Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006

Como a vida de hoje passa por estranhas “modas”…

Quando era rapaz lembro-me de ouvir dizer, lá por casa, que o melhor era enveredar pela carreira do serviço público porque, acontecesse o que acontecesse, essa, ao menos, era garantida e garantidos estariam os seus, já então reconhecidos, injustos e magríssimos proventos.

Recordo-me de que um médico se formava em medicina para a exercer durante toda a vida, procurando cada vez mais especializar-se na sua profissão e manter-se a par dos avanços técnicos que nela iam ocorrendo; que um professor, um investigador, um engenheiro, um arquitecto (com as técnicas e os matérias em crescendo de evolução) um marceneiro, um artífice, enfim, qualquer um, mas todos dando corpo e vida ao que sentiam ser a sua vocação e cada vez mais se procurando actualizar e aperfeiçoar na arte a que se dedicaram.

Hoje, porém, a “moda” é outra! Por via de uma ciência nova e que tem vindo a revelar-se predominante tutora de todas as demais – refiro-me à economia, arte novíssima e omnipresente no novíssimo mundo em que vivemos e que já na velha Coimbra do meu tempo merecia a quadra: “cursou o i superior (alínea de economia) /talento não há quem lho veja / pode ser que ele seja um doutor / mas também pode ser que não seja” – por via dessa novíssima ciência nenhuma profissão se deverá considerar para a vida, isto é, cada um deve estar preparado para de médico passar a tecelão, de engenheiro a motorista de táxi, e talvez de advogado a comentador radiofónico ou televisivo bastando para isso que, reunindo as condições básica dos políticos de bancada, que tantas vezes vemos na tribuna debitando os seus infindáveis jorros de palavras muitas das quais sem nexo nem coordenação ideológica, para já não falar em sintaxe ou mesmo em erros morfológicos, arranje uma forma de obter um “canudo” num dos noveis cursilhos dos vários que por aí vão aparecendo.

Mas – cuidado! – tudo isto sempre sob a batuta da “mestra” economia que tudo domina, regula e se mostra cada vez mais infalível e indispensável!

Ver hoje a discussão do Orçamento ou uma qualquer outra sessão da Assembleia da República é melhor do que ir a um espectáculo de circo! Não faltam os artistas, melhores ou piores no seu desempenho, as atitudes dramáticas ou grotescas e apalhaçadas de alguns intervenientes e as sábias palavras dos que se julgam mais entendidos e vão abrindo pausas nos seus discursos e olhando inquisitoriamente o auditório sempre que se julgam dignos de aplauso.

Ver o primeiro-e-único-ministro falar da sua cátedra é o mesmo que assistir numa feira ambulante ao arrazoado tonitruante do vendedor da banha da cobra que, não precisando de megafone, finda a sessão, não só vendeu todo o seu produto como até a própria bancada onde o expunha. Mas ver a oposição nos seus discursos é interrogarmo-nos, as mais das vezes, em saber o que tem a ver a cara com a careta tão díspares e desencontradas são as matérias sobre que por tantas vezes decore a sua argumentação! Assistir à Assembleia no seu todo é ver muitos deputados bocejando, quando não mesmo dormindo, outros conversando animadamente sobre tudo menos com o que no momento se discute e outros ainda, displicentemente, entrando e saindo, majestosos, para estender as pernas, fumar o cigarrito e ou tomar o seu café quando não mesmo para se “pirarem” dali porque outros valores mais altos se terão, entretanto “alevantado” avisados que foram por essas terríveis máquinas modernas de comunicação que apitam e tocam por todo o lado as mais estranhas e estrábicas melodias! Mas tudo isto depois de assinada a respectiva folha de presença, claro!

Curiosamente, nesta especialíssima “classe profissional” raras são as mudanças preconizadas pelas novas lições da economia: - raros são os casos em que os políticos deixam de o ser e se dedicam a outra profissão. Ou estão no “activo”, viajando alegremente por esse mundo por conta do erário público, ou cumprindo a maçada de se deslocarem à A.R. nos dias de sessão, ou, por baixo da mesa, vistos os conhecimentos especializados que alcançaram, acolitando os sucessores e, para passar o tempo, que a reforma ou a choruda indemnização essa lhe foi assegurada, ocupando novos cargos nunca abaixo de administradores numa qualquer empresa pública e privada não importa de que ramo – veja-se o caso do Sr.Gomes que após a Câmara do Porto, o Ministério da Administração Interna, de tristíssima memória, foi nomeado administrador da Galp dados os seus profundos conhecimentos em economia de petróleos com vencimento de mais de 15 mil euros mensais!

Tudo isto a propósito do Orçamento que agora se discute (com “O” maiúsculo e por respeito pois não me esqueço de que Salazar já obrigava os cidadãos a descobrirem-se quando no interior de uma Repartição de Finanças). Um Orçamento que é para cumprir se, por acaso, for cumprido porque comprido ele não é!

E já agora, que falamos de Parlamento, digam-me se não era avisadas as directivas do “famigerado ditador” que nunca proibiu um deputado de apresentar qualquer nova iniciativa parlamentar da sua competência na Assembleia Nacional, fosse ela proposta de lei ou qualquer outra. O que lhes impunha era apenas uma condição: - nada poderia ser feito desde que envolvesse aumento de despesa ou diminuição de receita e sem que, previamente, alguns deles se congratulassem com algum feito da véspera ou obra pública recém inaugurada! E foi assim que o país terá estagnado um pouco mas seguramente escapado, ao invés de quase toda a Europa, aos indescritíveis horrores da segunda guerra mundial; mas foi assim que terá conseguido a “pesada” herança (em ouro e crédito internacional) que os senhores do post-revolução de Abril se apressaram em desbaratar com as novas iniciativas democráticas a que se vêm dedicando!

Esquecia-me de dizer que, tal como as profissões, também a seriedade hoje já não é para toda a vida…
publicado por Júlio Moreno às 14:07
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