Quinta-feira, 5 de Outubro de 2006

Quem nos governa, como e porquê?…ou a eterna questão que terá provocado o assassinato de Júlio César no Senado!

Eu sei, todos sabemos, que não haverá nunca governos ou sistemas de governo que sejam ideais. Se os houvesse nunca seriam governos apenas porque nunca poderiam sê-lo já que governar o que quer que seja e sobretudo homens pressupões mandar, controlar e, de certa forma, exercer uma autoridade cuja legitimidade, oportunidade ou proveniência poderá e será sempre contestada.

Eu sei e todos nós sabemos disso. Da monarquia à república passando pelo efémero consulado que degenerou em imperialismo arrogante e belicista, como aconteceu com Napoleão e pelas trágicas ditaduras assassinas e mentecaptas, tudo é já velho conhecido do homem e da humanidade. Faltará talvez que se faça um pouco de história de como tudo começa e de como, para nosso mal, continuará “per secula seculorum” a começar!

Como já Winston Churchill proclamava, mesmo sendo mau, o sistema democrático ainda assim parece ser o melhor de todos os maus. Pois bem, assim sendo, procuremos dissecá-lo como o faríamos se de uma autópsia se tratasse. Procuraremos indagar do que foi ontem, do que é hoje e do que será, provavelmente, amanhã a nossa tão badalada, mimada e sorridente democracia: - o que a forma e qual o seu ADN, como nasce, como cresce ou como mirra, (questão de pura sorte ou de opção), de que se alimenta, como vive, do que padece, como sobrevive e como, fatalmente e pelo caminho natural das coisas terrenas, um dia definhará e morre.

Tomemos então a mesa de mármore frio e sobre ela disponhamos o escalpelo, as serras, as pinças e o demais e adequado instrumental; tudo preparado e abstraindo dos cheiros desagradáveis dos desinfectantes e dos próprios produtos dissecados, sempre presentes e necessários nestas ocasiões, comecemos o trabalho:

- Um grupo de senhores, (as senhoras, salvo nos já longínquos tempos dos exacerbados movimentos feministas do dealbar do século, sempre se deixaram ficar um pouco para trás nestas coisas, muito embora uma magnífica e recentíssima lei da república as queira “condenar democraticamente” ao trabalho segundo percentagens tiradas, se calhar, das esferas do totoloto!) – mas um grupo de senhores, dizia, “habitués” de certos lugares, conhecidos por lugares mundanos, (provincianos na sua grande maioria e daí o poder vir a formar-se o proverbial e conhecido caciquismo), reúnem-se à volta de umas quantas mesas, de tampos quase sórdidos, de madeira tosca e falhada pelas muitas vicissitudes que por lá terão passado e, à falta de melhor tema, ou porque o tempo não o propicia ou porque o futebol é coisa localmente de menores, resolvem-se a falar de política porque, tal como já Aristóteles já o afirmava, o homem é um animal político!

- Trocando inicialmente e apenas muito tímidas ideias, de como vão as coisas lá no lugarejo, dos negócios, da vida com os vizinhos, da rua e dos enlameados que nela se formam quando chove, das eiras e dos lameiros - da água que deita ou não deita ou desperdiça o fontanário -, das novidades do pároco e da igreja, da vila, da cidade, do distrito e, finalmente do país.

- E é aqui que chegaremos ao verdadeiro cerne da questão: - o País! Este pedaço de terra descrito, algures, nalguma conservatória histórica de feudos e condados, de reinos e repúblicas, formado por milhares de lugarejos como este no qual nos pretendemos encontrar agora, com fronteiras sem marcos visíveis mas que gozam da rara propriedade de se tornarem elásticas por força da própria força ou de algum outro entendimento diplomático onde nem sempre foi ausente a diplomacia nupcial.

- Imagino, assim, que, na densa fumarada que envolverá tais colóquios, onde, entre alguns ditos de acerto, retirados de ancestrais provérbios do povo, as bacoradas serão mais do que muitas, por entre o tilintar dos copos, cheios até à bordas, que nisso os taberneiros sempre fizeram questão de honra porque ali e com essas medidas não se brinca, de tintos ou de brancos – a cerveja não pertence bem à génese da democracia já que tem mais a ver com um germânico nacional-socialismo de onde brotou a tão odiosa ditadura da suástica! - ou os mais ou menos ruidosos sorvos dos quentes cafés à mistura com alguns hesitantes e escapatórios gases, resultado de uma post-gastronómica flatulência abastada e de cujas ruidosas barrigas sobressairão alguns cordões de ouro de lei que invariavelmente terminam em relógios do mesmo maciço metal e de romanos algarismos – que isto de chá é costume só de “bifes” e por cá, por terras lusas, só coisa de senhoras e de algumas – o vozear irá subindo de tom tornando-se, por vezes, completamente desconexo e perigosamente ensurdecedor.

