Sábado, 12 de Agosto de 2006

Material bélico não ofensivo

Não posso deixar passar em claro esta rara subtileza de linguagem dantes usada só nos meios diplomáticos e hoje transportada para todos os meios, inclusive os militares, que eu - talvez por mim - sempre julguei isentos de tais artimanhas.

Noticiava-se há dias que, pelas Lages, teria passado um avião militar israelita. Logo depois um comunicado governamental esclarecia que, na realidade, tal havia acontecido mas que esse avião transportava material bélico não ofensivo!

Mal comparado, este caso surge-me como aquele outro dos aviões que escalaram aeroportos europeus transportando presos de ou para Guantanamo (?), sobre o que muito se falou mas que, subitamente, desapareceu das páginas noticiosas, caído que talvez tenha sido no esquecimento das coisas menos relevantes.

Sei que com este o mesmo se irá passar, se é que não passou já, pelo que o facto de aqui o retornar à luz do dia nada tem a ver com a notícia em si mas com a circunstância de querer entender o que possa ser material bélico não ofensivo!

Para mim, como para todos os que minimamente se debruçarem sobre o assunto e pelo enorme paradoxo que encerra, trata-se de uma justificação de quem nada quer justificar e faz-me lembrar uma anedota que adiante referirei por pensar que se adequa um pouco ao caso sob análise.

Material bélico não ofensivo, quererá dizer, material usado na guerra sem ser para ofender ou atacar o inimigo. Curioso, no mínimo curioso! Talvez cadeiras, mesas, secretárias, blocos de notas ou até balas destinadas exclusivamente à defesa perante um ataque e nunca por nunca a serem usadas para atacar. Mas a cadeira poderá servir para nela se sentar o estratega que congeminará a destruição total do inimigo ou para, em última análise, ser atirada à cabeça deste! E a mesa, para estender as cartas geográficas!...

Mentecapto como certamente sou, o certo é que não descortino a diferença entre uma coisa e outra pois, se não se tratar de material ofensivo (e defensivo, entenda-se) não será, com toda a certeza material “necessariamente” bélico. Talvez material de escritório, equipamento de som, material médico, sei lá(!) um qualquer outro tipo de material mas bélico nunca, isto porque, para mim, todo o material bélico é, directa ou indirectamente, um material ofensivo.

Por aqui se vê o quanto se evoluiu neste jogo actual do virtuosismo do uso das palavras e quanto o “NIM” é cada vez mais verdadeiro e oportuno. Por isso é que, para mim, a política, aliada à retórica, continua a ser, e será sempre, a arte ou a ciência de enganar um povo!

E agora a anedota que acima prometi: - Almoçava o general na messe de uma unidade que acabava de visitar quando, perante o delicioso arroz que comia, não hesitou em gabar o petisco e em dar os parabéns ao gerente da messe. Responde este, orgulhoso, ao general: - Muito obrigado meu general, e saiba V.Exa. que está a comer material de guerra… Tratava-se, efectivamente, de um arroz confeccionado com alguns dos pombos-correios que ainda restariam na unidade! Parece-me que esta história, verídica, ao que julgo saber, não terá terminado da melhor maneira para o gerente daquela messe…

Material bélico não ofensivo, hein! Sim senhor… por esta é que eu não esperava!

PS. - Inesperadamente e sem que o pudesse prever quando escrevi, o caso não caíu no esquecimento. Surge de novo, pujantemente renovado, sob a acusação de que o Governo nada terá comunicado ao Presidente da República! Di-lo e acusa Manuel Alegre, vice-presidente da A.R.. Se assim é, estou com ele na análise que faz de mais este passo em falso do Governo...
publicado por Júlio Moreno às 11:51
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