Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

ANTÓNIO JOSÉ NEVES VIEIRA

Foi um Homem e um Amigo. Mas que Homem foi ele? Apenas um ... um que me serviu e a quem eu servi também na equipa de que ambos fazíamos parte.

Minhoto, era esguio mas bem constituido, com um rosto algo anguloso e emoldurado por suiças quase à alentejana.

Sobre um pequeno bigode, suportava-se um nariz que se poderia dizer único e bem característico da sua personalidade o qual, felizmente, soube garantir para a posteridade, afortunadamente o legando, tal e qual, a uma – a meus suspeitos olhos:  a mais bela - das suas descendentes, e sobre o conjunto brilhavam dois pequenos olhos que, cintilando, irradiavam um olhar vivo e penetrante bem revelador de toda a grandeza do seu caracter e de toda a pureza dos seus sentimentos concretizando a sua bem arreigada noção de justiça, o destemor com que enfrentava os perigos da sua profissão, sendo sempre o primeiro a voluntarizar-se para executar as mais difíceis missões, e o constante apego que dedicava aos seus em defesa dos quais seria bem capaz de se transformar no mais violento e temível dos homens. Eu pude ver isso...

Foram muitas e muitas as vezes em que trabalhámos juntos e em todas elas era bem patente a boa dupla que fazíamos concretizada nos bons resultados que sempre fomos obtendo. Recordo particularmente duas: - uma em que perigou a minha vida e outra em que perigou a dele...

Porém, tinha um defeito este homem, este António Vieira que hoje aqui recordo com saudade. Um defeito não. Bem vistas as coisas teria, talvez, dois: - a sua indomável teimosia e a paixão que nutria pela caça que, em se aproximando a época, totalmente o transformava tornando-o inquieto e ansioso, aguardando impaciente o momento de meter a arma à cara e, carregando no gatilho, poder colocar à cinta mais um coelho, mais uma perdiz, mais uma rola... Por isso e por todos nós era cognominado o “Caçador” tal era o vício que, da caça, possuía.

Nisso eramos diferentes como diferente fui, igualmente, de meu pai, também ele caçador e que tantas vezes vi produzindo os seus próprios cartuchos de 12 milímetros, com o seu perdigueiro de eleição, o seu Tatu, rondando-o, excitado e inebriado pelo cheiro a pólvora, ao mesmo tempo que, com a cauda, nos ia dando, a ambos, verdadeiras chicotadas nas pernas. Não gosto da caça e se a aprecio será no prato ou mesmo no monte, assada à caçador, como aconteceu no dia em que, desafiado e atirando ao que supus ser uma perdiz, acabei abatendo um... milhafre.

Foram tantas as aventuras que tivemos juntos que enunciá-las aqui seria de todo impossível. Não quero, porém, deixar de lhe prestar a minha sentida homenagem e profunda gratidão por tudo quanto fez por mim, designadamente me legando - sem o saber, diga-se! -  um dos seus bens mais preciosos...

Um dia, porém, separámo-nos. Primeiro parti eu, de seguida ele. Trocámos ainda alguma correspondência em que me ia dando conta da sua nova vida e da nova e estranha terra e eu lhe omitia a raiva que sempre senti por tê-lo visto partir a ele e aos seus. A terra que escolheu para emigrar nunca o mereceu como nunca este País foi merecedor do esforço e dos pedaços de vida que por ele abnegadamente deu...

Foi a vida. Foi o destino. Foi o seu fado, como hoje se poderia dizer já que este, na sua expressão musical, acaba de ser elevado à condição de património e tesouro imaterial da humanidade!

Lembrá-lo aqui e agora foi mais do que um dever, foi uma honra e, em termos de fado, estou bem certo de que se ele estivesse aqui comigo, neste momento, nos estaríamos interrogando ambos sobre qual humanidade!...

Um abraço Vieira. Em breve nos veremos.

publicado por Júlio Moreno às 17:59
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Domingo, 20 de Novembro de 2011

Gostava de saber escrever.

