Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Será só pessimismo?

É este um dos pensamentos que me ocorrem com demasiada frequência e tão demasiada que chego mesmo a pensar se não se tratará já de alguma psicopatia congénita: - “Será que sou pessimista?”
Vem isto a propósito da necessidade que sinto de exteriorizar o que muitos guardam no seu interior com medo de serem mal interpretados, criticados ou mesmo apontados a dedo por uma sociedade interesseira, insensível e materialista e para a qual o prazer e a alegria se foram convertendo no principal e último propósito da sua existência!
E como noto eu esta minha predisposição, que tanto gostava de erradicar de mim ostracisando-a à velha moda ateniense? Porque não pude ainda e ela me acontece com demasiada frequência...
- Julgo que já aqui tenho dito - e perdoar-me-ão se me repito – que uma das minhas paixões de sempre, desde criança, foi o mar. O mar no Verão, quando nós todos, primos e primas, nos reuníamos para, alugada uma casa em Espinho, aí irmos para a praia, onde ele então ficava tão longe da terra e hoje tão perto dela está!
- Havia, nessa época, o estranhíssimo e péssimo costume de os banheiros agarrarem nas crianças e, avançando com elas nos braços mar adentro, as mergulharem nas suas águas geladas e imensas, logo as retirando mas não sem que a água salgada, escorrendo-lhes pelas faces congestionadas e molhadas, quase lhes cortasse a respiração!
- Mas essas águas geladas e imensas, vindas não se sabia de onde, logo ali acabavam, às vezes com alguma violência, mas normalmente mansas e quebrando-se na praia onde deixavam que a sua branca espuma se espraiasse, com mágicos recortes, naquela areia fina.
- E em chegada a hora do banho e isto quer nós quisessemos, quer não, inconformados, como era o meu caso, chorasse e esperneasse ou não, dois ou três mergulhos, assim dados, eram a dose diária para que depois pudesse, finalmente, gozar à vontade e a meu bel-prazer a navegação do meu pequeno barquinho, veleiro de madeira e de uma cor atijolada, com a amurada pintada normalmente de azul e o mastro amarelo que envergava uma vela branca, e que todos os dias o mar, amolecendo e rompendo a guita com que eu o segurava, mo levava para longe para onde o perdia pelo que reclamava de minha mãe um novo no dia seguinte quando, a caminho da praia, passavamos pela loja - que ainda hoje existe! - e que os vendia ao preço – exorbitante! - de vinte e cinco tostões, uma pequena fortuna!.
- Pois bem. Já depois de ultrapassados os desgostos diários dos mergulhos e da quase invariável perda do meu barco, quando me sentava olhando o horizonte, estranha e incompreensivelmente redondo e que na minha frente se estendia, enquando à minha volta os meus companheiros faziam covas na areia, uma mais fundas outras menos, umas com túneis outras sem eles, eu pensava na imensidão de coisas que toda aquela água guardaria: - nos peixes, nas algas, nas conchas e nos penedos mas, sobretudo, nos barcos naufragados e nas gentes que, com eles, se haviam afogado, imaginando o sofrimento por que teriam passado e qual o destino dos respectivos corpos e bens que, na altura, possuíam!
- Apertava-se-me sempre o coração quando me deixava invadir por esses lúgubres pensamentos, que nunca comuniquei a ninguém, nem mesmo a minha mãe, a minha quase exclusiva confidente, acontecendo que, nessas ocasiões, o meu regresso a casa era, quase sempre, feito em silêncio e de forma tão circunspecta o que levava a que ela, preocupada como sempre, me questionasse: - Que tens, filho? Estás doente? Doi-te alguma coisa? – ao que eu, invariávelmente e a despeito da minha pouca idade, respondia que não que não me doía nada quando, na verdade, sim, era a alma que me doía!
Saberei hoje a que era devido tão estranho sentimento? Hoje que, homem feito e dono de uma vida já quase esgotada,continuo a sentir que o mar me atrai de forma estranha, como se fora ele o íman e eu a peça de metal que ele atrai e aprisiona, e que me infunde um tremendo respeito, quase temor?
Acho que sim, que sei e que alguém mais sabe também, tal como eu mesmo, este segredo. Sabe-o e sente-o porque em tempos, tempos que já se perderam na memória das coisas e das gentes que nos acompanhava então, os viveu comigo...
publicado por Júlio Moreno às 18:58
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De ela a 20 de Outubro de 2008 às 01:41
Verdade.......


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