Domingo, 13 de Agosto de 2006

Mentiras inteiras e meias verdades

É de “arrasar” – para usar a mesma linguagem com que se enaltece a actuação dos Rolling Stones, ontem, no Estádio do Dragão - a facilidade e a impunidade com que hoje se mente sem qualquer rebuço!

Os exemplos são mais do que muitos: desde as palavras que os senhores jornalistas põem na boca dos presidentes do clubes de futebol até às frases retumbantes de sentido político atribuídas às vedetas actuais lideradas, no mundo, pelo sr, Bush, em Portugal, pelo sr. Sócrates e satélites.

Mentir converteu-se, assim, numa espécie de arte que se nos afigurará como melhor ou pior executada consoante o dom inato do artista. Perplexo ficava eu quando, em pequeno, e ouvindo minha mãe referir a verdade como postulado essencial da boa educação, tomava conhecimento do tristíssimo exemplo dado por D. Afonso Henriques ao faltar à palavra dada a seu primo e rei de Castela o que motivou a heróica penitência de Egas Moniz e da sua ilustre família!

Em dificuldades me sentia eu quando, já pai, tinha de discorrer sobre o assunto com os meus filhos, pequenos e depois já adolescentes, o que tornava as coisas duplamente mais difíceis: - primeiro, porque a contestação é a afirmação da própria adolescência – razão pela qual muita gente se fica mesmo por essa fase! - e segundo, porque, olhando em meu redor, talvez a começar em mim mesmo, poucos ou nenhuns exemplos teria para lhes dar.

De habilidade política, forjada nos meios diplomáticos, a arte da mentira e da evasiva tomou foros de ciência e cedo foi adoptada pelos mais variados misteres e instituições para servir desde os mais simples até aos mais sinistros propósitos. Por isso, a mentira se foi tornando no que é hoje, tão natural e desprovida de censura que atinge patamares de insuspeita verosimilhança quando ouvida em certos meios e a certas entidades até aí havidas como absolutamente credíveis e dignas do maior apreço.

E quando a mentira, hoje, para além do seu conteúdo sempre, ou quase sempre, soez, é artisticamente elaborada e tornada pública com o ênfase e a mestria de um actor de primeiro plano, suportada pelos media e iluminada por luzes de ribalta, dizemos estar na presença de um hábil e sagaz político, promotor dos altos desígnios da pátria, indefectível protector dos fracos e defensor dos oprimidos. Batemos-lhe, então, calorosas palmas!

Porém, quando esta é dita sem graça, esfarrapada e titubeante, como que pedindo por esmola o perdão de poder ser dita, logo afirmamos estar na presença de um perigoso vilão, de um criminoso da pior espécie digno das necessárias dureza e rigidez da lei para o meter na ordem e livrar a sociedade dos perigos de tal energúmeno. Bater-lhe-íamos com um pau se pudéssemos!

Vem tudo isto a propósito do que li, sem querer, numa notícia desportiva de hoje e que transcrevo: - “… Ontem, depois do recuo diplomático dos portistas na véspera, consubstanciado no comunicado desmentindo quaisquer contactos para a contratação de um novo treinador...”

E, como vêm, teve de ser “diplomático” tal recuo! E mais não digo pois não é meu propósito escrever um tratado sobre o tema.
publicado por Júlio Moreno às 11:38
link | favorito
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds