Domingo, 5 de Outubro de 2008

IDEIAS...

E o homem sozinho, sentado há tanto tempo naquele banco do jardim público onde as folhas do Outono já tinham começado a cair e onde, de tempos a tempos, passava, numa corrida, uma criança, o homem sorria por fim.


Nele, o filósofo encontrara a chave de todo o mistério mas também nele o cientista que fora - estava aposentado da função pública, da sua escola - revelava-se perplexo, confuso e, pela primeira vez na sua vida, se interrogava sobre se teria valido a pena tanto trabalho, tantas privações, tantas noites sem dormir, tanta ansiedade e tanta frustração! Teria valido a pena? Mas porquê tanta dúvida quando o segredo de tudo estava, afinal, num conceito bem simples, passível de definição através de uma palavra pouco usual mas que, nem por isso, deixava de figurar entre os termos que o comum dos mortais entendia e sabia empregar com propriedade: - assimilar.


Na assimilação estava a vida, o progresso, tudo, absolutamente tudo. Na oportunidade dessa assimilação, na rapidez com que era feita, na precisão com que era interpretada, no tratamento posterior do conhecimento por tal via adquirido estava o que nos habituáramos a chamar: a civilização. Realmente, o homem sábio, que passara a sua vida a estudar, a investigar, a experimentar e que, paradoxalmente, à medida em que os seus conhecimentos cresciam e se acumulavam dentro de si, mais dúvidas tinha, mais ignorante e insignificante se sentia, esse homem que estava destinado a acabar, a morrer, a ter um fim, sentia-se angustiado e revoltado contra uma natureza que lhe dera um brinquedo com que brincara mas que não poderia dar, doar, vender, transmitir a mais ninguém a não ser na directa medida em que esse alguém fosse capaz de assimilar o seu pensamento, de beber esse seu conhecimento armazenado nas circunvoluções do seu cérebro gasto e onde as confusões já há tempos tinham feito a sua aparição!


Com ele todos os conhecimentos que adquirira se esfumariam e se decomporiam como ele, deles nada mais restando do que aquilo que, em vida tivesse podido, e sabido, transmitir a outros homens, porventura mais jovens do que ele, e da interpretação que esses outros homens fizessem daquilo que tinha constituído toda a sua existência e da utilidade que soubessem ou com que fossem capazes de dar aos seus conhecimentos. Dessa capacidade que resultaria da assimilação que tivesse sido feita dependeria mais um passo na senda do progresso da humanidade!


A genética! A engenharia genética fazia vislumbrar uma longínqua solução do problema... Mas seria ela capaz? E se o fosse, quando?...


Mas, além do mais, ele apenas tinha tido uma mulher que tivesse olhado para dentro dele e essa estava hoje demasiado longe de si, talvez irremediavelmente longe no tempo e na distância!. As demais que conhecera todas o tinham olhado e visto apenas por fora: - desde a época em que tivera uma boa constituição física, em que não desagradava de todo e despertava, talvez, algum apetite sexual, até ao outro em que os sinais exteriores de riqueza que então tinha tido oportunidade de manifestar, lhe tinham atraído grande quantidade de admiradores e admiradoras cada qual mais interessada do que a outra e todas se expondo, com maior ou menor descaramento ou pudor, à sua natural curiosidade e cobiça de macho.


Pensando bem, estava em crer que a pior invenção do homem tinha sido a do espelho porque fora nele e com ele que haviam despertado as maiores emoções que um homem pudera ter: a imagem exterior e real de si mesmo. Antes do espelho, o homem só se vira nas superfícies espelhadas das calmas águas, quase paradas, elas sempre lhe devolvendo a sua própria imagem mas sempre ligeiramente distorcida e algo nebulosa, como que teimosamente continuando e mantendo o mistério que a natureza produzira ao criá-lo. Mas tudo isso era, apenas e só, o exterior. O seu interior, o seu cérebro, as suas emoções, devaneios, anseios, mêdos e frustrações nada disso espelho algum lhe dera e se algum outro ser humano lho reconhecera, ou por ignorância ou por egoísmo, nunca lho demonstrara pelo que, sabia-o agora, iria morrer sem nunca ter conseguido aquilo que no seu delírio mais puro e verdadeiro sempre pretendera: - viver para algo e que esse algo fosse continuado por alguém – um alguém nunca representado pelos filhos que tivera e que hoje estavam sempre ausentes da sua vida - e que dele se tivesse apercebido...


Reparando melhor no solo ainda humedecido do orvalho da noite anterior e que rodeava o pequeno banco de jardim onde se sentara, descobriu um pequeno carreiro de formigas que, para cá e para lá, se apressavam, correndo, numa missão qualquer de que a natureza as incumbira. Reparou que esse carreiro atravessava o pequeno caminho de saibro que o separava do banco fronteiro ao seu, vazio, como quase sempre acontecia, e deu-se conta de que muita gente que passava, sem sequer se aperceber daquilo que pisava, ia matando com frequência dezenas, talvez centenas de formigas que, mesmo assim porfiavam em continuar o seu destino e o seu labor.


Como era cruel a natureza! – pensou.


À sua frente, esvoaçando, uma pequena folha amarelada pelo Outono que já ia a meio, veio, tranquila, pousar-lhe numa das pernas onde, por momentos se manteve, até que uma pequena lufada de vento a fez vibrar para logo escorregar para o chão onde se aquietou no abrigo que os seus pés juntos lhe ofereciam. Então o homem, cansado que estava daquela posição em que já há algum tempo se encontrava, levantou-se com algum esforço, não sem antes se ter debruçado para apanhar a pequena folha que caíra do seu colo e que, consigo decidira levar para a colocar, talvez, sobre a sua mesa de trabalho, mesmo à sua frente para a contemplar sempre que estivesse teclando naquela maravilha da técnica que era o computador que tanta companhia lhe fazia...


Ainda pensou em afagar carinhosamente uma pequena formiga das muitas que continuavam correndo ante os seus olhos mas logo desistiu: - a desporporção dos seus dedos e a fragilidade do corpo negro acastanhado dos bichinhos, nunca lho consentiriam... Como era cruel a natureza! - pensou de novo.


E, assim pensando, vagarosamente encaminhou-se para casa pois tinha de preparar qualquer coisa para comer dado que a hora do almoço se aproximava já.

publicado por Júlio Moreno às 15:53
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De melly a 6 de Outubro de 2008 às 05:22
Triste....muito triste


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