Quando afirmo isto o que pretendo dizer, é que gostava de colocar no papel, tal como outros a seu tempo o já fizeram – Eça, por exemplo – o que, a dado momento, me ocorre e corre no labiríntico mundo dos meus neurónios – se é que posso dizer que os tenho! Digo-o não por inveja mas com uma tremenda pena de ter de o confessar... Gostava de saber escrever.  Porém, como quem porfia sempre alcança – lá diz o adágio – vou-me esforçando por fazê-lo, umas vezes melhor, outras pior mas nunca sem que, ao reler o que escrevi, me possa dar por satisfeito já que me parece ter faltado algo e nunca ter sido capaz de transmitir as ideias que, na realidade, pretendia. Será porque me perco no emaranhado delas, na sua semântica? Será porque me alongo no texto e as descrevo com demasiadas palavras e sem aquele poder de síntese que caracteriza os priviligiados? Bom, seja como for e como a teimosia sempre terá sido um dos meus atributos, qualidades ou defeitos, insisto em escrever aqui o que penso ou vou pensando e sentindo, o que é bem diferente pois os estados de alma, como o vento, também vão variando em intensidade e direcção...

Vem isto a propósito do tema de hoje. Soturno, que muitos dirão dever evitar-se quanto o possamos: - a morte, a nossa própria morte!

Neste momento, de setenta e cinco anos feitos e a caminho dos setenta e seis, é inquestionável que, para mim, ela já não andará por muito longe... Já levou muita gente que outrora conheci. Já levou meus pais e outros entes queridos e não se coibiu, mesmo, de levar meus dois irmãos, um nado-morto e outro com dias de vida, a ambos que me antecederam e de cuja existência já só muito tarde, na minha adolescência avançada, vim a ter conhecimento. Daí os cuidados, que muitas vezes considerei excessivos pelo que muito amiúde com eles me revoltei e que sempre me prodigalizava minha mãe!

Neste momento, porém, se bem que tema o sofrimento em que ela me possa fazer incorrer – nunca fui muito valente em certas coisas! – me importe enormemente, o que verdadeiramente sinto ao vê-la aproximar-se é uma tremenda curiosidade, se assim lhe poderei chamar, uma teimosa curiosidade posto que acredito que a minha capacidade de pensar vá e permaneça muito para além dela!

E essa minha curiosidade advém do facto de não conceber sequer que ela possa representar o fim de tudo, o fim absoluto, afinal inglório termo da obra esplendorosa e criativa da natureza, que não exista Deus e que, para além desta vida que conhecemos, outra não exista, muito diferente, mais simples e mais autêntica, onde o dinheiro não exista sendo substituido por um só olhar reconhecido ou uma palavra de carinho, e onde do lexico apenas constem palavras como Amor e Carinho, Luz e Amenidade, Suavidade e Certeza além da Eternidade em que terá de existir... Mais do que isso: - creio que Deus, ao julgar-nos, nos imporá como pena, caso a mereçamos, um regresso a esta vida material e temporal para que continuemos a experimentar a incerteza, o receio e a dor e sermos constantemente confrontados com o êrro e o arrependimento, com a falsidade e a injustiça, com o infortúnio e a má sorte, como muitos costumam designar o caminho que para si mesmos insistem em traçar...

Chamar-se-á a isto reincarnação, punição divina ou puro devaneio especulativo de quem, vazio de ideias do quotidiano, prospectiva apenas qual seja o futuro do seu próprio eu? Não sei. Saberei apenas que admito que esse regresso se faça como penitência dada por Deus e pelas vezes que delas cada qual possa necessitar,  até se regenerar e poder  voltar para ser finalmente incorporado no Seu infinito exército de paz celestial. O tempo que possa mediar entre a morte e uma possível reincarnação esse não interessará já pois, deixando de existir e temporalidade e o tempo como medida convencionada, um só segundo poderá representar mil anos.

