Sábado, 29 de Julho de 2006

Memórias do subconsciente

Hoje apeteceu-me divagar e vir vogar aqui como num barco; à deriva, sem rumo nem leme, ao sabor das ondas e do imprevisto.

Já sei que ideias loucas me assaltarão, que serão bem poucas as que terão proveito sendo este, talvez. o de levar o raciocínio e a memória a fazerem algum exercício matinal!

Recordo, a propósito de barco e de solidão no mar – eu, que sei ter sido marinheiro – o horror profundo, inenarrável, que sempre sinto ao ver águas paradas, escuras, imperscrutáveis… que me transmitem tão forte sensação de abismo em contraste com as águas mexidas, irrequietas, ondulantes, quase trepidantes, da mareta marítima fora do porto e durante a tarde, reflectindo o dourado do sol na pouca espuma e nos sucessivos espelhados que vai fazendo e tornam sempre alegre e brincalhão o meu espírito.

Procurando ir ao fundo de mim mesmo, ao subconsciente do meu inconsciente - um disparate! dirá o psicólogo, e eu concordo - sinto que vejo - outra asneira, dirá ele, embora aqui eu já não concorde tanto! - um grosso casacão vestido, tipo capote cinza azulado, impregnado de sal e do calor de dardejantes sois que o desbotaram, e que envergava no momento em que, na neblina de um porto antigo, há alguns séculos e em altas latitudes, me separava da formosa e misteriosa “lady” que, de mim, viera despedir-se porque eu partia.

Recordo-a e, fechando os olhos, vejo-a agora nítida e viva, aqui, na minha frente: - chapéu com véu, que só a outros escondia o rosto, esbelta e esguia, comprido vestido de veludo escuro, cor de sangue arroxeado, e cuja saia, com a natural elegância da frágil e enluvada mão, sobressaindo do punho rendado, levantava um pouco ao subir, olhando-me, para o estribo da negra carruagem que a esperava…

Por largo tempo estivera comigo naquele botequim do porto, conversando sem que nos déssemos conta nem do tempo nem do movimento constante ao nosso lado e do vozear troante ou estridente dos homens e mulheres que ali estavam, entravam ou saíam…

Separámo-nos sem que nenhum de nós soubesse por quanto tempo é que seria...

Ia alta a quarta ou quinta noite quando a tempestade estalou. As vagas alterosas rebentavam com estrondo pela amura e, galgando o convés de bordo, varriam-no de lés a lés com inusitada força. A popa do barco já não deixava esteira fosforescente que se visse, apagada que era logo pelo mar enfurecido. Velas rizadas, com pano só de tempo e bujarrona, esforçávamo-nos, eu e o timoneiro, por manter o barco à capa e obrigar a proa a cindir as vagas que nos iam atingindo com fragor. Na ponte, nós; à manobra poucos. O mar acalmara a sotavento mercê do óleo que havia sido derramado, segundo as práticas correntes por ocasião de tempestades.

Subitamente as rochas, negras e brilhando à luz de uma lua cheia fugidia, surgiram a estibordo! Uma leve pancada no casco já nos alertara mas nada pudéramos fazer que evitasse o naufrágio. A essa primeira muitas mais e terríveis, estrondosas, medonhas, como o mar, se sucederem… O ventre do navio desfazia-se. A carga era-nos devolvida pelas ondas que a tinham já levado. O barco adornara sobre os rochedos e, prisioneiro deles, lentamente, ia sendo destruído…

Ia alto o sol quando me vi. Jazia ali, como os demais. Corpos dispersos no areal pejado de destroços… Aves marinhas, de bicos aduncos, voavam já, em bandos, sobre nós… Tentei afastá-las mas não tinha braços, nem pernas, nem corpo com que pudesse fazê-lo. Compreendi, então, que eu não estava ali e que o que ali estava, jazendo na areia, capote cinzento azulado, cheio de rasgões, às tiras, não era eu, era o meu corpo!

O mar que eu sempre amara e amo, voltara então. Era agora alegre, brincalhão, azul luzente…
publicado por Júlio Moreno às 13:55
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