Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Minha Carta de 8 de Maio de 2009 dirigida às Finanças de Vila Nova de Gaia

Exmo. Senhor Chefe de Finanças Adjunto, da Repartição de Finanças de Vila Nova de Gaia 2:

V.N.de Gaia, 8 de Maio de 2009

Assunto – Liquidação oficiosa – Procº 02.01.049 Refª: - Ofício 6348, de 28 de Abril de 2009

Exmo. Senhor,

1. Dada a situação de saúde bastante precária em que desde há alguns anos me encontro – enfisema pulmonar com grave obstrução respiratória que desaconselha e impede o estar em espaços fechados e onde haja grande concentração de pessoas e ultimamente sérios problemas de próstata que me não dispensam da proximidade de uma casa de banho seja qual for o local onde me encontre, isto conforme tive já oportunidade de telefonicamente explicar a V.Exas. - não me tem sido possível, bem ao contrário do que pretendia, deslocar-me a essa Repartição de Finanças, onde fui sempre bem recebido e tratado com a melhor urbanidade, razão pela qual muita estranheza me fez a carta registada com aviso de recepção hoje recebida – depois de ultimado o envio das últimas declarações de IVA em falta - e que me notifica de que, por via de um incumprimento legal de prazos para declarações que me atribuído, foi, pela Direcção-geral de Impostos decidido mandar proceder à liquidação oficiosa dos valores tributários em dívida isto em virtude do que dispões o artº. 56º. Nº 2 a) do Código do IVA que determina ser de doze meses o prazo em que os sujeitos passivos estariam dispensados da apresentação das declarações periódicas, no meu caso, trimestrais.


2. As datas em causa são as seguintes:

a) Cessação da actividade anterior – 31 de Dezembro de 2002;

b) Retoma da actividade, agora como independente: - 25 de Novembro de 2003; -

pelo que, feitas as contas e, na realidade, faltariam apenas 61 dias para que os doze meses se perfizessem!

Visto isso:

3. Tem, por consequência, toda a razão legal essa Direcção Geral de Impostos em proceder como procedeu, muito embora, e quanto a mim, seja muito discutível a sua legitimidade isto porque:

a) São muito parcos os meus recursos financeiros para poder satisfazer essa dívida, por V.Exas. já bem conhecidos, não obstante o Estado me seja devedor de um valor que estimo superior a 30 mil euros correspondentes a pensões de reforma que a Caixa Geral de Aposentações, - logo o Estado, contra o qual está sendo intentada a correspondente acção judicial administrativa, para o que requeri apoio judiciário - que me foi concedido - se terá esquecido de me pagar desde Março de 1997 até Junho de 2006;

b) Verifico que fui enganado quando me informaram, na Repartição de Finanças de Espinho, de que estaria isento de apresentação de declarações e do pagamento de IVA a partir da data da cessação da actividade e desde que o montante dos meus proventos anuais não atingisse os dez mil euros, o que, de facto, nunca atingiu, isto sem que me tivesse sido feita referência a qualquer prazo;

c) E, finalmente, quando vejo que é o próprio Estado quem deixa prescrever dívidas de IVA no valor de centenas de milhares de euros ( 70 milhões à Vodafone – notícias dos jornais e veiculada pelo seu próprio Director-Geral, Dr. Carrapato ) e mais recentemente ainda a grandes devedores, os bancos - notícia adiante transcrita – pretendendo, ao que parece e tudo o indica, ressarcir-se desses mesmos prejuízos à custa dos mais pequenos e daqueles a quem julga escassearem meios de luta para defesa dos seus interesses esbulhados isto para, ao que se infere das notícias vindas a lume, dispor de meios para ocorrer a despesas tão sumptuárias como as de dotar os senhores deputados da AR de uma novíssima frota automóvel que custará cerca de 1 milhão de euros – isto em plena época de crise! Será que é para dar emprego a novos motoristas?

Transcrição das notícias do IOL:

“Em causa estão 3,7 milhões de correcções ao IVA - “Fisco deixa prescrever impostos a pagar pela banca - “2009/04/06 07:27Redacção / PGM - “Estado lesado por ignorar proposta da própria Inspecção-geral de Finanças -“A Administração Fiscal deixou prescrever um terço dos 10,9 milhões de euros de correcções ao IVA do exercício de 2004, propostas pela Inspecção-geral de Finanças (IGF) a uma amostra de treze instituições financeiras, avança o «Público». - “De acordo com o jornal, apenas uma sociedade concentrou 2,2 milhões de euros de impostos prescritos. O BCP foi de longe a instituição financeira com maiores correcções tributárias. -“As correcções foram sugeridas no âmbito de uma auditoria da IGF efectuada em 2007 sobre o IVA a aplicar ao sector financeiro. Nas conclusões apresentadas dizia-se que o comportamento da administração fiscal prejudicou desde 2004 os interesses do Estado em largas dezenas de milhões de euros.””

d) Mas, regressando ao meu caso: - faltavam para que se completasse esse prazo, que – repito – desconhecia em absoluto, apenas 61 dias e, mesmo assim, a DGCI, órgão governamental e de um Estado que tão bem gere os dinheiros públicos! não teve quais quer dúvidas ou escrúpulos, depois de conhecer a minha situação económica e sanitária, (vide exposições já nessa Repartição oportunamente apresentadas) em vir aplicar-me todo o rigor da lei, fiel aos princípios gerais de direito que “dura lex sed lex” e que “o desconhecimento da lei não aproveita a ninguém”. Sempre gostaria de conhecer o Juiz ou o mero jurista que conhecesse todos os meandros da prolixa legislação deste país então hoje alterada por tal forma que os criminosos ficam em liberdade e os agentes da autoridade são ameaçados com prisão!

Na humildade, não isenta da mais profunda revolta, desta minha carta-contestação em que solicito, se amnistia ou perdão de dívida – que aqui legitimamente solicito - não puder ser feito, ao menos, me seja aplicada a medida menos rigorosa da possível penhora de pensão – só de 1/6 - sob pena de deixar de poder pagar renda de casa, de me alimentar e vestir e de adquirir a enorme panóplia de medicamentos que me vão, aos 73 anos de idade, mantendo ainda vivo embora sem viver!... Agradecendo que esta carta seja tomada na consideração que Vos possa merecer Subscrevo-me

a) Júlio Augusto Victória Moreno – NFC 132229560


PS - Teve a Rep.de Finanças a gentileza de me devolver o duplicado desta carta comprovando que a mesma foi aí recebida em 11 de Maio de 2009.


Ainda em aditamento  do que acima ficou dito esclarecerei que, por prescrição médica tomo regular e quotidianamente: - Para a tensão arterial alta: - Loretan Plus - um comp.todas as manhãs - Para a obstrução respiratoria grave - enfisema: - Brisovent - duas inalações diárias - Dilamax - duas inalações diárias - Bricanil (em SOS) - em casos de necessidade ou esforço prolongado - Para úlcera esofágica: - Ogasto - uma cápsula diária - Para prevenção de nova trombose venosa: - 2 cápsulas diárias de Trifusal (tarde e noite) - Para a hipertrofia da próstata: - Uma cápsula diária de Tansulosina Pharmakern 0,4 mg. - Para beneficiação do colesterol: . Uma drageia de Prevastatina tomada ao deitar - Para diminuição da ansiedade, percursora da falta de ar, e poder conciliar o sono: - um comp. de Diazepan - Durante a noite e diáriamente: - mais ou menos 7 horas de Oxigénio (em garrafas de Ox. Líquido fornecido pela Vital Aire)

publicado por Júlio Moreno às 02:30
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Domingo, 17 de Maio de 2009

Algumas datas apenas. E que estranhas coincidências elas encerram!...

É isso mesmo.

A minha vida, como a de toda a gente, está recheada de datas às quais pessoalmente atribuo os mais diversos significados mas que, exceptuando duas, em nada serão relevantes exceptuando as dos falecimentos de meus pais e do nascimento dos meus filhos. </p>O curioso e que duas há que, ao mesmo tempo que tão estranhamente me perturbam, dentre todas, se relacionarem de uma forma tão única e quase tão inconfessavelmente íntima que não resisti à tentação de aqui vo-las deixar sem qualquer outro comentário que não seja o da menção que delas mesm as faço: </p>- Dia 2 de Abril:  </p>- data em que nasci;
  • - data do falecimento de meu avô paterno - do qual sinto tanto ter herdado;
  • - data do falecimento do Papa João Paulo II, figura que muito me impressionou e cuja presença, infelizmente só televisiva, sempre senti próxima e à qual nunca fui insensível.
  • </ul>- Dia 27 de Dezembro: </p>- data do nascimento de alguém que me criou ilusões de juventude, sonhos de vida e que, desde muito cedo, se veio a revelar como todo o oposto de tudo quanto eu pensara;
  • - data do nascimento de um outro alguém que, sem que eu nunca o tivesse suspeitado, me fez suavemente renascer, retomar a força e a confiança já talvez perdidas e que hoje constitui o verdadeiro farol da minha vida.
  • </ul>Porque terá acontecido assim? Será que a muita gente tem acontecido o mesmo? </p>
    publicado por Júlio Moreno às 20:26
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    Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

    Tenho de mudar de estilo de escrever… se é que tenho estilo algum!

    Dei hoje indicações a uma pessoa amiga sobre este blog que vou escrevendo desde 2005… Já lá vão uns anos! Aproveitei e reli alguns dos textos que escrevi e… perdi-me a páginas tantas de tão complexa que me pereceu a minha prosa.

    Sem paciência para continuar, parei de ler e fiz naquele momento e a mim mesmo uma promessa: - Iria deixar os longos parágrafos, por vezes bem confusos e alguns até de coerência duvidosa, e ia passar a escrever de uma forma diferente. Mais directa e incisiva. Pondo dúvidas onde estas pairassem no meu espírito, mas tudo sem rodeios e pretensões ocas a uma exposição com ar de retocada, burilada e, quiçá mesmo, pouco convincente.

    Sinto que devo fazer este esforço de auto crítica e de análise, directa e objectiva, deixando para trás rodeios, conceitos adverbiais de modo, de tempo ou de lugar e indo direito aos assuntos, se é que os vou tendo e estes vão merecendo que, sobre eles, continue escrevinhando.

    E já agora tentarei aproveitar este meu primeiro ensaio para vir falar um pouco de um assunto que, de há muito, me vem deixando apreensivo e timorato até.

    Sou crente, já o disse aqui, e creio em Deus. Mas penso que enfileiro ao lado dos pouco ou nada praticantes por comodismo, preguiça ou com o recurso da estafada auto-desculpa indesculpável do esquecimento ou falta de tempo quando tempo é precisamente o que me sobeja agora!

    Emociono-me quando vejo a imagem de Nossa Senhora de Fátima pois me recordo bem - sendo, na altura, tão pequeno, teria quatro anos! - do momento em que a procissão das velas, já com um desvio que lhe não era habitual, parou em frente a minha casa e o seu andor se voltou para a minha janela e por Ela sinto hoje que fui então abençoado e salvo quando, gravemente doente e ao colo de meus pais, ardia em febre e tinha – soube-o muito tempo depois – poucas esperanças de me salvar…

    E, se até aqui, tudo parecerá normal e tão somente o sinónimo da Fé que o homem que sou hoje reconhece e acalenta, perturba-me e atormenta-me o pensar que, quando rezo e a Deus e faço as minhas orações, a Seus olhos possa parecer que, sendo como sou, o faça por interesse e não com aquela devoção sincera e despegada de qualquer interesse marginal ou pessoal que tanto queria demonstrar.

    Mas porque me perturbo assim quando deveria ser um acto habitual, regular e, como eu sempre quis que fosse, totalmente isento já que nada peço para mim ou evito fazê-lo o mais possível?

    E porque não peço eu para mim as benesses que peço para outros e que creio firmemente também me seriam concedidas?

    Porque temo que, sendo como sou e o que sou, a Seus olhos as minhas preces não tenham o mérito antes o demérito de poderem ser entendidas como feitas por interesses venais e pessoais e que só de imaginá-los de mim mesmo me envergonho.

    E envergonho porque sei que a mercê de Deus se não compra nunca. Ele no-la concede ou não consoante o mérito que a seus olhos ela tenha… Mas como demonstrá-lo? … Sobretudo a Ele, que estará dentro de mim, sentindo o que eu sinto, perscrutando e conhecendo o meu pensamento, como prová-lo sobretudo a mim e de mim arredando esta dúvida que sempre me assalta de ser eu mesmo a duvidar do meu íntimo e sem poder provar-me o contrário?

    Será que isto que sinto o sentirão também os outros quando rezam e falam com Deus?

    Atormenta-me esta dúvida que de há muito me assalta e que, à medida em que vou avançando na idade, mais presente se encontra no secretismo do meu ser avolumando-se ao ponto de, por vezes, se me tornar mesmo quase insuportável.

    Fui explícito? Ou mais uma vez me enredei em teias de palavras cujo significado nunca poderá ser entendido por quem as leia a não ser por quem me disse um dia que o que eu escrevia era como música para os seus ouvidos!... E que mágica não terá essa música que tamanha distância a todo o momento está sempre percorrendo!?...
    publicado por Júlio Moreno às 01:55
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    Terça-feira, 5 de Maio de 2009

    Esta besta com ar envergonhado é presidente de quê?

    ahmadinejad-e-pasdaran.jpg

    Povos de todo o mundo são horas de fazer a verdadeira Justiça e eliminar carniceiros da face da terra ou então soltá-los de tanga na savana africana, se possível junto a lagos infestados de crocodilos e onde estes costumem encontrar-se e refrescar-se...
    publicado por Júlio Moreno às 01:11
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    Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

    Sacrificada em nome de uma lei abjecta de um povo abjecto liderado por um demente perigoso a necessitar de rápida eliminação...

    a-darabi.jpg

     "Irão executa jovem que cometeu crime quando era menor Delara Darabi foi enforcada, o que motivou o protesto da comunidade internacional Por: /FC | 02-05-2009 20: 12

    Irão executa jovem que cometeu crime quando era menor Delara Darabi foi enforcada, o que motivou o protesto da comunidade internacional Por: /FC | 02-05-2009 20: 12 A União Europeia condenou duramente a execução de Delara Darabi, uma mulher iraniana condenada à morte por um crime que cometeu quando tinha 17 anos, informa a agência EFE. A Amnistia Internacional também já condenou o acto. Em comunicado, a Presidência checa da UE transmitiu às autoridades iranianas o seu firme protesto por uma medida que transgride os compromissos internacionais que foram assumidos por Teerão. Delara Darabi assumiu a culpa por um assassinato quando era menor de idade para proteger o namorado e, segundo a Presidência checa, foi executada (por enforcamento) na Prisão Central de Rasht. A UE pediu ao Irão que retire do seu código penal a pena de morte para menores e advertiu que esse tipo de violação dos direitos humanos dificulta a manutenção de uma relação de confiança e entendimento entre o país asiático e os Estados-membros do bloco europeu.

    "A União Europeia condenou duramente a execução de Delara Darabi, uma mulher iraniana condenada à morte por um crime que cometeu quando tinha 17 anos, informa a agência EFE. A Amnistia Internacional também já condenou o acto. Em comunicado, a Presidência checa da UE transmitiu às autoridades iranianas o seu firme protesto por uma medida que transgride os compromissos internacionais que foram assumidos por Teerão. Delara Darabi assumiu a culpa por um assassinato quando era menor de idade para proteger o namorado e, segundo a Presidência checa, foi executada (por enforcamento) na Prisão Central de Rasht. A UE pediu ao Irão que retire do seu código penal a pena de morte para menores e advertiu que esse tipo de violação dos direitos humanos dificulta a manutenção de uma relação de confiança e entendimento entre o país asiático e os Estados-membros do bloco europeu. ""


    Sem comentários com excepção para o meu desejo que Ahlah, nas próximas reincarnação deste "assassino" louco o enforque dez vezes... e que se não veja em tal qualquer vingança mas tão somente a justiça de que Deus encarregou os homens...


