Sexta-feira, 21 de Julho de 2006

Amigos

Tanto se fala e ouve falar de amigos que eu também me resolvi a falar deles mas para me colocar dúvidas e perguntas que de há muito me perseguem.

Amigos? Como se reconhecem? Deveremos ou não classificá-los e catalogá-los tratando a cada um como julgamos que o mereça? Seremos capazes disso? Poderemos ser isentos? Imparciais? E depois? Que fazer após as conclusões? Restará alguém que valha a pena designar como "amigo" se formos demasiado exigentes nos nossos critérios de avaliação? Aqueles que nos acompanham e ruidosamente se mostram entusiasmados com cada gracinha ou tolice que fazemos, que nos entediam com a sua bajulação constante, serão amigos esses? Seremos capazes de os tratar com justiça – a justiça que mereçam - depois de os havermos reconhecido e catalogado? Onde caberá o despeito em todo este processo? E a mera e tão humana simpatia? Valerá a pena? E que fazer depois com as desilusões que poderão chegar?

Devo reconhecer que nunca fui grande fazedor de amigos. Não busquei amizades mas senti algumas, num e noutro sentido, mas nunca incentivei aquelas que sentia aproximarem-se. Eram livres de vir e ficar ou de vir e voltar. Olhando hoje à minha volta e para os vários círculos de relações pessoais de que eu seja o centro, começando pelo da família, passando por colegas de escola e profissão e terminando com toda a gente que conheci e conheço, vejo poucos, muito poucos mesmo…

Era menino e, na escola, julguei ter dois amigos: o Fernando e o Joaquim. A ambos tratava de igual modo e de ambos me distanciei de há muito. O Joaquim, acertou-me em cheio com uma pedrada na cabeça. Vi-o mais umas vezes, na escola. Depois desapareceu e nunca mais o vi… O Fernando, foi visitar-me vinte anos depois. Estacionou aquele pesadíssimo camião de transporte de batata mesmo em frente de minha casa. Tinha tido sorte na vida. O camião era dele. Veio para me dar um abraço…

Talvez tenha sido enquanto militar que mais amigos senti. No risco, ou na eminência dele, eles apareceram. Pude vê-los. Distingui-los. Estavam lá. Aí talvez tenha sido eu que lhes faltei com a amizade que devia. Penitencio-me hoje mas não vou a tempo. Eram bastante mais velhos do que eu quando tive a honra de os comandar. Alguns morreram já...

Na profissão também talvez tenha granjeado alguns. Mas aí tudo era mais difícil. Havia interesses, o negócio interpunha-se e, por vezes, mesmo se sobrepunha a desinteressados juízos de valor. Ocorreram, no entanto, algumas histórias que talvez valha a pena recordar um dia. Desse tempo, e foi bem longo, amigos não me restam. Só uma lista, extensa lista!, daqueles que de mim se terão servido e disso me culparei a mim e não a eles.

Na vida social senti-me muitas vezes qual flor assediada por dezenas de abelhas em busca do seu néctar! Tinha uma casa, uma mini-casa, num local privilegiado, a cerca de cinquenta metros sobre o mar. Da varanda, com dimensões de terraço, o que quer que fosse que caísse cairia na areia da praia, em baixo. Na frente e como vista, a imensidão do Atlântico quase sempre manso, cinzento, azul ou verde, aprazível mas cansativo no verão e belo e imponente no Inverno. De binóculos ou à vista desarmada nunca me cansei de o olhar. É muito profunda a saudade que sintp hoje do “meu” mar…

Havia nesse tempo um carro desportivo, branco, descapotável, de dois lugares, que me sabia bem conduzir devagarinho embora, por vezes, tivesse também de andar depressa pois ele gostava, e precisava, de sentir o ar fresco no focinho. Além do carro, havia um barco. Um iate à vela de nove metros e cuja construção acompanhei de muito perto. Tinha um camarote de beliche duplo à proa . e onde sempre dormi só! - uma casa de banho completa a estibordo, uma mini-cozinha a bombordo, onde não faltava um pequeno fogão basculante com forno e grelhador, salão e mesa de refeições, mesa de navegação e cartas, e seis beliches. Dotado de todo o equipamento de navegação em alto-mar, incluía rádio, bóias com sinalizadores automáticos e uma balsa salva-vidas para 8 pessoas, devidamente acondicionada no convés, sobre a cabina. Tão cheio e tão vazio era o meu barco!

Os “amigos” pululavam nessa altura! Havia um, um muito particular, já falecido e que, com ele, levou parte do meu coração. Curiosamente, sendo de Peniche natural nunca foi um “amigo de Peniche”, bem pelo contrário!... Os outros? Quando me tiver dado as resposta que acima eu mesmo enunciei, aqui os trarei – fica a promessa – um por um…

publicado por Júlio Moreno às 15:04
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