Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Tecnologias, desemprego, inovação…

Recordo que em tempos idos e já longínquos, visitando uma fábrica têxtil de uns amigos meus, vi, com certa curiosidade e alguma estupefacção, como era enorme, ruidoso e cheio daquele pozinho fino, que se não via mas que matava e propagava incêndios caso esses eclodissem, um salão de tecelagem. Pese embora o tremendo risco daquela actividade e o facto de não ver o pessoal convenientemente protegido, gostei de ver aquelas centenas de pessoas movimentando os seus teares e circulando entre estes os responsáveis dessas linhas de produção, gritando uns para os outros para se fazerem ouvir tal era o ruído que a maquinaria fazia!

Recordo ainda quão árdua era então a ceifa do trigo nas planuras do Alentejo e a imensidão de gente que sazonalmente tal actividade empenhava! Recordo o varejar das oliveiras, a apanha da batata, o penoso lavrar dos campos, de arado ou charrua, e as sementeiras que pouco depois neles se faziam!

Recordo a vivacidade e a cor das aldeias da minha terra, aqui e ali ensombrada por uma briga de taverna ou um noivo fugitivo a quem o pai da noiva prometia vingança de morte; os rostos de pele tisnada e bem curtida que quase toda a gente tinha fazendo-me, por vezes, sorrir ao antever o enorme contraste que haveria com as partes do corpo que o vestuário encobria! Recordo que as pessoas que se não conheciam, ao se cruzarem pela manhã ou pela primeira vez no dia, se saudavam cortesmente, sem parar e cada qual seguindo o seu caminho!

Recordo o sol dourado e a brisa morna das tardes do entardecer do Verão em que era segura a promessa de um novo dia adequando à época, bem como o frio terrível e cinzento daquelas que prenunciavam a neve no Inverno. Recordo o jogo do pião em que as “quecas” que nele se davam tinham sentido bem diverso do que hoje têm!

Recordo esses animais quase dóceis, mas de difícil trato, obstinados e teimosos, que eram os burros, hoje em vias de extinção! Recordo que crianças de cinco ou seis anos, munidas de uma vara muito maior do que elas, caminhavam à frente e conduziam sozinhas manadas de bois e vacas que, pachorrenta e obedientemente os seguiam na certeza de uma tarde serena e fértil em comida verde que existia com fartura nos lameiros para onde eram conduzidos!

Recordo também que, meses mais tarde, esse meu amigo que me convidara a visitar a sua fábrica, me renovou o convite com a finalidade de me mostrar algo que me disse ser uma novidade. Fui e pude então ver que recebera novos teares que laboravam mais velozmente do que os anteriores mas que, no mesmo grande salão de tecelagem que antes visitara, trabalhava agora quase um quinto do pessoal inicial. “Agora – me explicou ele – cada homem trabalha com cinco teares… dispensei os excedentários! Daqui a pouco estará pago o investimento e o tecido poderá ser mais barato e melhor…”.

Nada lhe perguntei, nada lhe disse, nada comentei, acho que até me mostrei contente com tal inovação, Mas logo senti um grande desconforto e uma certa apreensão pelo destino do pessoal que já lá não trabalhava. Vivia-se então em época de pleno emprego muito embora os automóveis em circulação já tivessem tornado mais poluído, quer no ar quer no ruído, o ambiente em que vivíamos…

Anos mais tarde, folheando ao acaso uma revista, deparou-se-me a notícia de que no Japão, uma fábrica, não sei já de quê, estaria completamente robotizada e controlada através de computadores apenas por dezanove elementos quando anteriormente empregava três mil e duzentas pessoas, se não erro!...

Hoje em Portugal, e pelo mundo, no ano da graça de 2006, enfrentando uma crise monumental de desemprego e com milhões de bocas famintas, faz-se a apologia das novas tecnologias, distribuem-se computadores, recebe-se o sr. Bill Gates com honras de Chefe de Estado, estimula-se a livre concorrência, num perigosíssimo jogo económico-democrático que ninguém, em consciência, saberá dizer onde nos levará. Incentiva-se à inovação esquecendo-se de que esta só estará, como sempre esteve, ao longo dos séculos, ao alcance dos eleitos: - dos Arquimedes, dos Newtons, dos Pasteurs, dos Von Braun e poucos outros, mas nunca do Zé da esquina, - a esmagadora maioria do povo por quem os políticos são inteiramente responsáveis! - , o qual nunca saberá sequer por onde começar!

A livre concorrência, para poder ser livre, mas segura, teria de ser constantemente controlada e aí se criaria um enorme exército de fiscais já que, à força de querer poupar na uva dentro em pouco a própria água nos seria servida como um Porto da melhor qualidade! A livre concorrência teria de ser precedida de regras elementares de educação e moral, além de técnicas, concorrência que, sendo já do conhecimento dos antigos, os homens de hoje ignoram ou fazem por esquecer, arruinando-se mutuamente nas suas incipientes e talvez lucrativas negociatas. Um exemplo prático. – Quando vim para o Norte, concretamente viver para Espinho, onde há um casino que alberga os costumados e ávidos noctívagos, notei que em determinada zona do percurso, numa pequena recta da estrada, havia uma “roulotte” de cachorros, bifanas, caldo verde e coisas quejandas, adequadas à fome de quem nem janta para satisfazer o vício quer do casino quer das discotecas e que essa “roulotte” estava sempre cheia de clientela que se amontoava em seu redor. Passados tempos, uma outra, mais distante dela, se lhe juntou e a freguesia, que aumentara, chegava bem para ambas. E depois desta outra, e outra, e outra, e mais outra ainda, tendo chegado ao número de treze quando, por imposição camarária, sanitária ou das simples leis do mercado todas elas desapareceram. Ficou só uma, abandonada, sempre fechada, talvez porque o dono já nem dinheiro tivesse para atirar dali…

São estes os dias que vivemos e me amarguram os meus amanheceres. Leio avidamente as notícias nesta maravilha que é a Internet. E que vejo? A guerra do Mr.Bush continua a sua calculada e criminosa progressão. O clima alterou-se por tal forma que o Inverno vem visitar o Verão e vice-versa. Os traficantes saem quase impunemente à rua e as autoridades quase não têm meios para os importunar. Nos centros de decisão colocam-se ou meninos de coro ou abutres esfomeados, grande parte deles completamente ignorantes das matérias que tutelam mas todos vestindo as respectivas camisolas clubistas. Os banquetes sucedem-se, em Lisboa, no Porto ou em Bruxelas. Alguns basbaques deliciam-se com exposições de coisas que têm tanto de abstracto que não se percebe sequer o que são ou representam, e o povo, sereno, entorpecido, como que anestesiado, continua a mitigar a sua dor e desalento com as telenovelas brasileiras que nos são impingidas de manhã à noite pela única via que um Estado verdadeiramente sábio teria ao seu alcance para educar e cultivar o seu povo ignorante e analfabeto que não sabe o português mas que se pretende aprenda o inglês!

Mas como a ordem do dia é inovar. Inovemos pois…
publicado por Júlio Moreno às 14:11
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1 comentário:
De contoselendas a 22 de Dezembro de 2006 às 14:32
Um Feliz natal e Um Próspero Ano Novo são os Votos Do Contoselendas. Um Abraço.


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