Domingo, 8 de Novembro de 2009

A revolta dos neurónios

Aqueles que se situavam na parte mais racional do cérebro mostravam-se revoltados perante a apatia dos que, podendo expedir ordens de resposta motora aos membros, quer aos pés, quer ás mãos e, nestas, aos dedos que, em se fechando, formariam os punhos, pelo que começavam já a dar alguns sinais de impaciência, traduzidos em erráticos e desconexos impulsos eléctricos de ordem e revolta contra o encéfalo que tardava tanto e tomar a resolução que se lhe impunha.

Nervosos e francamente agitados se mostravam os eferentes, ansiosos por transmitirem as ordens que tardavam. Porém, prudente, como sempre e até aí o tinha sido, o cérebro recusava-se a dar a ordem há tanto esperada e que, num ou noutro casos, esporádicos, embora, havia sido mesmo já ultrapassada pelos reactivos sob o comando, sempre imprevisível, da espinal medula.

Entretanto, ao córtex continuavam a chegar, ininterruptamente e pelas vias visuais e auditivas, as gravíssimas informações relativas aos insultos que estavam sendo dirigidos àquele ser orgânico sem que se produzissem neste quaisquer alterações susceptíveis de reduzir ou mesmo terminar a situação que se criara.

E foi, perante toda esta passividade quase diplomática, recentemente acordada pelos numerosos cérebros que às reuniões haviam assistido e que, por maioria simples fora aprovada, de tudo fazer em prol do politicamente correcto, que os neurónios motores subitamente se revoltaram e, anarquicamente, sem qualquer plano ou estrutura de comando, decidiram agir e, indiferentes a quanto mais os rodeava, tomaram as rédeas do poder cerebral e da vontade conduzindo aquele organismo, em anterior estado quase cataléptico, à guerra física e sem quartel que rapidamente se generalizou e só veio a terminar quando os responsáveis pela visão lhes confirmaram estarem moribundos e já mesmo mortos, na sua esmagadora maioria, todos os neurónios agressores, pertença daquele outro organismo que, meio desfeito já, ali jazia, inerte, na sua frente…

E foi, tempos depois e quase já esquecidas, quer as razões quer as circunstâncias em que aqueles factos se haviam produzido, que o cérebro de um Juiz, cansado, doente e já próximo da reforma, ordenou aos seus músculos da “área de Broca” que proferissem a sentença:

- “Quinze anos de prisão efectiva e cento e cinquenta mil euros de indemnização à família da vítima ou a quem se mostrar com direito a ela…” – seguindo-se de imediato a pancada do martelo do Juiz, prova evidente dos anos que por este haviam já passado.
publicado por Júlio Moreno às 13:57
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