- É que, à boa maneira lusitana, a razão pretende normalmente impor-se pelos decibéis com que as gargantas mais ou menos molhadas vão conseguindo debitar o seu palavreado, que, em se atropelando a esmo e sem o mínimo decoro ou respeito pelo arrazoado do vizinho, nem sempre vem acompanhado por válidos motivos, nem pelo discernimento natural do intelecto e muito menos pela sobriedade e pela clareza da razão.

- Berra-se e fala-se, e cada vez mais se fala e cada vez mais se berra para se não correr o risco de ser-se posto à margem por se estar calado e mingado de ideias, gesticula-se e quase estridentemente se grita em confusão geral quando e, dentre todos, um ou dois se destacam no tonitruante e ruidoso conflito de verbosidades.

- E serão então esses, os que restarem da natural e sucessiva eliminação que tiver sido feita, os verdadeiros oradores da noite, os potenciais contendores de futuras lides, os germinados líderes do embrião partidário que se estiver gerando, os políticos desse amanhã dito democrático e que, vista as coisas, já não tardará muito.

“- Vossemecê diz bem, muito bem mesmo”…“- Desculpe, carago, mas não concordo lá muito com o que o amigo diz – este “lá muito” é essencial para que a porta fique sempre aberta para mais tarde, se necessário, concordar “… "- Assim mesmo é que é, assim é que se fala, muitos como vossemecê é que devíamos ter por cᔅ - e outros dichotes do género se vão produzindo aqui e ali, coadjuvando os ânimos dos mais exaltados, exacerbando-lhes os espíritos e fortalecendo-lhes as almas, preparando afinal aqueles que, ali se tendo sentado apenas para beberricar um copo, tomar o acostumado café ou dizer mal da sua vida ou da vida alheia, dos negócios ou comentar apenas as pequenas intrigas de saias e de calças que na terra corressem, acabaram, por natural e progressiva evolução temática, transformando a reunião em verdadeira tertúlia política – quase um comício!

- Dera-se o primeiro passo e assim terá surgido, sem que ninguém deliberadamente o tivesse verdadeiramente provocado, um verdadeiro arremedo de comício, uma ideia de liderança, um colectivo de espírito mas que até poder vir a ser considerado crítico e digno de menção no jornal da terra terá de passar, e muito tempo, apenas por maldizente, cada qual indo, nessa noite e para casa, remoendo um pouco no que disse, no que não disse ou no que teve receio de dizer, no que ouviu e ou no que, mais tarde e se perguntado, juraria nunca ter ouvido!

- Porém, nos seus espíritos começara já a germinar a semente de um associativismo cívico, um tanto ainda à laia de clubismo, mas do qual cada um se ia sentindo o expoente máximo ou meramente importante e com o qual mais tarde, quando pomposamente pisassem, completamente perdidos, os passos da Assembleia, se sentissem eles os verdadeiros e inquestionáveis deputados eleitos pelo povo, povo esse que à hora das referidas reuniões, dormiria, exausto, nas suas camas de colchões de palha, pensando em como estaria o tempo na manhã seguinte, se bom para a rega, se para a semeadura, ou, à míngua de TV que o recreasse, agarrado ás suas Marias e saciando nelas desejos carnais e nalguns casos maritais mas que muitas vezes mais se confundindo com os gemeres do gado que na corte dormia, pacato e farto, aquecendo-lhes os sobrados e as casas e para os quais esses actos, pecaminosos aos homens mas criados por Deus como necessários à sobrevivência das espécies, os costumavam eles fazer ás claras, no campo, à luz do dia e muitas vezes auxiliados pelos donos da arte de auxiliar, em ritmo de indústria, o que a natureza lhes tornara lento e difícil de alcançar pelos seus próprios meios.

- Da reunião havida às listas e das listas à ordenação dos nomes, por ordem de posição social, cultural e de dom oratório, que muito pouco das ideias que vagueassem nas suas próprias cabeças, já só iria um pequeno passo. Diria mesmo, e um tanto prosaicamente, que apenas o passo até à mais próxima e mais barata tipografia, isto depois de os mais abastados se terem prontificado a subsidiar a coisa embora com juros em benefícios a decidir e cobrar posteriormente nas demais reuniões e deliberações que se sucedessem e de o pároco ter bendito os nomes dos que mais e melhores côngruas houvessem prometido. O importante agora era não parar a máquina. Bem pelo contrário. Oleá-la bem e deitar-lhe p´ra dentro as achas, o óleo ou o petróleo necessários a manter acesa a chama que garantisse o avanço daquela democracia em marcha.

Esta, e em linhas muito gerais, a génese da democracia de freguesia e de confrangedora ruralidade isto porque a ela se irão candidatar alguns que irão assinar as listas apenas com o dedo polegar da mão direita!... Em próximos capítulos nos ocuparemos das outras géneses, que não das rústicas, mas das ditas urbanas ou citadinas, esperando com isso demonstrar que, afinal, quem nos governa é quem sabe governar-se e não quem nós gostaríamos que o fizesse.

Até à próxima, pois, e “desculpem qualquer coisinha…”.
publicado por Júlio Moreno às 10:21
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