Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Apontamento de que já me ia esquecendo…

Aqui há dias, passaria pouco das sete e meia da tarde, quando, em velocidade reduzida – a que permite as condições da via em questão - nos dirigíamos, de carro, para casa ao longo da estreita, sinuosa e relativamente nova marginal de Vila Nova de Gaia.

Subitamente, eis que surge na nossa frente, mesmo à saída de uma curva apertada, de pirilampo azul a acender e a apagar, um batedor da PSP logo seguido de um outro que, em alta velocidade, também abriria caminho a duas ou três viaturas do Estado (de serviço público, portanto) que deveriam transportar pessoas muito importantes, tão importantes que bem poderiam ter dado cabo da vida dos pacatos cidadãos com os quais cruzassem, como teria acontecido connosco, acaso não nos tivéssemos podido encostar à direita, ali, exactamente sobre o rio Douro…

Não vi nem Bombeiros nem INEM que pudessem justificar um tão manifesto excesso de velocidade num local onde esta deve ser criteriosamente reduzida. A viatura principal era de alta cilindrada, preta e bem reluzente, escoltada por imprevidentes ou subservientes agentes de trânsito da PSP que, porventura, não tinham sabido ou tido a coragem de se submeter à Lei do País, que, mais do que a ninguém, lhes compete cumprir em vez de às ordens de uma qualquer pseudo importante personalidade para quem a vida de terceiros pouco ou nada contaria “quod erat demonstrandum”!

Foi pena, foi mesmo pena que os anos tivessem passado e eu não estivesse ainda no activo da GNR porque, à fé de quem sou, que o caso se teria complicado ali mesmo e complicado muito, como já um dia tive ocasião de o fazer com o próprio Ministro do Interior na presença do então Ministro da Marinha…

Mesmo assim talvez ainda vá procurar saber de quem se tratava só para pessoalmente lhe agradecer o cuidado…

publicado por Júlio Moreno às 00:27
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

O Marechal Carmona

       Marechal Óscar Carmona,

  Presidente da República de Portugal

 

Contavam meus Pais - embora eu, de tal, conserve apenas uma muito vaga reminiscência onde avulta um grande bigode branco, e que remontará aos meus 4 ou 5 anos - que o Marechal Carmona costumava, por vezes, passar em Vidago parte das suas férias de Verão, no Hotel do Palace, já que sua mulher, como se sabe, era de Chaves, sendo aí requerida habitualmente a presença dos meus Pais pelo que, gostando, talvez, de me aturar, frequentemente, ele, provavelmente por lhe recordar os netos, me pegava ao colo e comigo passeava pela vasta varanda de entrada no Hotel e onde eram instaladas algumas mesas sob imensos guarda-sóis.

Pois bem. Terá sido numa dessas ocasiões que o campo de golfe de Vidago, só com 9 buracos, foi inaugurado e, como seria de esperar, foi o Presidente o convidado de honra para o inaugurar.

Assim, no “tiger-tee” do primeiro buraco, em posição, foi-lhe colocada a respectiva bola, nova e a brilhar, e, depois de ensinados os necessários e preliminares movimentos da tacada ao Presidente, que nunca jogara, este, procurando seguir as instruções que o “master” lhe dera, feito o “swing” a preceito e com a indubitável intenção de dar na bola, mais não conseguiu do que assustá-la, fazendo com que esta só caísse do “tee” e rolasse um escasso palmo na direcção que mais lhe terá apetecido.

Imediatamente o “master” Goad, o professor contratado pela Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas, proprietária do campo, pedindo licença, tirou o seu casaco, e, com o ferro apropriado, do exacto local onde a bola se encontrava, bateu uma tal pancada que a colocou no “green” e a cerca de meio metro da bandeira, com o que foi calorosamente ovacionado por todos os presentes, incluindo o próprio Presidente que se não terá coibido de acrescentar:

- Belíssimo, belíssimo, professor!…  Só que eu não sabia que era preciso tirar o casaco!...

publicado por Júlio Moreno às 18:58
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Pena de morte

 

 

Desde que me conheço e me reconheço com alguma capacidade para pensar e raciocinar sobre estas coisas que me venho manifestando sempre, em qualquer lugar e em quaisquer circunstâncias, contra a pena de morte por variadíssimas ordens de razões, umas materiais e outras imateriais.

Dentre as materiais destacarei aquela que, em meu entender, deverá ser considerada como a mais relevante de todas elas: o erro judiciário.

E quando há pena de morte e, por erro, se condena um inocente, é o Estado quem comete o hediondo crime de homicídio com a agravante de o cometer com manifesta e inquestionável superioridade de meios e com inapelável premeditação já que, em teoria, se admitirá que terá ponderado todos os prós e contras que poderão resultar da aplicação de tal pena e, não obstante as dúvidas que necessariamente lhe terão surgido em resultado desse ponderação, aplicou-a e assim se converteu num Estado assassino.

Dentre as imateriais referirei apenas que, para quem é crente, como eu, não será fácil aceitar que a falível justiça dos homens se possa sobrepor à justiça divina já que, se tal fosse a vontade do Criador, Ele mesmo e quando o julgasse necessário a teria aplicado nunca negando, deste modo, a sua infinita misericórdia e clemência.

Mas já que, nos dias de hoje, há quem mate em nome da lei e há igualmente quem se esforce por colocar os seus conhecimentos técnico-científicos ao serviço da minoração do sofrimento humano, já se não compreenderá que quem assim aja, na hora suprema de infligir a morte a um condenado, venha declarar-se contra a aplicação do bálsamo que ele próprio humanitariamente criou demonstrando-se, deste modo e bem ao contrário do que se afirma, um monstruoso e verdadeiro aliado do sofrimento quando não mesmo da pena de Talião.

"Queremos desenvolver e tornar acessíveis tratamentos que melhorem a vida das pessoas. É esse o foco do nosso negócio", afirmou à agência AP Sally Benjamin Young, porta-voz da Lundbeck Inc, empresa que produz o sedativo pentobarbital e que tem sede na Dinamarca. – diz hipocritamente o fabricante da droga clemente!

Para onde será que alguns homens pretendem levar a humanidade e que conceito teório e prático farão dela?

publicado por Júlio Moreno às 12:05
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Preparação para as olimpíadas de “salto à vara”…

Mais uma notícia do IOL:

“Vara passa à frente de todos em centro de saúde

“Ex-ministro socialista apareceu de surpresa, passou à frente de todos os doentes e deu ordens a uma médica para lhe passar um atestado - Por: Redacção / Carlos Enes  |  19- 2- 2011  0: 26  

“Armando Vara provocou esta quinta-feira um escândalo num centro de saúde de Lisboa. O ex-ministro socialista apareceu de surpresa, passou à frente de todos os doentes e deu ordens a uma médica para lhe passar um atestado.
“Um dos doentes apresentou uma reclamação. A responsável pelo centro de saúde pede desculpa, mas afirma que a responsabilidade foi toda de Armando Vara, que abusou dos seus direitos.
“José Francisco Tavares, de 68 anos, reformado, com seis filhos, dirigiu-se ao centro de saúde com um ataque de sinusite, como o estado recomenda, para não entupir as urgências hospitalares. Esperou quase uma hora pela consulta. Como os outros doentes, a maioria dos quais reformados sem pensões de reforma que lhes permitam recorrer à medicina privada, José Francisco ficou à espera... mas foi ultrapassado por um milionário, Armando Vara, que passou à frente de toda a gente.
“A médica, surpreendida, ainda disse a armando vara que o não tinha chamado. Mas ele respondeu que estava cheio de pressa para apanhar um avião. E a médica que lhe passasse o atestado na hora. E conseguiu mesmo o que queria.
“Enquanto estávamos em reportagem, a directora do centro de saúde contactou-nos. Aproveitámos para fazer a pergunta: «Gostaria de saber se os amigos do primeiro-ministro, como o dr. Armando vara, têm direito de preferência nas consultas?» «Não, senhor jornalista Carlos Enes. O senhor Armando Vara entrou aí como qualquer utente e passou à frente de toda a gente. Entrou no gabinete da médica sem avisar e sem que a médica percebesse que não estava na sua vez. Foi uma situação de abuso absolutamente inconfundível», respondeu Manuela Peleteiro.
“José Francisco apresentou de imediato uma reclamação no livro amarelo. 24 horas depois, acompanhado pela TVI, foi recebido pela directora dos centros de saúde
“O doente abusador, se não perdeu o avião, está no estrangeiro. A TVI tentou contactá-lo através do advogado, sem êxito.””

 

Confesso-me surpreendido com o género de comentários que esta notícia suscitou.

Quando à questão, se questão existe, é boa de ver e salta, de imediato, à vista de toda a gente: - Tratou-se de um treino para as Olimpíadas numa disciplina em que ainda não temos pergaminhos a para a qual ainda muito teremos de treinar: - O SALTO À VARA!

Por isso só temos que louvar o ex-ministro que assim dá este magnífico exemplo de desportivismo em tempos pouco livres e mesmo numa fase tão crítica “de saúde” como aquela que actualmente atravessa.

Diz a notícia ainda que tomou um avião de ida mas não esclarece se, com a pressa, não se terá esquecido do bilhete de volta!?...

publicado por Júlio Moreno às 00:41
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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Notícia do IOL publicada ontem, 18 de Fevereiro

Notícia do IOL:

“PS e PSD travam limite aos salários dos gestores

“CDS, BE e PCP vêem assim inviabilizadas as suas propostas para impor tecto máximo nos vencimentos dos administradores - PorRedacção  VC  - 2011-02-18 13:01

“As propostas do CDS, Bloco de Esquerda e PCP para limitar os salários dos gestores das empresas públicas foram inviabilizadas esta sexta-feira na Assembleia da República. PS e PSD travaram os propósitos daqueles partidos.
“O CDS queria colocar como tecto máximo o salário do Presidente da República. «Não é compreensível numa altura como esta que atravessamos que haja gestores públicos com salários de 500 mil ou 600 mil euros por ano. O Estado impõe austeridade aos outros tem de começar a dar o exemplo e impor austeridade a si próprio», disse a deputada centrista Cecília Meireles.
“A proposta do BE ia ainda no sentido de que o salário do nomeado não fosse superior ao salário de quem o nomeou. «É necessário impor um limite ao abuso. O limite que propomos é o vencimento do PR. Não é admissível que um gestor público nomeado aufira uma remuneração várias vezes superior frequentemente à entidade que o nomeia», explicou o deputado Pedro Soares.
“Já o PCP pretendia limitar os salários dos gestores públicos no máximo a 90% do salário do Presidente da República, porque, defendeu o deputado Honório Novo, «não é sobretudo aceitável que haja gestores públicos a ganhar estes vencimentos bilionários em empresas onde se cortam os vencimentos, onde se propõem reduções salariais ou congelamentos».
“Mas nenhuma das propostas convenceu o partido do Governo e o maior partido da oposição. Do lado do PSD, Miguel Frasquilho disse que «a lógica destes diplomas que aqui hoje debatemos é absolutamente errada, totalmente demagógica e a roçar um populismo fácil e perigoso. É o aproveitamento de forma totalmente condenável das circunstâncias difíceis que enfrentamos».
“Do lado do PS, Teresa Venda disse que «estas iniciativas têm em comum pretender legislar sob a forma de projecto-lei algo que é claramente competência do Governo e que tal como são formuladas são insusceptíveis de aplicação sem regulamentação do executivo».
“Apesar de verem os seus projectos inviabilizados, CDS, BE e PCP insistem na necessidade de uma maior transparência do sector empresarial do Estado””

Não entendo, confesso que não entendo muito bem a notícia que antes transcrevi!...

Ou melhor dito: - entendo-a mas de uma forma que bem gostaria de nunca referir: a “engenharia política”! Aquela coisa estranha que me faz considerar e definir a política como sendo “a técnica, ciência e arte de enganar um Povo”!

Que temem os partidos? Temem a fuga dos “boys”? Ou dos eleitores que, sendo caciques locais, terão o dom de convencer o Povo? Tudo isto pela mais do que provável fuga de importantes votos que, mais do que pelo número, pela qualidade, possam prejudicar os dois partidos que nesta estranha estratégia em pouco ou nada se diferenciarão?

Comédia! Pura comédia a fazer-me lembrar o que tantos e tão convencidos tecnocratas políticos conseguiram com as negociações e os vários tratados a que indistintamente se designa por “Convenção de Genebra” e que só servirá para ser invocada nos teatros de guerra criados pelo cinema já que nos reais ninguém hoje acreditará que, qualquer que seja a facção em luta, por quem quer que seja venha mesmo a ser observada! É que vai longe o tempo, vai mesmo muito longe o tempo, em que, mesmo na guerra o cavalheirismo e a honra eram levados a sério e tão a sério que terão levado mesmo um emproado e empoado comandante francês, quando, apeado, em linha e no campo de batalha, confrontava os ingleses, a uma distância tão curta que permitisse que os arcabuzes e as outras antigas espingardas de pederneira, cumprissem, com eficiência, a sua missão de matar, fazendo uma ridícula e cerimoniosa vénia, proferisse a frase: - “Tirez vous en premier messieurs les anglais…”.

Portanto a minha opinião é que sim, que se reduzam os chorudíssimos vencimentos (escandalosos vencimentos!) também no privado (em especial nas parcerias público - privadas) pois não será ao privado que o Estado vai ao bolso sempre que necessita de reforçar os seus cofres em prol do social que tanto apregoa? E se, por considerá-lo escandaloso e ou inconstitucional (como hoje está tanto em voga!) o não faz directamente e com o estabelecimento de tabelas de salários máximos, ao exemplo dos mínimos que já estabeleceu, assim restringindo o esbanjamento dos bens do erário, que só temporariamente parecerá privado, mas que sempre foi e será público – o dinheiro que circula.

Mas. após um tão longo e “erudito” comentário, importará concluir:

- NÃO CONCORDO NEM COM O PS NEM COM O PSD. ESTOU COM O CDS E COM O PCP (como vêm os extremos tocam-se…). O ESTADO DEVE CONTROLAR E RESTRINGIR OS SALÁRIOS ABUSIVAMENTE ESCANDALOSOS QUE, EM TEMPO DE VACAS TÃO MAGRAS E TÃO DOENTES, AMEAÇAM O ESTADO COMO ENTIDADE MÁXIMAMENTE RESPONSÁVEL DE UM TÃO INQUESTONÁVEL E SUPERIOR INTERESSE PÚBLICO.

publicado por Júlio Moreno às 15:03
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Última hora!

Ao acabar de ouvir o pseudo engenheiro civil José Sócrates, PM de Portugal, (do Portugal dos outros que não do meu!) - endeusado por alguns que, só mais tarde e quando já não lhes servir para nada e antes se houver tornado um pesado e comprometedor estorvo para eles, não só o deixarão cair como até lhe passarão a apontar os seus anafados dedos, irá sentir quão dolorosa vai ser a queda dos píncaros a que o guindaram e aos quais, pelas suas cegas arrogância, petulância e vaidade se deixou ir alcandorando (um pouco como o que penso terá acontecido a Salazar quando teimou em manter-se, para lá da "marca", no poder!) - e cujo diploma de curso de encontra apocrifamente impresso em papel timbrado de uma Universidade de pouco ou nulo crédito e, segundo a Ordem dos Engenheiros, se não encontra, e nunca se terá encontrado, lá inscrito!, - quando, ao acabar de ouvir a notícia de que terá criticado o responsável pela Jerónimo Martins dizendo que “não basta ser rico para se ser bem educado”, apetecia-me saltar para o “palco” televisivo onde tal comentário foi tornado público para acrescentar que não bastará, também, ser-se primeiro-ministro para se ser verdadeiro!

Creio – e isto é apenas uma leiga opinião pessoal mas que julgo será do mais elementar bom senso - que o nosso PM já será mesmo um caso para estudo clínico e a carecer não só de cuidadosa psicanálise como também do correspondente tratamento,  já que, pelo que me é dado perceber, ele acredita mesmo nas  mentiras que profere tal é o à vontade e a convicção que demonstra ao proferi-las!

Que tristeza, que tristeza… e que vergonha eu sinto! E, não será tanto e só por causa dele mas sim por quantos o rodeiam e estarão de boa saúde…

publicado por Júlio Moreno às 12:43
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Miguel Torga e Amadeu Teixeira de Sousa

Tendo conhecido pessoalmente o segundo – o que talvez não aconteça com quem me estiver lendo de tão afortunadamente modesta que terá sido a sua vida, como eu, que o não vejo há anos, suponho que tenha sido – só conheço o primeiro através da sua obra invejável, da profundidade do seu pensamento e da história notável da sua vida e que as enciclopédias hoje desnudam.

Trago hoje ambos a este lugar das minhas memórias - e, também de algumas arreigadas e teimosas convicções pessoais, reconheço-o  - apenas para discorrer um pouco do que terá sido a vida do Amadeu, personalidade que talvez o País ignore mas que, creio que com inteira justiça, deveria ser dada a conhecer ás crianças desde os bancos da instrução primária e a quem queria, deste único jeito que hoje tenho, prestar a minha sincera e saudosa homenagem.

Encontrei-o no colégio Brotero para onde eu fora, fugido ao liceu que ameaçava classificar devidamente a minha preguiça. Nas aulas de latim era sempre ele quem fazia, e nos ensinava depois, a tradução dos complicados textos que nos mandavam fazer em casa.

Se bem me recordo o Amadeu era o mais novo de nove irmãos que, juntamente com seu pai, pequeno arrendatário de umas terras para os lados de Amarante, estaria condenado a ser mais um lavrador de entre Douro e Minho – não confundir com o lavrador do sul que este sim, é o proprietário das terras que administra, enquanto que o do norte é apenas aquele que, por conta de outrem, e de sol a sol, constantemente as trabalha – se não lhe tivessem sido unanimemente reconhecias pela família as suas especiais faculdades intelectuais pelo que foi decidido que, dentre todos, seria ele o único que iria estudar e não trabalhar a terra como os demais.

Amadeu queria ser Juiz. Por alguma razão que nem ele soube nunca explicar, a Magistratura judicial chamava-o e era essa a profissão que desejava abraçar um dia. Seu pai, porém, revelava-se como o seu maior obstáculo porque, para si só uma de duas actividades profissionais requerendo estudos lhe consentiria: - a de padre, cuidando da alma e do espírito, ou a de médico, cuidando do corpo. Mas a de Juiz, nunca!...

Ele, porém, embora criança ainda não desistia, persistindo na sua intenção de ser formar em direito, em Coimbra, e de poder vir a ser Juiz. Porém, como o pai não o consentia e, como nem um nem outro demonstrasse qualquer cedência nas respectivas intenções, foi-lhe cortada a mesada e a enxada passou a ser o seu instrumento de trabalho em vez do lápis, do papel e dos livros. Clandestinamente, porém, o padre da aldeia, sabedor da história, decidiu continuar a dar-lhe aulas e a prepará-lo, dentro dos limites do seu próprio conhecimento, para o futuro que ele pretendia. Daí os seus profundos e adiantados conhecimentos do latim…

Passados aqueles duros anos da sua juventude e adolescência sem perder nunca de vista o seu propósito de vir a ser Juiz, foi aos 21 anos que, atingida a maior idade, Amadeu comunicou a seu pai que, dali por diante prescindiria do seu auxílio e iria para o Porto, para casa de um conterrâneo, condutor dos eléctricos dos STCP, que lhe oferecera casa e mesa enquanto estudasse.

A sua sala de estudo, onde tinha os seus livros e conseguia o seu isolamento, era um galinheiro, vazio de galinhas mas cheio de livros e cadernos e onde fora autorizado a fazer o seu “escritório”, trabalhando à luz de um candeeiro a petróleo já que, como era normal num galinheiro, ele não tinha luz eléctrica.

Assim, o Amadeu fez num só ano os terceiro, quarto e quinto anos do liceu, e no outro – quando o conheci - o sexto e sétimo – decimo e décimo primeiro actuais.

Feitos os exames de aptidão à faculdade de direito, eu com dezasseis anos e ele com vinte e três, ambos nos matriculámos em Coimbra, onde eu não terminei o curso e ele se licenciou com 28 anos, prosseguindo, como tanto queria, na Magistratura.

Por encontrar um grande paralelismo entre ambos, pelo menos no que de duro tem o lado material da vida, que, para ser vencido, tanta tenacidade e força de vontade necessita, aqui trouxe hoje o Amadeu e o Miguel Torga já que, quer de um quer do outro, por bem diferenciadas razões, sou e continuarei sendo um indefectível adepto.

publicado por Júlio Moreno às 17:37
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O bombista suicida

Exasperados por, na sua esmagadora maioria, não possuírem o armamento sofisticado que hoje a generalidade dos países já possuem, cansados de lutar – nas suas justas ou injustas causas – com os paus e as pedras dos primitivos tempos, com acesso facilitado por quem deles tirará o proveito, aos artefactos explosivos da moderníssima alquimia, os bombistas suicidas converteram-se, nos dias de hoje, na mais terrível e temida arma que o mundo civilizado terá de enfrentar.

Na sua crença, pensam que seja o paraíso o que os espera depois de, para tentarem fazer prevalecer os fanáticos princípios daqueles que os educam, ensinam e incentivam a cometer tão hediondos e revoltantes actos de chacinar inocentes - o que nem a Bíblia nem o Alcorão acolhem e aconselham como meio -  assim vão dando a vida por causas perdidas tantos mártires, também, a maior parte deles, inocentes como aqueles que matam e chacinam!

E, tal como nunca vimos um sindicalista fazer greve no seu Sindicato e raramente vemos um político falar verdade ao Povo que governa, também nunca iremos ver um professor de suicidas suicidar-se, ele mesmo, como corolário prático dos ensinamentos que ministra!

É este o paradoxal mundo em que vivemos, qual novelo de finíssima lã e de tal modo emaranhada com o qual continua brincando o colossal gato do nosso destino.

Feito de ambição, traição e hipocrisia, apanágios em crescendo na humanidade que, assim, revela a miséria da alma humana que, posta por Deus na terra para, em consonância com a consciência que desde a sua criação sempre a acompanha, poder livremente optar pelo bem ou pelo mal e que tanto e tantas vezes pelo que há de pior vem optando numa clara indicação de que com, o progresso, o mundo está recuando e que, muito em breve, irá mesmo desaparecer isto mesmo antes que o sol esfrie e deixe de poder alimentar a vida neste pobre planeta, nave espacial que - como já dizia Von Braun -  o homem se vem esforçando com a sua criminosa inconsciência e sapientíssima ignorância, cada vez mais, por destruir…

publicado por Júlio Moreno às 13:24
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Dona Gertrudes Thomaz, e a sua visita à Nossa Senhora da Graça

 

 

            Fotografia actual (do Google)

 

O Presidente Almirante Américo Thomaz encontrava-se, mais uma vez, de visita ao Norte e, como de costume, alojado no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães. Nessa manhã, um domingo, havia saído cedo do Paço pois tinha várias sessões solenes agendadas, algures, pelo Norte e, sobretudo, no distrito de Vila Real.

Era domingo e estávamos no início de Julho ou em finais de Julho, não me recordo bem, e meus pais, de viagem para Carvalhelhos, onde meu pai, como médico e director clínico da estância, iria passar toda a época termal, haviam-me prometido passar por Guimarães para almoçarem connosco e rever os netos. Não contava, portanto, com a ordem que nessa manhã me foi dada pelo comandante do Batalhão para que acompanhasse a mulher do Presidente que, sem que este o soubesse, se queria encontrar com ele no alto da Nossa Senhora da Graça para onde estava aprazado, às 13h00, o almoço do Chefe do Estado e das demais individualidades que o acompanhavam.

O Santuário da Senhora da Graça ficava fora da área da minha jurisdição e já na de Vila Real, Ribeira de Pena, a ela contígua, sendo acedido através de um imenso emaranhado de estradas florestais, de terra batida, densamente arborizadas e sem qualquer espécie de sinalização que orientasse o viajante. Nem eu nem o meu motorista, vindo expressamente de Braga com o carro do comandante da Companhia, conhecíamos o itinerário e não houve tempo para recolher qualquer informação através das cartas militares pelo que foi à aventura que ambos partimos.

Dona Gertrudes Thomaz, que não conhecia pessoalmente, não obstante conhecesse a filha, amiga de meus primos, e a quem me apresentei pontualmente à hora que me haviam marcado, revelou-se-me uma senhora extraordinariamente simpática, simples e cordial e que, a despeito da doença de que era portadora e que lhe dificultava enormemente o andar, sorridente e bem disposta, logo se apoiou no meu braço e me pediu:

- Senhor Tenente, gostava tanto que me mostrasse os sítios mais bonitos por onde fossemos passando já que nada conheço para estes lados! Será que o pode fazer?

- Com toda a certeza, minha senhora. Pararei o meu carro e Vossa Excelência apenas terá de ordenar ao seu motorista que pare atrás de mim e terá, também, de confiar um pouco no meu bom gosto – completei sorridente e satisfeito com a sua afabilidade.

- Com certeza, com certeza… – respondeu ela de pronto. – Estou certa de que me surpreenderá e confio plenamente nas suas opções. O que gostaria – acrescentou – era de estar lá no Santuário perto da hora do almoço pois o meu marido não sabe que vou… é uma surpresa!

E foi assim que o pequeno cortejo dos dois carros, o da Presidência e o meu, seguindo à frente, rumámos ao alto da Nossa Senhora da Graça onde eu mesmo e como disse, iria pela primeira vez.

Correu tudo bem até passarmos Fafe, Celorico de Basto e o Arco de Baúlhe, começando as coisas a ficarem complicadas quando entramos no emaranhado das estradas da floresta pois eram frequentes as bifurcações que, com o auxílio de uma pequena bússola que trouxera, nos obrigava a optar: - ou pela esquerda ou pela direita e correndo sempre o risco de irmos ter onde não queríamos.

Entretanto, nos locais mais bonitos da linda e rude paisagem serrana que, a cada curva se nos ia deparando, já várias tinham sido as paragens feitas e outras tantas as vezes em que fora ao carro da Presidência, ajudando a simpática senhora a apear-se após o que, pelo meu braço, a conduzia até aos pontos de onde melhor poderíamos espraiar a vista pela imponência dos enormes vales e serranias que, naquela época do ano, tão bem acolhiam, com o sussurrante ruído característico das suaves brisas que, constantemente os percorrendo, atravessavam os densos pinhais que os cobriam, deleitando, assim, os sentidos, a quem tivesse o privilégio de os puder, ali, observar e admirar.

- Que lindo, que bonito! – ia dizendo Dona Gertrudes Thomaz a cada paragem que fazíamos, nunca suspeitando da incerteza do itinerário que seguíamos e que, quis Deus, que, nos conduzisse directamente ao Santuário onde, exactamente às 13h00, parámos os carros no sopé da escadaria.

O Presidente, que já lá se encontrava, ao ver-nos chegar, não se coibiu de descer algumas das escadas e num dos raríssimos sorrisos que alguma vez vi no seu rosto, exclamou.

- Gertrudes!... Tu por aqui? Mas isto é mesmo um milagre da Nossa senhora da Graça! – mal sabendo ele quanto o era, de facto…

publicado por Júlio Moreno às 12:01
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Meu Pai…

Chamava-se Augusto Gonçalves Moreno. nasceu em Bragança em 31 de Março de 1906, sexto filho do ilustre professor, filólogo e cultor da língua portuguesa Augusto Moreno,  foi médico em Vidago (de 1935 até 1948) e aí deixou grandes amizades não só pelo seu profissionalismo como igualmente pela grandeza moral da sua personalidade.

Vivendo em Vidago, nos primeiros anos de casado com Maria Barata Pinto Feyo de Victória, teve um grande incêndio em sua casa, situada no centro da Vila, ao lado do Grande Hotel, à margem da Estrada Nacional Vila Real - Chaves. Nesse incêndio tudo perdeu ficando, tanto ele como sua mulher, minha mãe, apenas com a roupa que tinham no corpo na altura em que, acordados pelo intenso cheiro a fumo, apenas tiveram tempo de fugir para a rua com os roupões de quarto que ainda puderam vestir.

Valeu-lhe, na dramática ocasião que viveu, a generosa e inesquecível atitude da família Abreu, proprietária do Hotel Avenida, que, sabedora do ocorrido, os acolheu a ambos enquanto não se puderam alojar na casa, propriedade da referida família, que passaram a habitar na Avenida Teixeira de Sousa e onde passou também a ter o seu consultório e da qual, da minha infância, tantas e tão gratas memórias tenho!

Em 1950, dada a sua especialidade de médico hidrologista, além de clínico geral, foi designado Director Clínico das Caldas Santas de Carvalhelhos, estância termal situada a cerca de 9 quilómetros de Boticas e a 2 de Bessa, cargo que desempenhou durante longos anos e para onde se deslocava anualmente durante a época termal, de Julho a Setembro, até 1980, ano em que se reformou por sua iniciativa, tendo então mudado a sua residência do Porto (Foz), onde residia durante o Inverno e onde era médico dos, então designados, Serviços Médico -Sociais , prestando serviço no Posto Médico situado na Rua do Molhe, na Foz do Douro.

Nos últimos anos da sua vida e já viúvo, pois sua mulher falecera em Maio de 1974, dada a sua paixão pela serra e pelas termas onde fora clínico e onde granjeara grande estima, não só junto da população local como da dos arredores pelos cuidados de saúde que sempre lhe foi prestando, fixou residência nas Caldas Santas de Carvalhelhos, onde veio a adoecer gravemente, tendo falecido a 10 de Dezembro de 1984 no Hospital de Chaves para onde foi encaminhado e assistido pelo seu grande amigo Dr. José Manuel Abreu, que o substituíra em Vidago, e que ele havia acompanhado quando este ainda estudava medicina em Coimbra.

Por haver entendido que essa seria a sua vontade e que ele de tal teria gostado, aquando da sua trasladação para o Porto, onde repousa, ao lado de minha mãe, no cemitério de Agramonte, decidi fazer um desvio no trajecto e passar com ele por Carvalhelhos onde muito me emocionou a homenagem que toda a população das termas, que, sem que com tal contasse, logo lhe quis prestar, acompanhando, pesarosa, o seu féretro no pequeno percurso que fez pelas zonas que ele tão bem conhecia e amava antes de delas se despedir em definitivo cerca de uma hora depois…

Por minha vontade e se tal fosse permitido pela lei portuguesa, teria procurado algum souto próximo que, além de castanheiros possuísse urzes e fragas, algures por alguma daquelas serras que ele tantas vezes percorreu e tê-lo-ia deixado em cova aberta no seu seio, sendo só eu sabedor do local exacto onde o corpo fora colocado porque a sua alma, essa, está presente e junto de quantos o amaram e compreenderam.

Senti hoje e aqui, tal como já antes o fizera na Wikipédia, seria a hora de lhe prestar o preito de toda a minha eterna saudade e que, com o tempo que passa, cada vez mais se vem tornando presente e adensando no meu coração!

Bem hajas, Pai, por teres existido e pelo generoso e desinteressado auxílio que a tantos prestaste nesta vida… Espero que, quando, um dia, chegar a minha vez, possa encontrar-te, assim como à Mãe, e apresentar-vos então quem tanto haveríeis de ter gostado de conhecer ainda aqui na terra. Agora aí, nesse lugar santo que sei te encontrarás, beija a minha Mãe por mim e dá-lhe também conta da saudade que também sinto por ela!

Ah!... Já me esquecia de te dizer o que, um dia, talvez um ano depois de tu teres ido, um homem, que eu não conhecia, se abeirou de mim, em Boticas, e me perguntou: -“ O senhor é filho do Dr. Moreno, não é?”. Perante a minha resposta afirmativa ele disse então: - “Conheci-o. Os meus sentimentos. O seu Pai era um homem de bem!...”. Não disse mais mas eu senti tanto orgulho, Pai, tanto orgulho em ser teu filho! E, já agora, também em Boticas, quando me dirigia a um passante para perguntar uma qualquer informação, ele, que eu não sabia tratar-se do Comandante dos Bombeiros locais, aproximando-se da janela do carro disse-me: -“ Desculpe, é filho do Dr. Moreno, não é? Está igualzinho ao seu Pai e, por momentos, até o confundi com ele!...”. Um dia te apresentarei quem estava comigo e testemunhou este momento que, mais uma vez, tão orgulhoso me deixou ao mesmo tempo que pensava: - “Se tu soubesses amigo, se tu soubesses a que distância eu me encontro do meu Pai e quão pequeno sou perante a sua grandeza!...”

publicado por Júlio Moreno às 13:58
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