Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006

A viagem da qual só regressei agora

Era já o fim do dia quando os trabalhos da estiva terminaram. Além da carga, gado e alfaias agrícolas, iam connosco duas famílias de colonos. Dois casais, um com dois, outro com três crianças, seus filhos. Revelaram-se pessoas cativantes durante o escasso tempo que tivemos de convivência. Buscavam ambos, como tantos outros, na Nova Inglaterra o êxito, a fortuna e a vida que a sua Irlanda lhes negara.

O comandante perguntara-me se estava tudo em ordem para que zarpássemos ao cair da noite, com vento de feição, e dera já ordem de largada. Como de costume, ele já se recolhera no camarote da popa do segundo convés onde sua mulher, que sempre o acompanhava, como era direito de um comandante, fazia já ouvir alguns acordes do seu cravo que tocava com mestria. À força de remos, as seis embarcações puxavam já a nossa proa, afastando-a do cais. Velas preparadas para subir nos mastros, faltava apenas libertar os cabos que, à popa, nos prendiam ainda. Na ponte, junto do timoneiro, eu ia orientando a manobra. A rota seria a mesma, já tantas vezes repetida e que levara os vikings às terras das américas, sempre com o grande oceano a sotavento. Velas içadas e de pronto cheias, o grande barco de três mastros iniciava aquela que, para ele e todos nós, iria ser a última viagem…

Foi pela tarde do quarto dia que o vento, que, até aí, soprara gélido mas sempre de feição, refrescara um pouco o que, em linguagem náutica, nada tem a ver com a temperatura mas sim com a sua velocidade. Mandei rizar as velas na primeira ordem de rizos e que estivesse tudo a postos e preparado para a segunda. Entretanto o mar subia e encapelava-se muito à proa, que galgava, inundando todo o convés superior e ameaçando mandar pela borda fora tudo o que encontrasse e não estivesse preso e bem seguro.

Nos porões o gado fazia ouvir os seus lamentos. Pessoal de bordo e passageiros permaneciam, abrigados, nas cabinas. O cravo da mulher do comandante de há muito que não se ouvia, ele que, nessa mesma tarde, tinha feito soar algumas breves melodias. O comandante, desde a véspera que o não via, quando de mim se despedira dizendo-se indisposto e com fortes dores na perna e no pé cheio de gota.

O vento mudara subitamente de quadrante e era agora muito forte de NNW fazendo com que as vagas açoitassem ferozmente a amura e todo o bordo de estibordo. No convés, apenas os homens necessários à manobra e na gávea o gajeiro, enregelado, tentando descortinar os icebergues e outros perigos que, naquelas paragens, apareciam de improviso e que, mesmo que o quisesse, não se atreveria a descer de lá, tão largos e violentos eram os círculos que a ponta do mastro descrevia com o balanço do navio.

Longe de amainar, o vento aumentava mais e mais e o mar tornava impraticável a manutenção de qualquer rumo. Foi então que decidi por de capa o navio, isto é, só com o velame de temporal, procurar pará-lo e aproar ao vento de tal forma que as vagas fossem rompidas e cortadas pela proa diminuindo, assim, o seu impacto e os estragos que causavam.

E foi nesta manobra que sentimos que, numa das cavas, o casco embatera nas rochas do fundo. A súbita guinada para bombordo que logo se seguiu, na tentativa de safar o barco, mais não fez do que encostá-lo, por estibordo, à aguçada penedia negra e luzidia que os nossos olhos conseguiam agora perscrutar com a ajuda das rápidas aparições que a lua, em noite de lua cheia, fazia por entre as densas nuvens que a ocultavam. e através da espuma salgada que adensava o ar e nos toldava e fazia arder a vista.

Ao tempo que o navio se esventrava, rasgado pelas duras e afiadas rochas que no seu forte casco de pinho e carvalho se cravavam, eram lancinantes os bramidos dos animais aos quais a água já alcançara e que, presos nos porões, dali se não podiam libertar. Eu e o timoneiro, ambos impotentes e apavorados, íamos assistindo da ponte e enquanto nos pudemos ter em pé, ao terror dos que, gritando e correndo sem norte, como loucos, se buscavam no meio do caos que, num ápice, ali e para tudo e todos se criara. Para além do timoneiro, que comigo estava, julgo que já não vi mais nada nem ninguém depois de me ter sentido arrastar pelo mar e até me sentir sozinho, sereno e embalado, adormecido naquela água, antes fria e tormentosa, e agora calma, tépida e luminosa que me ia transportando até ao berço onde, antes da manhã, me deitaria…

Antes de adormecer, porém, naquela noite que tão subitamente se fez dia, ouvi a “milady”, que sempre povoara e acompanhara os meus pensamentos e desejos, sorrindo, sorrindo sempre, longos cabelos adejando ao vento, olhar tão profundo e cristalino, de um verde tão verde como os prados que sempre nos cercaram, e que, debruçada sobre mim, bafejando-me com o seu doce hálito que eu tanto amava, me dizia: - “Meu amor, meu amor, eu estou contigo!...”
publicado por Júlio Moreno às 12:52
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De ela a 3 de Agosto de 2006 às 03:04
Meu amor, meu amor, eu estou contigo!



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