Sábado, 25 de Outubro de 2008

Viver e morrer no século XXI

Por todo o lado se comentava hoje a tremenda crise que o país atravessa. O desemprego, a carestia da vida e as tragédias que assolavam o mundo.

- Para onde vamos?! – exclamava o velho, ajeitando os óculos de ver ao perto e ao longe mas com os quais já não via bem ao mesmo tempo que reduzia o volume de som da televisão com o pequeno comando em que pegara para o aumentar quando o locutor falara das ameaças de greve que andavam no ar.

- Vamos para onde tivermos de ir! – respondera a velha que parara de fazer festas ao gato e olhara para ele ainda com o mesmo olhar de fúria que lhe lançara quando o ouvira dizer ao telefone que não, que não iria nessa noite jantar a casa do seu filho.

António e Celina já de há muito que viviam num permanente estado de conflito a propósito de tudo e de nada. Ele, a caminho dos setenta e oito anos, era reformado da carris onde fora motorista durante quarenta anos. Ela, mais nova cinco anos, estivera empregada nuns armazéns sempre nos intervalos das suas doenças e gravidezes. Ambos viviam já há bastantes anos das reformas que, juntas, perfaziam uma maquia que não era para desprezar.

Os filhos, porém, levavam-lhe tudo. Tudo quanto conseguiam ainda amealhar porque os depósitos poupança que haviam feito ao longo de toda uma vida equilibrada e cheia de privações desnecessárias, esse fora-se já havia anos!

Primeiro, fora o Pedro, o mais velho, com a compra daquela motocicleta que, poucos meses depois, espatifava de encontro a uma parede o que lhe valera um internamento prolongado, de mais de 3 meses, no hospital ortopédico e todas as cirurgias que fizera e das quais resultaram o ter ficado com uma perna mais curta do que outra pelo que mancava bastante.

Depois, o Serafim, com a droga, consumira-lhes também o pouco que restara.

Finalmente a Mariana. Essa estouvada, da qual já não queriam saber desde o dia em que tinha tido o descaramento de lhes dizer, estando grávida, que não sabia quem era o pai do filho que, afinal, não viria a nascer dado o aborto que tivera naquele acidente de carro com mais um dos seus muitos companheiros de ocasião.

O Pedro fora o único que assentara e era dele o convite para jantar nessa noite. Casado com uma repariga bastante mais nova do que ele, que já passava dos quarenta e cinco tendo ela menos de trinta, vinte e oito segundo parecia, era o único que se lembrava com alguma regularidade dos seus velhos pais e que os visitava amiúde naquela casa de um só piso, de dois quartos, uma pequena casa de banho e uma cozinha e que, para as traseiras tinha um pequeno quintalinho onde o velho António dormia as suas sestas sempre que, acabado o almoço, de “barriga cheia”, como dizia, pedia invariávelmente a Celina que deixasse a loiça porque mais tarde ele a ajudaria a lavar, limpar e arrumar.

Ela, porém, porque sabia que essas promessas não passavam disso mesmo dizia-lhe sempre que sim, que estava bem, mas lá se ia arrastando e lavando, loiças, tachos e panelas alguns dos quais lhe escorregavam por vezes das mãos caindo ao chão com grande estrondo o que invariávelmente acordava o marido que, com o gato enroscado no colo, adormecido e ronronando satisfeito, nem os camiões de areia que a toda a hora e ruidosamente subiam a ladeira íngreme da rua da sua casa, molestavam, e que acordava sempre sobressaltado e gritando: - “Caíste, Celina?”

- “Não, homem, não! Deixei caír a panela da sopa... Já quase não posso com ela e estas mãos, com estes dedos desconjuntados, já quase não têm força para agarrar sequer no pano com que a limpo...”

- “Deixa estar que eu te vou ajudar..”. – respondia ele sem, no entanto, se mexer um centímetro que fosse da cadeira onde estava sentado. O gato, esse também já não se mexia e apenas abria um olho e endireitava uma das orelhas quando o estrondo era maior do que o habitual.

O pior era quando chovia. António, não podendo ir sentar-se ao sol como gostava, ficava toda a tarde em frente da TV e refilando sempre que, na estação e quando punham os anúncios, o som aumentava bruscamente e o despertava daquele dormir crepuscular que o inundava sempre finda a refeição.

À noite, já há muitos anos que não comiam, limitando-se a aconchegar o estômago com uma chávena de chá de cidereira e uma ou outra bolacha que sempre tinham numa velha lata de folha que o Pedro se encarregava de encher todas as semanas.

E foi nessa noite que a morte chegou para ambos silenciosa e inesperada.

Celina, ressentida pela recusa do marido em ir nessa noite a casa do filho, pela primeira vez na sua vida esquecera-se de fechar o gás no bico do fogão onde aquecera a água para as botijas com que ambos, de noite, se aqueciam para adormecer.

O gás, fluindo constantemente do bico aberto no máximo, fora inundando o pequeno compartimento da cozinha onde, não tendo por onde sair, dado que a porta do quintal ficava bem calafetada com um rolo de areia que ela sempre colocava em chegando o inverno, fora subindo de nível no interior da pequena casa, tal como a água encheria um tanque e, em chegando à pequena tomada eléctrica onde ela costumava ligar o ferro de engomar, provocara a enorme explosão que, destruindo a pequena casa, os carbonizou de imediato na cama onde dormiam e foram soterrados pelos escombros daquela que logo ruíu, sendo só muito mais tarde e algumas horas depois, removidos, já cadáveres, para o Instituto de Medicina Legal onde lhes fariam as respectivas autópsias.

O que restava do que fora o preguiçoso gato fora encontrado sob uma das traves ainda fumegantes e, sem piedade, atirado para o lixo juntamente com todo o entulho em que tudo quanto tinham se havia transformado.

No funeral, realizado só quatro dias depois, quando os corpos foram finalmente liberados da Medicina Legal pela Justiça e depois de esta haver concluído que se tratara de um acidente e não de um crime, o que chegara a correr na vizinhança dada a vida que o Serafim continuava a levar, apenas Pedro e a mulher compareceram.

Nenhum dos outros filhos acompanhou o féretro dos pais aparecendo apenas mais tarde quando os editais afixados no lugar do costume da frequesia, anunciavam que os herdeiros se deveriam dirigir à Junta a fim de aí serem informados sobre as formalidades a cumprir para a reclamação da pequena herança que lhes cabia em partilhas de umas pequenas terras e algumas bouças que os pais haviam deixado praticamente ao abandono em Trás-os-Montes quando, ainda jóvens e deslumbrados pela vida da capital, tinham decidido mudar-se para Lisboa e agora, dada a idade avançada de ambos, havia alguns anos que não visitavam...
publicado por Júlio Moreno às 15:31
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