se estendiam no grande vale onde se viam também bastantes homens e mulheres labutando e trabalhando a terra, ajudados que eram pelos seus animais e instrumentos de trabalho – juntas de bois e algumas máquinas que vagarosa e tenazmente iam fazendo a terra e semeando as culturas e, para além de tudo, em pastos e extensos lameiros, se apascentavam algumas manadas de gado.

Gostei do que vi: - de toda aquela vivacidade fabril e do tranquilo bucolismo campezino que em tais ambientes assim coexistiam e que pude, satisfeito, respirar e viver.

Passou o tempo, não muito por sinal, e eis que o mesmo convite me foi novamente formulado e nova visita pude efectuar à mesma fábrica.

Devo dizer, entretanto, que os “arredores” já não eram os mesmos e que, em vez do pó esbranquiçado da estreita estrada que à fábrica conduzia, aqui e além aspergido de areão grosso que em muito o diminuía, já havia no ar o inegualável cheiro a alcatrão e no percurso cruzámos com algumas enormes e ruidosas máquinas amarelas que se ocupavam em beneficiar aquele mesmo trajecto, alargando-o e atapetando-o de negro asfalto.

O meu espanto maior foi, porém, quando cheguei à fábrica e vi que, no enorme salão de tecelagem, as máquinas haviam sido totalmente substituídas e que outras, mais velozes e modernas, continuavam o seu contínuo labor de tecer o pano... Mas havia muito menos gente, o que desde logo me apercebi mesmo antes de me ter sido explicado que aquelas máquinas eram já modernas e que um só tecelão era agora capaz de se ocupar de cinco teares ao mesmo tempo!...

A pergunta surgiu-me então, expontânea, irreflectida talvez – politicamente incorrecta, como hoje se diria:

- “E que fazem os restantes quatro operários que já não trabalham aqui nos seus teares”?

– “Tivemos de os despedir ou reformar... Foram arranjar trabalho noutro lado!” – foi a mais do que óbvia resposta que ouvi mas que – recordo-o bem – me incomodou tanto como se fora lanceta trepassando-me o peito tão dolorosa ela fora! E foi então, só então, que compreendi porque haviam aumentado as brigas de taberna, os roubos, até as violações e os incestos em que, por força das minhas funções oficiais – comandava uma Secção Rural da GNR espalhada por cinco concelhos – eu e o meu pessoal nos vinhamos gradualmente e em crescendo confrontando no nosso dia-a-dia...

Fora o progresso: - mais e melhor produção; maior e mais promissora “rentabilidade”; mais desemprego e perigosa ociosidade numa classe rural e quase analfabeta; aumento do PIB e aumento do “crime”... Passava-se isto nos anos 60 e em pleno coração textil do país – hoje em dolorosa e infindável agonia - enquanto os bancos (actuais mananciais de escândalos), verdadeiras “albufeiras” do dinheiro, vão apresentando, descarada e despudoradamente, lucros fabulosos - raiando o prório crime de “usura” tal como o tipifica o nosso Código Penal.
-E hoje, em pleno século XXI, quando a robotização e a informática “aniquilou” milhões de postos de trabalho e o homem tanto “progrediu” que até conseguiu alterar a própria natureza, chora-se a recessão, perseguem-se através do fisco os pobres reformados que levaram uma vida de honestidade, de justiça e de trabalho e deixam-se escapar – invocando oportunas “prescrições” – os que ao mesmo fisco são devedores de milhões, protegem-se banqueiros criminosos que roubaram os que neles e nas suas inconfessáveis e maquiavélicas negociatas acreditaram e hoje não podem devolver aos seus donos aquilo de que foram ardilosa e criminosamente esbulhados e hoje se encontra engolido – e talvez mesmo irrecuperável! - pela voragem da sacrossanta economia global.

Patéticamente, porém, ouvem-se vozes – muito principalmente uma que das demais se destaca pelo tom e timbre tão peculiares e já tão nosso conhecido- e que, à míngua de soluções para o embróglio a que nos conduziu, desesperadamente clama por “inventos”, “criações”, “iniciativas” e “novas tecnologias”, esquecido que está de que a época dos descobrimentos já passou há muito, que “Einsteins” se não encontram ao virar da esquina e que se algo há hoje ainda a descobrir talvez seja um cantinho neste mundo onde se possa realmente viver em tranquilidadde e em paz...

publicado por Júlio Moreno às 14:35
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1 comentário:
De melia a 9 de Janeiro de 2009 às 14:19
Progresso verdadeiro......


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