Mas porque será que, assim sendo, a morte também  leva crianças, seres inocentes insusceptíveis, pensamos nós, de terem culpa? Apenas porque elas já nada estarão a fazer neste mundo e o castigo de perdê-las é dirigido aos pais que de tal dor serão, porventura, merecedores... Mas porque deixa que ecludam guerras, que homens matem homens, que roubem, violem, vilipendiem e agridam o semelhante? Apenas porque Deus ao criar o homem o fez à sua imagem e semelhança e lhe outorgou a liberdade de ser inteiramente responsável pelos actos que pratica e pelos quais responderá um dia na sua Divina presença.

Em torno do que aqui digo muito se tem escrito, especulado e até mentido e prevertido e muito mais se escreverá ainda até ao fim dos tempos. Pelos motivos que invoquei no meu início aqui o trouxe agora. É o que sinto. É no que acredito, porque para acreditar Nele basta-me olhar as serras e olhar o mar... É no que virá depois que reside esta minha expectante curiosidadeque bem quisera saber expor de forma mais simples e porventura mais eloquente.

publicado por Júlio Moreno às 20:00
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Sou um desempregado...

Sou um desempregado não porque a empresa onde trabalhava tenha falido ou me tenha mandado embora, não porque esteja cansado de enviar “curriculuns” sem obter qualquer resposta, não por um mais dos mais vulgares motivos que hoje tanto ocorrem mas sim por outro que sobreleva todos esses e os demais: - fui atingido por algo a que, infelizmente ninguém poderá fugir: - a idade, ou seja, o final de uma vida útil e o vertiginoso aproximar da outra para a qual haverá também que fazer planos, isto ao contrário do que muitos julgam!

Nestas condições, vejo-me na contingência de, para passar o tempo, ter de cultivar – uma vez que os meus pais tiveram a feliz ideia de, em criança, me mandarem ensinar a ler e a escrever – alguns hábitos de leitura e, talvez por via deles ou por uma natural propensão para isso, a velhíssima arte de “mal-dizer” a que frequentemente me conduzem as interessantíssimas audições, e visionamentos,  que venho fazendo do que se passa nas Tvs (felizmente vejo muitas e uso esta maravilha da Internet!), nomeadamente na Assembleia da República.

Deste modo vou tendo a oportunidade de assistir em directo à verborreia partidária de certos deputados, alguns dos quais se não coibem de dizer em público autênticos chorrilhos de mentiras sem que lhes cresça o nariz como aconteceria se todos eles fossem Pinóquios.

Assim, neste momento em que o “filme em exibição” é o da discussão do Orçamento do Estado para 2012, pasmo perante o descaramento de certos empolgados, diria mesmo que ferozmente empolgados, que, não atentando sequer na fragilidade das suas posições no quadro parlamentar, - BE= 5,17%; PCP= 7,91% -  se permitem arrogantemente considerar a si mesmos como os únicos defensores dos trabalhadores da Nação para o que empregam termos bem sonantes como “roubo”, “surripianço”, etc!...

Ora, como somando 7,91% (PCP) com 5,17% (BE) obtemos 13,08%, Monsieur de La Palice necessáriamente concluiria que 13,08 % dos portugueses são trabalhadores e que 86,92% são capitalistas!!!...

Estou mesmo a ver que a Troika é bem capaz de nos cortar na ajuda pelo simples facto de dela não necessitarmos!

Apetece-me citar aqui as sábias e santas palavras de Jesus Cristo na cuz: - “Perdoai-lhes Senhor que não sabem o que fazem”...

publicado por Júlio Moreno às 17:31
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Sábado, 5 de Novembro de 2011

Mão amiga...

Como frequentemente acontece no que, por aqui, vou escrevendo, mais uma vez mão amiga me enviou, para que sobre ele me pronunciase, o texto de que seguidamente transcrevo parte, aquela que, do seu conjunto, seguramente me impressionou e quase me fez  viver a sensação real de um pai verdadeiramente amargurado. E assim, não obstante a vulgaridade literária do texto e atendendo apenas ao que li, penso mesmo que seja quase indescritível a dor de um pai amargurado.

Segue a parte do texo que, em meu entender, melhor ilustrará essa ideia pelo que a resolvi transcrever. O leitor ajuizará:

“... a figura, que não reconheci de imediato, perfilava-se diante de mim e, com metade do cabelo comprido escondendo meio rosto, inclinou-se para a frente e deu-me um beijo na face ao mesmo tempo que dos seus lábios saíam, um tanto atabalhoadamente, as palavras – Olá papá!...

“...estupefacto, porque foi essa a sensação que tive, julguei reconhecer nessa figura a pessoa da minha própria filha que, a despeito de viver a menos de 1.000 metros de mim, e dados, certamente, os seus múltiplos afazeres já não via há mais de 3 anos...  há tantos que quase lhe não reconhecia as feições...

“Eu sei que ela me considera tão responsável quanto ela por este nosso e, afinal, penoso afastamento pois julga que teremos ambos as mesmíssimas obrigações. Eu, porém, educado, que fui, à moda antiga – como o atesta a minha idade onde os setenta já há muito que foram passados – sempre lhe respondi que a água de qualquer rio sempre corre da nascente para o mar e que nunca vi, nem sequer concebo, o contrário...

“O meu olhar que, muito certamente, terá traído o meu desencanto, melhor dito, o meu desapontamento, por ver o como e o quanto e o em quê se transformara a minha filha, dantes uma figura gentil de criança e mais tarde de rapariga e de mulher e mãe...

“... tudo embora nos meus olhos continuasse sempre a criança, de olhar vivo, inquisidor e buliçoso, vestida na sua bata preta e golinha branca que era o uniforme do seu colégio e que tão bem lhe ficava...!

“À minha frente, porém,  estava uma mulher desconhecida, estranha, distante e quase tão vulgar como as mulheres com quem costumo cruzar-me na rua mas que, sem que a minha razão imediatamente o compreendesse, me chamava pai!  

“Era uma mulher magra e alta – pelo menos para mim que não servirei de bitola já que vou mingando com a idade -  vestida de escuro, com os cabelos desmesuradamente compridos e lisos que lhe caiam, uma parte sobre o rosto, ocultando-lhe quase metade da face, e a outra meia sobre os ombros e meia sobre as costas, - à moda, pensei -  perante mim estava uma mulher cansada, talvez precocemente envelhecida e onde o tempo já começara e deixar-lhe no rosto as suas indeléveis marcas...

“Atabalhoadamente falava-me numa máquina, numa impressora, parece, que em tempos idos eu lhe dera e que tinha não sei quê ou sobre a qual alguém dissera qualquer coisa... Não ouvi. Não ouvi porque não queria ouvir e sentia que os meus olhos automáticamente se desviavam dela, do seu corpo e do seu rosto, da sua figura que não pretenderiam ver assim me furtando ao choque que sabiam bem eu sentiria acaso a nova imagem substituisse aquela outra que persistia na minha lembrança!...

“Neste quadro, tão inusitado quanto nunca expectável por mim, pelo menos àquela hora e naquele local já que noutro e em diferentes circunstâncias eu sempre soube que inevitavelmente se daria, senti que o meu coração se apertava e como que fraquejava um pouco dentro da caixa, que ele próprio construira, toda ela de aço e completamente blindada e à prova de emoções...

“Pouco tempo depois separámo-nos. Um adeus e posteriormente um aceno foi a nossa despedida. Conduzindo o carro de regresso a casa onde, novamente, me esperava a solidão em que hoje vivo, fui pensando em como nem sequer tivera tempo de pensar, de articular ou mesmo de sentir... a saudade!””

Espero ardentemente que, a começar por mim, nunca os que me leiam se sintam nestas penosas circunstâncias.

publicado por Júlio Moreno às 17:32
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