Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

RECORDAÇÕES DE UM PEQUENO ESTUDANTE DO LICEU... (2)

Correria o longínquo ano de 1951, era eu aluno do velho e saudoso liceu D.Manuel II (antigo Rodrigues de Freitas e que hoje acho já ter recuperado o seu velho nome original), situado mesmo ali ao lado da velha Igreja de Cedofeita, no Largo do Priorado, aqui no Porto.


Muitos foram os professores que deixaram marcas indeléveis na minha memória e, sem dúvida, na minha personalidade – e dos quais faço tenção de, com a justiça da lembrança e o pouco merecimento que possam ter as palavras com que o faço, aqui procurarei referir, um por um, a todos ou, se tal não for possível, àqueles dos quais me recordar melhor. Será o meu modesto tributo de agradecimento e homenagem a quantos, no dia-a-dia do seu inestimável labor, terão contribuído para que ali se formassem alguns jóvens que, mais tarde e alguns anos volvidos, se revelaram a seu modo e nos respectivos misteres, verdadeiramente notáveis.


Ocupar-me-ei hoje, no entanto, de um professor que tive no segundo ciclo – os antigos 3º, 4º e 5º anos do liceu –e que bem poucas saudades terá deixado aos que tiveram a sorte de o ter como professor: - homem sabedor e culto, é certo, pelo que não poderei,a aqui, deixar de lhe reconhecer o mérito, tinha, a meu ver, um outro extenso corolário de defeitos que desde logo ofuscariam aqueles que antes referi. Era vaidoso, pedante e prepotente, de falas mansas, sempre bem penteado e elegantemente trajando a sua imaculada bata branca de cientista que, naturalmente, bem gostaria de ser mas que não era, de facto, antes sendo o que o povo costuma dizer, um homem que mordia pela calada ou que apunhalava pelas costas com sádico prazer!


Era director de ciclo, lecionava ciências naturais, botânica e zoologia, se não erro, e vagueava, como sinistra figura que, só de vê-lo, nos fazia suster a respiração, pelos largos corredores do magnífico liceu, sempre pendurado na sua boquilha comprida, de osso ou marfim, e na qual trazia, sempre aceso e fumegando,um eterno cigarro que, por artes mágicas fazia desaparecer mal ocupava o seu lugar nas enormes salas-museus onde as suas aulas eram dadas.


Na altura das chamadas, como que se deleitava em folhear a caderneta, voltando uma a uma as folhas de cada aluno, ora atrás ora à frente, e assim, conscientemente e com um sorriso maldoso, de vez em quando relanceando um vago e circunspecto olhar sobre a turma então emersa no mais profundo silêncio e desse modo nos fazendo penar pela incerteza da escolha que faria!


Escolhido o sacrificado desse dia, lá ia o penitente para o suplício de se ver confrontado com estranhíssimas perguntas, talvez dirigidas mais ao “intelecto” do que a propósito do bichinho, planta ou osso que era colocado na sua frente. A cada resposta errada, que o mestre não corrigia, apenas o sorriso se lhe acentuava mais num antecipado gozo da nota que lhe iria dar: - negativa certamente e quando, abaixo do 9, na escala de 0 a 20, então usada, muitas vezes eram o 4 o 5 ou o 6, nunca hesitando na sua aplicação crua e dura!


E foi assim que, com alguma culpa minha – não o negarei aqui – mas com muito pouca benevolência e fraca atitude pedagógica da sua parte, não hesitou em dar-me no final do segundo período que, como é sabido, antecedia as férias da Páscoa e do folar, dois 6, notas essas que me fariam seguramente perder o ano e que levaram a que meus pais, com enorme sacrifício da sua parte, já que as nossas finanças não eram nada famosas e meu pai, como médico, se “esquecia” muitas vezes das contas dos doentes talvez porque pensar que a eles já lhes bastaria o padecimento da doença para serem ainda massacrados com as exorbitantes contas que “os grandes especialistas do momento - na sua maior parte professores catedráticos e vivendo em luxuosíssimas mansões - escandalosamente, cobravam nesta cidade – burguesa e de papalvos, onde só o que era caro é que era bom! - , e assim comercializando, inequívocamente, algo que nunca poderia ser objecto de comércio: - a saúde e vida humanas!


Mas, voltando à narrativa, recordo que, ao ter a minha mãe tomado a decisão de me tirar do liceu e me matricular no colégio Brotero, na Foz, relativamente perto da casa onde morava e ao ter comunicado o facto ao dito professor, director de cliclo, que, com toda a naturalidade recebeu a notícia que lhe era dada, eu, até aí tímido rapazinho de 14 anos, não me contive que lhe não dissesse: - “e vou passar o ano, senhor doutor...” ao que ele no mais escarninho dos seus habituais sorrisos, me respondeu: -“ claro, sr. Moreno, claro!...” . usando aquele seu hábito de tratar por senhor todos os alunos, mesmo aqueles, pequenitos ainda e a quem não lecionava.


Frequentei o colégio no terceiro e último período e apresentei-me a exame no liceu que antes deixara. Ele não foi um dos professores que me examinou. Outro, de que me não recordo o nome, tê-lo-á sido, mas concluí o ano com média geral de 13 valores o que fiz questão de comunicar pessoalmente ao cínico mestre o qual, ao ver-me e particularmente ao ouvir-me, teve o que eu pressenti ter sido um pequeno rebate de consciência o que o tornou, naquele momento, de notório embaraço que sofreu, talvez um pouco mais humano...


Já terá morrido certamente. Paz à sua alma!...

publicado por Júlio Moreno às 11:18
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