Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

O País anda à deriva

Confirma-se a Jangada de Pedra de Saramago, só que, contrariamente ao que ele imaginou, só Portugal a integra e dela faz parte que não toda a Ibéria!...

O País anda à deriva. Que andava algo fora do rumo, já todos nós o sabíamos. O que não sabíamos ainda – e do que só agora vamos tendo conhecimento é que anda à deriva sem que possamos sequer imaginar qual a magnitude dessa deriva, de tão enorme ela já é, e tão confrangedoramente grande que, qualquer dia, naufraga por aí, por um qualquer desses mares do planeta sem que dele reste nem rasto nem memória!

Vem isto a propósito das “novidades” com que, quotidianamente, o Socrático governo nos vem brindando: - ou fechando maternidades e urgências para em seu lugar criar não sei bem o quê, mas obrigando parturientes e enfermos a serem transportados, aos tombos, em ambulâncias de terceira ou quarta ordem, por dezenas ou centenas de quilómetros e agravando-lhe substancialmente o risco de vida que, de outro modo, o “velho modo” não corriam, mas o que será melhor porque assim o dirá (falta prová-lo!) a lógica dos números; - ou fechando mil e tal escolas do Minho ao Algarve, em tudo o que é interior, para, logo de seguida, ter de transportar as criancinhas em camionetas em quarta ou quinta mão, já sem conserto, com condutores de última hora, as mais das vezes inexperientes e cansados já que, como é bom de ver, o seu trabalho principal não será esse, sujeitando-as a perigosíssimos, longos e penosos percursos por estradas, que o não são nem nunca foram, em horários incríveis como se de meros operários de uma rara empresa se tratasse e aumentando substancialmente a poluição em zonas onde, outrora e em frias manhãs soalheiras, apenas se via o respirar da terra, aquela espécie de bafo quente, qual nevoeiro que dela se evolava; - ou um professor único para uma classe encarregado de, com todas as suas competências, substituir-se ao mestre, ao pai e à mãe dos educandos, acompanhando-os até ao sexto ano (antigo segundo ano do liceu, onde as disciplinas já se individualizavam e eram vários os professores que as ministravam!). Claro que este professor nunca poderá adoecer, mudar de terra, mudar de vida ou de “ramo” como hoje se dirá, antes tendo de ficar amarrado por seis anos a um destino que um iluminado governante por sentença lá do alto lhe traçou!

Vêm aí mais subsídios europeus, este o último! Uns milhares de milhões de euros e antevejo umas quantas mãos de ganância ávidas a esfregarem-se de contentamento à medida em que nos corruptos cérebros lhes vão germinando as ideias de como os gastar em seu proveito!

Os formandos, (e falo com experiência de formador, onde também ganhei um justo complemento da reforma miserável que aufiro e que mal dá para a medicação de que necessito) esses ganham mais uns cobrezitos que já lhes dará para a droga, para a gasolina ou para gastarem nas noites que se seguirão ás aulas! As escolas e centros de formação enchem-se de papéis e formulários com os quais inundam os burocráticos e controladores ministérios sem que consigam dar satisfação coerente ao que lhes é pedido, tão díspares, irreais e inúteis são a maior parte dos programas formativos a que se vêm obrigados, traçados que foram por mentes sapientíssimas sentadas em cómodos gabinetes ministeriais ou muito perto destes.

No momento actual – e tomando apenas como exemplo o que vem sendo notícia diária - uma senhora e nossa ilustre deputada vem infatigavelmente dedicando o seu tempo, pago com o dinheiro da comunidade bruxelense, - que também será o nosso, ao que suponho - a investigar os voos de e para Guantânamo, coisa por demais investigada e que todos nós já conhecemos e sabemos de cor e salteado! Que quererá ela com isso, quais serão os seus reais desígnios? Solidarizar-se com a sorte dos desgraçados que sempre houve e haverá desde que o mundo é mundo e até que deixe de o ser ou apontar o seu minúsculo dedo a um Bush para onde milhões deles de há muito estão sendo apontados? Não, bem por certo que não. O que pretenderá será outra coisa, bem diversa dessa pois não a vemos solidarizar-se com casos bem mais pungentes e próximos de si e sem carecerem de dispendiosas investigações, como sejam os dos desgraçados que miseravelmente vivem em barracas em redor das grandes urbes nacionais e onde muito mais facilmente se poderia deslocar sem os elevadíssimos custos de voos e estadias nesses quatro cantos do mundo que, por tal motivo, já tem visitado.

Comentários? Para quê? A mim me bastam apenas estas linhas de desabafo que aqui vou escrevendo…

E já agora deixem-me que lhes diga, amigos, deixem-me que lhes diga que não é só de agora que o país está à deriva. O país está à deriva desde a tarde do 25 de Abril de 1974, feito pelos senhores capitães do quadro permanente apenas porque não queriam que os capitães milicianos (então no ultramar, com as balas a assobiarem-lhes aos ouvidos) se lhes equiparassem em antiguidade e promoção após a frequência de um mini-curso na Academia Militar. Os “heróicos” capitães de Abril tinham apenas um propósito: - o de afastar uns tantos ministros das Forças Armadas que lhes estavam sendo incómodos. Só que com a revolução aconteceu o mesmo que costuma acontecer com as cerejas: - atrás de uma outras vêm e, como o regime estava podre, sem timoneiro, já cheio de ambiguidades, de avanços e recuos, os heróicos capitães viram-se ao fim do dia 25 com um país inteiro nos braços, como qual não contavam, e sem “ama” que dele cuidasse!

Foram, por isso e a correr, buscar o saudoso - e, esse sim, heróico - General António de Spínola, com quem tive a honra de privar em serviço, que de nada sabia para que cuidasse da criança acabada de nascer e à qual nem as fraldas sabiam sequer mudar quanto mais alimentar! Ele veio e a ele e só a ele o velho e frágil professor de direito se rendeu, convencido pelo ilustre General que então comandava a Guarda, e entregando-lhe o poder para que este não caísse na rua onde afinal já estava!

E logo vieram, das suas tocas, onde estavam escondidos, de garras afiadas os políticos que, perante a passividade de uma tropa que logo se anarquizou num arraial que durou quase dois anos, se guindaram, eufóricos, teóricos mas completamente ignorantes, aos postos de liderança, usurpando-os aos verdadeiros, sérios e despolitizados militares, e onde, até hoje, se vêm mantendo e transmitindo como herança de pais para filhos, porque, se repararmos bem, são sempre os mesmos (como já dantes eram!)… Esta é a verdadeira razão de o País estar a deriva, como hoje está…

(NOTA - Este artigo foi escrito ao abrigo do disposto nos nºs. 1. e 2. do artº 37º da Constituição da República Portuguesa – 4ª revisão de Setembro de 1997 – segundo os quais “todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra…bem como o direito de informar… e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações” e ainda que “ o exercício desses direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.”).
publicado por Júlio Moreno às 13:09
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