    Será que foi premonitório o que escrevi há dias? Ela também tinha o mesmo ar angelical e só pedia para viver...

    publicado por Júlio Moreno às 08:29
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    Domingo, 3 de Maio de 2009

    A que tipo de enredos obedecerão os sonhos?

    Ultimamente tenho dormido bastante mal. Com pequenos sonos de cerca de uma hora após o que, esta complexa e incómoda doença da próstata, me obriga a levantar para mais uma ida à casa de banho!

    Felizmente que, no regresso, salvas raras excepções, tenho tido a felicidade de rapidamente retomar o sono e de poder, assim, descansar mais uma hora.

    Curioso é que, nesses curtos períodos, alguns mais de sonolência semi-vigilante do que de sono profundo, tenho tido a felicidade de sonhar e não raras são as vezes em que, evadindo-me da solidão em que tenho vivido, a continuação do sonho se verifica na sequência da referida interrupção ou mesmo interrupções. Porque isto me acontece com certa frequência bem gostaria de saber porquê, já que a fisiologia do sonho se não costuma compadecer com tão frequentes, ou mesmo uma só que seja, interrupção não integrada no respectivo enredo. Digo isto porque acho estranho o que me vem acontecendo umas vezes porque sou actor do “filme” que o meu subconsciente imagina outras porque dele sou apenas mero espectador.

    É destes que me recordo menos, sendo, como é natural, grande a revolta que sinto pela manhã quando, tendo a certeza de que motivariam interessantes narrativas – acaso a tal me ajudasse o meu muito escasso poder narrativo – não me consigo recordar do respectivo enredo e do seu desenvolvimento lógico mas sim de quadros dispersos, aqui e ali revividos, mas de todo insusceptíveis de virem a formar a sequencia lógica que formavam e que tanto interesse motivaram no meu “eu” adormecido.

    Acontece que hoje, mais um caso estranho se passou misto de vivência real e de quadro fantástico de Salvador Dali mas que de veras me impressionou e do qual fui activo e revoltado interveniente.

    Viajava não sei de onde nem para onde, pois não me recordo, a bordo de um paquete luxuoso que haveria de conduzir-nos a um comboio o qual nos levaria a uma estranha estancia de veraneio dotada de hotéis, casas pequenas e grandes mansões mas cuja arquitectura era, sem sombra de qualquer duvida, da autoria de Dali pois ali se viam jardins suspensos e escadarias sem princípio ou fim e frondosos bosques de generosas e belíssimas árvores, algumas de copas e raízes invertidas, que completavam jardins oníricos e convencionais, todos eles sumptuosos e luxuriantes e onde abundavam as fontes e a água corria livre e com a sua refrescante, agradável e característica sonoridade mas, subitamente, desaparecendo embora dotando esses lugares de uma frescura exótica de delícia e de um som edílico e propenso ao pensamento e ao verdadeiro amor.

    Pois bem, traçado que estará, a largas pinceladas o cenário onde a acção se irá desenvolver para quem tiver a paciência de me ler, regresso ao estúpido cerne da história que tão amargas emoções me despertou e que aqui vos trago certo de que as ireis compartilhar comigo.

    A bordo do navio onde viajara, viajaram igualmente, além de muita gente totalmente incaracterística e quase que dolorosamente comum de tão vulgar que era, dois grupos de estranhíssimas pessoas: - o primeiro, constituído por duas senhoras de muito avançada idade que se faziam acompanhar, além dos trajes, já para a sua época, antiquíssimos, de um cão de raça “cocker spaniel” de cor acastanhada e que, a despeito do seu vastíssimo e sempre bem tratado pêlo, naturalmente comprido e encaracolado, envergava estranhas roupagens de agasalho, não obstante a época estival que atravessávamos, roupagens essas cruzadas por inúmeras correias de um couro luzidio e onde rebrilhavam fivelas e uniões de um prateado impecavelmente brilhante e bem tratado, tudo perfazendo um conjunto estranho e onde a única coisa com sentido era o próprio cão, dócil, amigo das donas mas que frequentemente lhes fugia, para seu grande alarme e susto, a fim de brincar com umas crianças, roliças, sempre afogueadas das brincadeiras a que, sem descanso, se entregavam perante o olhar indulgente e de elefante enternecido dos seus progenitores, um estranhíssimo casal de formas opulentas, o segundo grupo, enfeitados de imensas jóias de péssimo gosto, sempre em conjugal desacordo e não raro provocando mesmo aquilo a que se poderia chamar mesmo de “escândalo a bordo”.

