Sábado, 13 de Janeiro de 2007

A Semana que se seguiu à minha morte

Morri – aqui onde me encontro, a intemporalidade das coisas não mo permitiria dizer e tal afirmar, se não fora o recurso aos jornais e documentos que ficaram na terra donde viera e que, com curiosidade, percorri vendo que muito pouca ou nenhuma importância haviam ligado ao acontecimento, mas que logo, como parte interessada, reconheci através da certidão de óbito passada pelo médico que me autopsiou e concluiu que morrera por causas naturais, quando eu sabia que não, que assim não tinha sido, mas que morrera sim levado por uma mágoa profunda, insondável e inconsolável, mista de arrependimento pelo que poderia e deveria ter feito e não fiz e pela ingratidão dos que olharam os pequenos e quase insignificantes gestos de doação, de entrega e de coragem que, em prol de outros, cometi, e que, lenta e progressivamente começara a minar todo o meu ser e afectar-me severamente todos os órgãos e funções vitais.

Curiosamente, agora, onde me encontrava, num espaço aberto, luminoso, sem grades nem portas, cadeados ou grilhetas, mas de onde sentia não poder fugir sem que a sentença fosse proferida pelo Criador, não havendo nem tempo nem dor física, eu podia ver e reconhecer a meu lado, uns mais perto outros mais longe, todos aqueles que, de algum modo, vivos ou mortos, haviam percorrido comigo parte da minha vida! Assim, via, sem sentimento algum ou sequer ressentimento, amigos que o foram ou inimigos que igualmente os tive e cujas feições e corpos não tapavam mais o interior profundo do que afinal eram ou tinham sido as suas almas! Vi a um homem a quem reconheci como pai, a uma mulher que sabia ter sido a minha mãe, a uma mulher especial que, essa sim, deixara em pranto e dor profunda pelo meu súbito afastamento, a outras mulheres às quais me ligara pelos mais diversificados motivos ou fortuitidade de momentos passageiros e outros seres ainda que percebi terem sido materialmente gerados por mim embora, e como tudo, obra igual de Deus, o seu verdadeiro e único Criador. Esses seres eram meus filhos, ou materiais ou morais - embora este termo ali não tivesse grande aplicação nenhum outro me ocorreu para designar aquelas duas outras criaturas de Deus que, não o sendo à luz da lei dos homens, o eram, para mim e à luz da lei de Deus, como se o fossem.

Sem tempo e sem dimensões, não será muito adequando que venha agora e aqui falar de baixo e de cima, mas faço-o apenas por saber que só assim os ainda vivos me poderão entender acaso consigam ler e sobretudo entender estas linhas que lhes dedico. Então, olhando para baixo, pude ver como tudo continuava na mesma, na mesma fluidez confusa e mesquinha que ia do trânsito aos sentimentos de ganância de arrogância de inveja e de despudorado a animalesco desejo do macho pela fêmea o que, sendo racional, surgia agora aos meus olhos, entretecido pelos mais variados e díspares interesses, muito poucos sendo genuínos e verdadeiros. Vi aqueles que, em vida, tendo sido meus filhos naturais, faziam a sua vida do quotidiano normalmente e sem que no seu espírito perpassasse a mais ténue lembrança a meu respeito e, quando raramente esta perpassava, era para sua revolta por nada lhes ter deixado como herança! Vi, pelo contrário, que aqueles que o não eram, embora como filhos também os considerasse, esses tinham mais frequentes recordações a meu respeito, sobretudo pela falta que sentiam da minha presença junto de sua mãe que, amargurada, mas resignada como eu tanto lhe dissera que deveria ser, aceitara o meu súbito afastamento e se limitara a dizer, sem que ninguém mais a ouvisse a não ser eu, que em breve viria ter comigo.

Amigos ou inimigos terrenos? Foi com esforço que procurei ligar esses termos à nova realidade que vivia e a quanto, de novo e velho, via à minha volta para rapidamente chegar à conclusão de que, pura e simplesmente não existiam nem nunca tinham existido!, pois não passaram de enxames de seres que pulularam em meu redor toda uma vida, uns regalando-me presentes outros esperando que eu os regalasse a eles, numa teia aviltante que mais não tinha sido do que um jogo de benesses trocadas, todas elas movidas por interesses puramente materiais alguns dos quais tecidos com linhas invisíveis e mais finas do que a própria seda aos olhos dos então, tal como eu então também, simples mortais!

E a pretender governar este imenso mar de almas que eu lá em baixo via, mas sempre a pontuar, a seu favor ou contra, junto do Criador que, já me tendo chamado, os iria um dia chamar também a eles para a prestação das suas contas, continuava, febril em seus irrequietos movimentos e quase imprevisíveis, irresponsáveis e desumanas atitudes, esse exército de seres a quem chamavam de políticos e que eram os que mais se governavam, inesgoávelmente ávidos de um poder que julgavam forte, firme e quase eterno sem nunca, ou muito raramente, se cuidando daquele pequeno exame de consciência feito ao adormecer, como que o balancete do dia antes vivido por mercê de Deus e dos homens que lho haviam consentido que não por mérito deles, meros farrapos humanos, maltrapilhos de consciência e corruptos de intenções.

E no meio daquele estranho e novíssimo local onde agora me encontrava, sem peso, sem tempo e sem dimensão alguma a rodear-me, aguardava serenamente que o meu nome fosse chamado para ser presente ao único Ser capaz de, com verdadeiras equidade e justiça, sempre desinteressado interesse e antes com paternal benevolência, julgar os homens e os sentenciar na nova vida que os esperava – a eternidade!.
publicado por Júlio Moreno às 11:25
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds