Sábado, 8 de Julho de 2006

Coisas que entendo e não entendo

Entendo a guerra como meio de defesa contra uma agressão em curso, e não só eminente, mas já não entendo a agressão que a possa motivar.

Entendo a lacuna da lei por erro ou incapacidade humanas mas, reconhecida esta, não entendo porquê dela se possa retirar um benefício.

Entendo os conceitos de legitimidade e de legalidade mas não entendo porquê, na prática, o segundo se deva sobrepor ao primeiro, vencendo-o.

Entendo um parlamento como voz da nação, com deputados eleitos; mas não entendo por que se deva votar em quem, em consciência, se não conhece.

Entendo o que possa ser politicamente correcto mas não entendo a sua pacífica e tácita coexistência com o civica e moralmente condenável.

Entendo que se persiga a modernidade mas não entendo por que se devam ignorar os valores que a precedem.

Entendo a economia e as suas leis mas não entendo que possa ser ela a levar à destruição de enormes quantidades de bens alimentares quando parte do mundo morre de fome.

Entendo que o intelecto possa e deva ser livre mas não entendo que alguém, com arrogância, se possa afirmar agnóstico.

Entendo a liberdade jornalística de informar, mesmo mentiras, mas não entendo que se continue a privilegiar o segredo das fontes.

E há muitas, muitas coisas mais que, sendo compreendidas na essência, nunca poderei vir a entender na prática. Sinto que o homem divaga, há séculos, sem rumo, no seio das suas próprias contradições e que, quanto mais se pretende afirmar menos se afirma e mais se perde em termos de credibilidade e sensatez, refugiando-se hoje na tecnologia que habilmente vai sabendo converter no ópio dos povos sem que estes se apercebam de que será dessa mesma tecnologia que virão a ser vítimas. Já hoje se verifica que a informática e a robotização geram desemprego. Com facilidade se conclui que a urbanização e o “modus vivendi”, onde toda a motricidade e produtividade são geradas a petróleo, conduzem ao caos climático, que já é dos nossos dias! Daí à extinção de vida no planeta será um passo apenas. Há milhões de anos desapareceram os dinossáurios. Temo que num futuro próximo desapareça a própria humanidade!

Tudo isto será apenas uma parte do que compreendo mas não entendo e, talvez por isso, seja levado a invejar o eremita e o seu mundo próprio, de cogitação e recolhimento.

A cada dia que passa me sinto mais próximo de Agostinho da Silva e do seu pensamento linear, cáustico e incisivamente draconiano causando-me pena o facto de ainda permanecer tão ignorado!

publicado por Júlio Moreno às 16:12
link | comentar | favorito
2 comentários:
De jmoreno a 8 de Julho de 2006 às 19:12
A F.Januério o meu obrigado pelo seu comentário


De F. Janurio a 8 de Julho de 2006 às 17:05
Em cada uma das análises aqui lidas, fui sucessivamente interiorizando a minha concordancia. De repente, um precipício enorme se me deparou. Para simplificar direi apenas isto: Entendo, pelas mais diversas razões, que se refira o mais possivel uma figura incontornável da nossa cultura como o professor Agostinho da Silva, mas não entendo como é que se pode considerar linear o pensamento de um homem de ideias tão abrangentes.
Assim como não entendo que se diga que o desemprego é culpa das novas tecnologias, já que, do que se trata aqui é da ganância de alguns, porventura a minoria, e da ignorância de outros, porventura da maioria, e da organização económica e social com que nos regemos. "com que nos regem".
Entendo que um agnóstico possa declarar-se como tal, não porque eu o seja, mas porque devemos ter sempre presente que o homem, mesmo o mais crédulo e temente a Deus, é capaz das mesmas barbaridades que qualquer outro, agnóstico ou não, e enquanto um ateu puder dizer que o é, todos nós teremos direito à liberdade, crentes ou não.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds