Domingo, 13 de Março de 2011

Nos bastidores da diplomacia (I)

 

Chamava-se Paulo Tacla, Dr. Paulo Tacla. Era brasileiro, creio que médico, e uma espécie de eminência parda ou de explorador diplomático desde há muito utilizado pelos governos brasileiro e de Salazar e Caetano, como mais tarde vim a saber.

Sem que nos conhecêssemos, telefonou-me um dia para o escritório pedindo para falar comigo. Por razões que, a seu tempo, me explicaria pedia-me para me encontrar com ele nessa mesma tarde no Hotel Ritz em Lisboa. Curioso, acedi, e seriam umas cinco e meia dessa tarde quando nos encontrámos e conhecemos.

Pegando-me no braço, apresentou-se a apresentou-me as estranhíssimas razões do seu pedido ao longo do extenso passeio de vai e vem no alcatifado salão contíguo ao “lobby” daquele Hotel de onde era, como vim a saber posteriormente, cliente habitual.

Tratava-se de um convite que o Governo brasileiro pretendia fazer ao General Spínola, então Governador e Comandante - Chefe na Guiné, para visitar o Brasil e aí proferir algumas conferências. Para isso, porém, necessitava da certeza prévia de que o General aceitaria tal convite sem o que este, como era uso nos meios diplomáticos, não seria enviado de Brasília. Perante a minha surpresa declarou-me ainda estar informado de ser eu uma das pessoas a quem, discretamente, tal pedido de sondagem poderia ser formulado pois era sabido como o General me estimava e escutava as minhas palavras. Pedidas que foram, por mim, as necessárias explicações sobre tal informação, me prometeu que um pouco mais tarde, e se autorizado, mas daria, mas que, no momento, a urgência do pedido era esse, o de saber se o General estaria ou não na disposição de aceitar tal convite no caso, mais do que certo, segundo ele, de o mesmo lhe vir a ser feito.

Claro que nada lhe prometi então a não ser que iria ponderar devidamente o que me dizia e que, logo que tivesse uma decisão tomada, prontamente lha comunicaria.

Tratava-se, pensava eu, de um passo muito delicado pois não me poderia esquecer de que a Guiné estava em guerra e de que o convite poderia mesmo encobrir alguma manobra no sentido de afastar, temporária ou definitivamente, o General do teatro das operações. Sobre o assunto, cujas reais apreensões, e como logo seria de calcular, não lhe revelei, muito teria mesmo de pensar antes de dar o passo seguinte qualquer que fosse a decisão que viesse a ser tomada.

Prometendo ser o mais breve possível na resposta a dar-lhe sobre qual viria a ser a minha decisão sobre o assunto – se nele me quereria imiscuir ou não – assim terminou o meu primeiro encontro com aquele simpatiquíssimo personagem a quem fiquei de, em breve, telefonar aproveitando, se possível, a sua estada em Lisboa ou comunicando-lhe para o Brasil, para o endereço que na ocasião me forneceu, quaisquer notícias que, sobre este assunto, tivesse a dar-lhe – o mesmo que farei agora, aos meus leitores, prometendo-lhes, para os próximos “posts”, o desenvolvimento deste curioso, e creio que desconhecido, episódio.

publicado por Júlio Moreno às 18:21
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Comentário deixado num blog...

O suicídio sempre me impressionou.

E tanto mais quanto é certo que, por força das minhas obrigações profissionais, tive de ver alguns suicidas ao longo da minha vida!

Que tremenda força destrutiva deve ter, armazenada dentro de si próprio, aquele que se suicida! Que tenebrosos medos, conjecturadas certezas, ódios ou desesperanças não estarão presentes em tais espíritos!

E que tipo de loucura ou de fria determinação será necessária para executar a operação final: - saltar da cadeira, premir o gatilho, despoletar a granada ou atirar-se do precipício!

publicado por Júlio Moreno às 11:52
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Dario Dantas dos Reis, um médico…

Recordo-me bem dele. Chamava-se Dario Dantas dos Reis e era um dos assistentes do Prof. Doutor Fernando Pádua, conhecidíssimo cardiologista deste País, sempre empenhado na sua luta contra o fumo e que, por atenção a meu pai, seguia minha mãe na fase já quase terminal da sua vida e enquanto muito doente, que era, do coração.

Era o Dr. Dario negro, muito jóvem e natural de Angola. Nas várias crises que minha mãe sofreu – nalgumas das quais julguei tê-la já morta nos meus braços – sempre corri para o telefone e sempre o Dr. Dario me atendeu e prontamente acorreu aos meus apelos.

Era impressionante vê-lo. Não muito alto, entroncado e com um enorme sorriso inundando-lhe todo o rosto. Chegava e eu, que o recebia, logo o conduzia ao quarto onde estava a minha mãe que, ao vê-lo, diria mesmo que ao pressenti-lo, logo melhorava.

O seu tratamento para além de uma ou duas vezes em que lhe ministrou uma injecção, constava, fundamentalmente, em se sentar num banquinho ao lado da sua cama, em lhe pegar nas mãos e com ela falar, longa e pausadamente numa voz tão baixa e suave que mesmo eu, estando perto, não entendia mas que ela entendia e que a tratava, curando-a da crise que sofrera e recuperando-a para a alegria que sempre tivera de viver!

Abençoado Dr. Dario de quem, comovidamente, me despedi quando me anunciou que iria regressar a Angola.

- Fique, doutor, precisamos cá de si… - disse-lhe eu.

- Gostava mas não posso… - me respondeu ele. – Sou mais necessário em Angola.

Sei que partiu e nunca mais o vi. Sei que, onde quer que esteja, será um bálsamo e uma enorme esperança de vida para as pessoas que tiverem a felicidade de o terem como seu médico.

Aqui lhe rendo a minha, já de há muito devida, homenagem e lhe agradeço quanto, naqueles anos de setenta, fez por minha mãe entretanto falecida a 24 de Maio de 1974 e, por ironia do destino, na mesma Casa de Saúde onde nasci, na Avenida dos Aliados, no Porto.

publicado por Júlio Moreno às 11:49
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Sábado, 12 de Março de 2011

Recordo a manhã do dia 26 de Abril ...

Recordo a manhã do dia 26 de Abril quando, conduzindo pela marginal, vindo de Oeiras, onde morava, me dirigia ao escritório na Infante Santo, em Lisboa. Estava uma manhã algo nublada – talvez pressagiando o nosso então longínquo futuro e actual presente – e eu, olhando o Bugio, respirava uma brisa que se assemelhava àquela que costumava respirar sempre que me deslocava ao estrangeiro. Uma brisa estranha: - fresca e livre… Exultava interiormente.

Um ano passou. E, a 23 de Abril de 1975, um mandado que me foi entregue após convocatória, a que compareci, na António Maria Cardoso, assinado por um tal Nápoles qualquer coisa – que vim a saber depois tratar-se de um major padeiro (como na gíria chamávamos aos da Administração Militar) do Copcon – acusando-o de pertencer a um grupo de malfeitores, mandava deter e conduzir a Caxias um cidadão que, por acaso, residia em Oeiras e tinha o meu nome. Nem rua, nem número de porta!

Com indescritível surpresa, deduzi que muito deveria eu ser conhecido em Oeiras!

Conduzido a Caxias fiquei detido numa cela de isolamento (das utilizadas pela Pide, com casa de banho privativa e água quente dia e noite) durante quinze dias. Pensava que fosse engano pois, no dia imediato, a 24, tinha aprazado uma visita à Gulbenkian, na companhia de um ten. cor. pára-quedista, para equacionar alguns últimos pormenores sobre a segurança do centro de escrutínio dos votos da eleição presidencial que se realizaria daí a dois dias, a 25 e, como tal, decidi-me, pacientemente, a esperar…

Mas não era engano. Fiquei mesmo aí os 15 dias que acima referi após o que fui transferido para uma cela com 14 beliches onde tive a companhia, entre outros, do Dr. Spínola, irmão do Marechal que eu assessorara e que morava no andar de baixo, o ex-ministro do interior, César Moreira Baptista, o Embaixador Franco Nogueira, saneado da UTIC de Santa Maria onde, dois dias antes, dera entrada com um enfarte do miocárdio e de cuja entrada na nossa “sala” me apercebera por um estranho ruído de uma maca que nos acordou a todos pelas três da manhã; era Franco Nogueira uma pessoa, cuja arrogância televisiva sempre me impressionara desfavoravelmente, mas que vim a reconhecer como cultíssima, senhora de uma extraordinária distinção e de excepcionais dotes oratórios que a todos cativava e com quem as horas se passavam sem que delas nos déssemos conta. Aprendi muito com ele.

Connosco estava igualmente o duque de Palmela (Holstein), que me ensinou a fazer “bluff” em “bridge”, coisa que nunca fizera, o Presidente da Câmara de Castro Verde, cujo nome peço desculpa de não recordar, e entre outros mais, um pobre homem algarvio cujo “crime”, segundo ele, teria sido o de ter pedido numa tabacaria para tirar umas fotocópias de uma qualquer piada impressa de Álvaro Cunhal que por lá circularia.

E assim o tempo se passou até que fui novamente colocado no isolamento numa cela idêntica à primeira por mais 15 dias por me ter recusado, não obstante as ameaças, a responder a quaisquer perguntas que me quisessem fazer sem a presença do meu advogado, e de onde saí para ser “realojado” na Penitenciária de Lisboa, cela nº 100 do 3º andar, onde encontrei e fiz mais amigos que um dia referirei quando pormenorizar uma pequena crónica que tenho em mente escrever enquanto retenho na minha memória auditiva o característico ruído das Chaimites de então cor. “comando” Jaime Neves que, em constante patrulha, nos protegia das previsíveis intenções de quem porventura quisesse utilizar uma metralhadora pesada colocada numa das varandas fronteiras à nossa ala prisional isto quando constava que Pires Veloso, vindo do Norte cuja Região Militar comandava, estaria disposto a marchar sobre a capital.

A Jaime Neves, à sua reconhecida e proverbial coragem “comando”, a minha gratidão e a de quantos, comigo, partilharam aqueles (para alguns mais) 254 dias de cativeiro que terminaram na tarde de 23 de Dezembro do mesmo ano de 1975, dois dias antes do Natal, sem interrogatório, nem processo e muito menos julgamento!

Saí tal como entrei. De consciência tranquila e admitindo ter-se tratado de um erro pois que de um engano se não tratou seguramente. Valeu, talvez, o curso de democracia intensivo que tirei e um reatar da tradição familiar prisional já que ambos os meus avós, materno e paterno, tinham sido presos pelos seus ideais republicanos de que nunca abdicaram.

A 24 mandei entregar no EMGFA um requerimento indagando das razões da minha detenção. Até hoje aguardo resposta para os esclarecimentos que então pedi…

Nem todos poderão ter idênticas e saudosamente boas recordações do post-25 de Abril. Eu sou um deles.

NOTA – Este mesmo post, com os “cortes” que a limitação de caracteres me impunha, coloquei como comentário no blog que muito aprecio do ilustre Embaixador Seixas da Costa, nosso representante em França

publicado por Júlio Moreno às 18:26
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Deixar de fumar

Com o intervalo que uma pequena intervenção cirúrgica me determinou, retomo hoje esta minha escrita, verdadeiro escape destas minhas válvulas já algo emperradas, com um apontamento que gostaria de dar a conhecer: - o deixar de fumar.

São os médicos que me parecem menos interessados na natural tendência de agradar ao paciente aqueles que mais me convencem.

Na realidade já foi assim quando prometi a mim mesmo – e disso fiz uma grande publicidade na qual muito poucos acreditavam – que o médico que, “desinteressadamente”, e não “insistentemente”, me desaconselhasse de fumar seria aquele a quem eu iria obedecer.

Assim, um belo dia, feitas as rotineiras e semestrais análises e exames de rotina na clínica de onde era habitual cliente e após a verificação de uma das radiografias ao tórax, o médico que me observava chamando-me para junto dele, apontou-me uma das radiografias que tinha no expositor-visionador, dizendo:

- Vê esta mancha no seu pulmão direito?

- Sim, doutor, vejo… e vejo que é grande! – respondi.

- Pois é – concluiu ele, retirando a película do “écran” que a iluminara e dizendo-me, como se me desse os bons dias ou me perguntasse se estava a chover:

- Tem um enfisema pulmonar. Ele não irá regredir, antes terá tendência em aumentar. Se quer viver mais alguns anos tem de deixar de fumar... – e a consulta continuou normalmente tendo concluído que, em tudo o mais, me encontrava bem.

Fiquei a pensar no assunto e, uma vez regressado ao escritório e depois de chamar o, ao tempo, meu amigo e chefe do serviço de pessoal, disse-lhe:

- Sei que você fuma. Se quiser continuar a matar-se, ofereço-lhe este meu maço de cigarros, de onde poucos fumei, pois a partir deste momento deixo de fumar…

Estupefacto, pois já não era aquela a primeira vez que abordávamos tal assunto, apressou-se a segurar no maço de cigarros que eu lhe estendia e foi dizendo:

- Muito bem… eu guardo-o. Mas quando o quiser de volta é só pedir… - respondeu sorrindo.

Aproveitámos a ocasião para tratar de um ou dois assuntos pendentes após o que ele se retirou para o seu gabinete, levando consigo o maço de cigarros que eu lhe dera.

Desde esse momento até hoje, e já lá vão mais de vinte e cinco anos, nunca mais toquei num cigarro.

E querem saber uma coisa? Não me custou. Acho mesmo que poderei dizer que me não custou absolutamente nada… De um senão me recordo apenas: - quando, no restaurante ou em casa, findo o jantar, costumava tomar o meu café, sentia falta do meu brinquedo: - o isqueiro que ia revolvendo entre os meus dedos ao mesmo tempo que conversava ou via a televisão ficando algo enervado por não saber... o que fazer com as mãos!...…

Drogas e consultas especiais para deixar de fumar? Não acredito nisso. Uma opinião quase desinteressada de quem confiemos – sem dever de obediência como tantas vezes aconteceu com meu pai que, sendo médico, para o meu subconsciente era suspeito! – uma pitadinha de teimosia e uns escassos gramas de força de vontade e já está: - “vade retrum “cigarrorum””!

publicado por Júlio Moreno às 09:54
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