    Terminado o cruzeiro e o percurso de comboio que se lhe seguiu, já instalados nos aposentos que a cada qual fora destinado, inesperadamente se finaram as duas velhas deixando apenas como espólio visível o cão que já antes referi, o qual, liberto agora da rigorosa tutela das suas omnipresentes donas, se dedicava, a tempo inteiro e por absoluto às brincadeiras com as ditas criancinhas e que estas lhe propiciavam perante a complacência irresponsável dos papás e que constituíam em fazer ao cão o maior número possível de judiaria ao ponto de lhe terem, depois de embebidas de gasolina ou qualquer outro produto combustível, as respectivas vestes, lhes pegado fogo, deliciando-se, depois, com a aflição do cão que, doido de pavor, em vão procurava fugir do terrível mal que, em si mesmo, transportava.

    Tentei, da forma mais rápida e racional possível, apagar o fogo que devorava o pobre animal, tentando abafá-lo com o meu próprio casaco ou utilizando a água que, à falta de vasilhas que a pudessem acondicionar, conseguia apanhar, em concha, com as próprias mãos.

    Inexplicavelmente, porém, o cão fugia de mim e sempre que pensava poder alcançá-lo via frustradas as minhas intenções pois ele sempre se escondia em lugares onde o meu braço não chegava, propagando assim o fogo nos diversos locais onde se abrigava.

    Estranhamente, porém, o fogo, vivo e crepitante, debitando enorme fumarada, não queimava o pêlo do cão, apenas lhe ia provocando enormes feridas que ficavam expostas nos locais onde as suas vestimentas haviam sido queimadas.

    Em pânico confesso, coisa que eu reconhecia como rara em mim, procurei e encontrei uma rapariga veterinária que se prontificou a vir comigo prestar ajuda ao pobre animal.

    Porém, à vista deste e das feridas que este apresentava disse-me necessitar de autorização superior para efectuar o tratamento uma vez que as donas já não existiam e, por conseguinte, não poderiam dar-lha. Insisti em que essa autorização seria coisa absolutamente dispensável perante o risco de vida eminente que o pobre cão corria e que eu próprio assumiria toda a responsabilidade pela intervenção que ela fizesse. Em vão. A sua recusa mantinha-se inabalável.

    Juntara-se gente, como sempre acontece nestes casos, e eram as mais diversas as opiniões que se ouviam, umas dando-me razão, outras à jovem veterinária, tudo isto perante o gozo alvar e o riso selvático das gordas criancinhas que, totalmente impunes, a tudo assistiam, saltando e rindo, delirantemente felizes.

    A questão arrastou-se por tão largo tempo que, pouco a pouco a revolta se foi apossando de mim a ponto de ter pensado mesmo em arrastar a veterinária para junto do cachorro para que ardesse com ele e com ela a burocracia que a paralisava.

    Valeu-lhe, porém, o facto de eu ter acordado em sobressalto e, antes de me levantar de novo, ter reconhecido, aliviado, que tudo não passara de um estranho pesadelo o qual, depois de regressado à cama, felizmente não voltou, ao contrário do que já por duas vezes anteriores acontecera, mas que durante largo tempo me manteve acordado, fazendo-me pensar e tentar descortinar o fio lógico do que lógica alguma teria com certeza…

    Certo que não encontraria qualquer explicação, terei acabado por adormecer e, quando, pela manhã me levantei, não procurei em Freud qual o significado de mais este estranho sonho, certo, como estava e estou, de que não o encontraria…
    publicado por Júlio Moreno às 21:22
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