Sábado, 29 de Julho de 2006

Memórias de outro subconsciente

Não o vi mas certamente que o terei sabido no exacto instante em que ocorria. Encontrava-me então num sítio onde tudo se sente, tudo se sabe e tudo se pode predizer sem que se possa obstar ao que quer que seja mesmo que se queira. O meu subconsciente não o recorda, não obstante esteja certo de que o terá vivido e sofrido, como disse, naquele exacto momento em que ocorria.

Mas só agora, há pouco, me foi lembrado. Soube-o por ela, essa misteriosa “lady” que de mim, naquele porto nevoento e húmido, se despediu e que me disse recordar-se bem de quanto se passara naquele botequim, o que antes narrei.

Contou-me que estava um dia triste, pardacento e frio, igual a tantos outros dias de Inverno no norte das ilhas. A mágoa que sentia pela ausência do seu marinheiro e a que tanto lhe custava habituar-se, toldava-lhe o olhar, tornando baços e como que vidrados os seus olhos lindos. Procurava apressar o tempo com as frequentes idas à falésia, alta e a pique sobre o mar e donde sabia poder avistar as velas brancas que, um dia, muito em breve, enfunadas, lhe trariam aquele que partira. Por lá se quedava, horas a fio, olhando e pensando, pensando e sonhando, sonhos tão imensos como aquele mar sem fim e que duravam até que o sol nele mergulhasse anunciando-lhe mais uma noite sem murmúrios, sem beijos nem carícias! Mas nesse dia, porém, tudo fora diferente…

Havia já várias semanas que partira e próximo julgaria estar o dia do regresso não fora a notícia que seu pai lhe dera e vinha no jornal que tinha consigo: - o galeão fora apanhado pela tempestade ao quinto dia de viagem e naufragara! Nem um só sobrevivente fora encontrado durante as buscas que tinham sido feitas logo que o desastre se tornara conhecido. E o seu nome, como imediato do navio, figurava, logo a seguir ao do comandante, na lista daqueles que em breve voltariam, não pelo seu pé mas sim para serem sepultados na terra em que nasceram.

Enlouquecida, voltara à falésia na vã esperança de divisar as velas e de acordar, assim, daquele terrível pesadelo. Baldada intenção, baldado gesto! Não só era impossível como nem o horizonte se divisava então pois a neblina surda que cobria as ondas não deixava que os seus olhos o pudessem alcançar sequer…

E em baixo, ao fundo, enraivecido e espumando sobre as rochas bicudas que a maré vazante descobrira, o mar como que a convidava a fazer-lhe uma visita garantindo-lhe a passagem para junto daquele cujo regresso aguardava há tanto! Não hesitou na aceitação desse convite e, voando, leve, na sua saia preta e blusa branca, longos cabelos esvoaçando ao vento forte que soprava, olhos cheios de lágrimas mais salgadas do que o próprio mar, coração parado mas que ainda batia, aceitou o convite que o mar lhe fazia e partiu ao seu encontro…

Tal como eu, também ela depois, surpreendida, se deve ter reconhecido no frágil farrapo humano que jazia entre as rochas que o mar cobria e descobria. Não que mo dissesse, mas sei que foi assim. Recolhida a muito custo por todo o povo que lá se deslocou, foi a enterrar primeiro do que o seu marinheiro que tardou um dia mais no seu regresso a casa.

Conheço a “milady” desde sempre e sei que chegámos ambos ao fim das nossas caminhadas. Resta-nos mais uma breve passagem neste mundo – esta - buscando a seguir a eternidade prometida como sonho merecido, sofrido e de há muito acalentado.

A sua condição física de hoje, tal como a minha, é débil, reflectindo, talvez, esta e outras vidas do passado. Grande, enorme, é, porém, a fé e a vontade de tudo superar para vencer esta que sabemos ser a nossa derradeira provação…
publicado por Júlio Moreno às 21:51
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1 comentário:
De ela a 30 de Julho de 2006 às 02:58
"Till the end of time"


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