Sábado, 5 de Agosto de 2006

A (in) segurança das pessoas nos nossos dias

Fruto de uma democracia feita apenas de palavras, vazia de conceito, pouco sincera e nunca verdadeiramente pretendida, por mais que os nossos políticos de esforcem em pregar-nos o contrário, obedecendo a duvidosos critérios de reclamada economia - “economicistas”, para usar o neologismo tão em voga - e sem cuidar dos reflexos que ela produz, esses também económicos mas muito principalmente de natureza social, cultural, moral e cívica, assistimos, de há alguns anos a esta parte, à americanizada moda das super-esquadras de polícia em detrimento do velho polícia de rua, calcorreando os quarteirões de mãos atrás das costas, a quem, se necessário, se perguntava as horas, a informação sobre um endereço ou o favor da vista grossa perante um estacionamento em transgressão, e que nos ia garantindo a segurança aureolado e protegido!, que o estava, por uma genuína e verdadeira autoridade além do forte poder dissuasório que a sua presença impunha à incipiente e amadora delinquência urbana.

Sou desse tempo, pertenci a essa autoridade, embora prestando serviço noutra força, na GNR, pelo que sei, bem ao contrário dos teóricos ministeriáveis de hoje, do que estou a falar. E foram muitas as noites em serviço e muitas foram as em que, já fora dele, passeei, tranquilo, à beira-mar com os meus filhos ou, despreocupadamente, andei, à noite, no centro da cidade vendo as montras que não tinha tido tempo para ver de dia. Hoje, quem poderá mais gozar de tais prazeres?

Por razões que nada tiveram de heróico, talvez de justo apenas, fez-se a revolução dos cravos que bem pouco aproveitou a quem realmente a fez, activa ou passivamente entenda-se. E assim, os novos donos do país, que bem rapidamente dela e dele se apoderaram, tecendo-se mútuas e falaciosas loas de patriotismo, tiveram pressa em acompanhar o mundo, um mundo que desconheciam mas que prometiam mais civilizado, e, em nome de um Abril, não de águas mas de asneiras mil, atabalhoada e pressurosamente tudo apagando, foram abandalhando o país, minando a instrução, favorecendo o crime e o deboche com a superioridade acéfala de quem tudo entende, tudo sabe e, sobretudo, mais do que nunca, tudo pode, aqui se notando, e bem, a verdadeira diferença entre a ditadura e a “dita mole”.

Que tudo pode, dissemos! E porquê? Porque esses novos donos do país, enquanto se vão refastelando nas poltronas, bebendo whisky e fumando bons charutos, enquanto vão falando e debitando baboseiras, algumas em francês, sobre a liberdade e a nova vida ao povo inculto mas ainda crente, bem sabem, e com isso contam, que lhe bastará gritar a esse mesmo povo “agarra que é fascista!” para que ele logo corra em seu auxílio, generoso, desamordaçado mas desbragado e sem tino, a perpetuar-lhes o poder!

Assim se implantou neste país o actual estado de coisas a que, só por graça, e esta de mau gosto, se convencionou chamar de democracia “! Assim foi germinando e se fortaleceu toda esta novíssima casta de políticos, “partidocratas”, que, senhores de mansões, fundações e carros luxuosos, vão auferindo principescos ordenados e mordomias além de reformas criminosas quando, cansados e cheios, se retiram - criminosas porque, não respeitando nem equidade nem justiça, o são à conta do erário público, que o mesmo é dizer do povo que tanto afirmaram privilegiar e proteger.

Com honrosíssimas excepções, que felizmente as há mas só servindo para confirmar a regra, estes senhores, sabendo muitíssimo de nada e desavergonhadamente alardeando uma competência que não têm, é desta forma, soez e traiçoeira, que há trinta e dois anos vêem desgovernando o país, neste momento em crescendo de mediocridade e rumo ao doutoramento em pobreza!

Mercê das liberdades nunca vistas que foram as tais conquistas alcançadas, mercê do aviltamento do termo e do conceito autoridade, havido por antidemocrático e fascizante!, as polícias foram perdendo prestígio e força e, em seu lugar, nas ruas, emergiram e proliferaram os bandos com o crime mais temido a vir à luz do dia. Finalmente atingia-se o progresso!

Aprendi durante a vida e talvez mercê da minha profissão, que o progresso é fenómeno que se manifesta e projecta em todas as direcções, tanto na do bem como na do mal, e que é também pelo índice criminal dos povos que o mesmo se avalia em cada região. Portanto em nada me repugna o admitir que o progresso do crime seja hoje realidade, dolorosa e triste. Mas do que pasmo é que idêntico progresso não haja sido consentido e não haja sido fomentado junto das autoridades a quem cabe reprimi-lo: - polícias e tribunais – e a quem tudo falta, todos os meios, desde o armamento até à legislação que os proteja.

Como consequência necessária desta reinante e actual dualidade, assistimos ao diário noticiar de burlas, assaltos, violações e assassinatos, no que parece ser uma autêntica sanha de recuperação por parte dos criminosos, hoje à rédea solta, do tempo perdido durante a “ditadura”! Assim se transformou o País numa espécie de campo de estágio e santuário do crime que já é organizado.

Fundimos polícias, poupámos dinheiro; eliminámos meios, poupámos dinheiro; abrimos fronteiras, poupámos dinheiro…recebemos dinheiro, esbanjámos dinheiro e hoje não temos para prevenir o crime e para dar a protecção devida aos agentes - esses sim, heróicos - que o perseguem.

Mudámos as leis mas nada alterámos que valesse a pena. Bem pelo contrário. Novas e incompreensíveis benesses foram sendo concedidas aos jovens criminosos confessos em nome de uma falsa magnanimidade de justiça democrática. Menores de 16 anos, podem, assim, matar impunemente, assaltar impunemente, agredir impunemente e, nos espantosos casos em que, capturados, são presentes ao juiz, depois de severamente averiguadas as circunstâncias em que se procedeu à sua detenção, não vá o policia ter prevaricado mais do que o delinquente, são, piedosamente, mandados para casas que os não corrigem ou de volta às famílias que os formaram desse jeito por juízes que, sendo-o de direito, não o parecem de facto.

À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo! – e os juízes que coabitam demasiado com a estranha e sedenta comunicação social dos nossos dias e dela se servem para proclamar abstractas virtudes ou defeitos, não parecem ser juízes. Ministros que se alheiam do que, sendo real, o povo vive, não parecem ser ministros. Estado que assim procede ou tal consente, não merece ser Estado.
publicado por Júlio Moreno às 23:28
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