Domingo, 25 de Junho de 2006

Pitágoras, Platão, Sócrates e Aristóteles – porquê eles? quem os recorda?

A cultura da inteligência através da dedução pura e desapaixonada é, quanto a mim, a maior constante na personalidade por nós conhecida dos grandes pensadores e filósofos da antiga Grécia.

Embora percorrendo caminhos diferentes no que toca ao raciocínio, pontos havia onde estes se cruzavam e calcorreavam juntos parte dos percursos que os levaram à imortalidade. E o grande mérito do conhecimento da cultura grega é, para mim, o de ter tornado universalmente reconhecida uma verdade: - a de que todo o saber está no homem, na sua razão e no seu discernimento sobre as coisas que os seus sentidos lhe vão permitindo conhecer proporcionando-lhe, assim, a análise das suas causas e a comparação dos seus efeitos.

Na antiga Grécia, segundo creio, em torno de uma mente formava-se uma escola. Os discípulos sentavam-se em redor do mestre, escutavam-no e seriam por este incentivados a questioná-lo pondo, assim, à prova o raciocínio individual que, terminando sempre por aflorar o desconhecido, tanto perturbava e intrigava o colectivo. Haveria então uma outra dimensão do tempo.

E porque havia tempo, nascia a investigação. A investigação científico-filosófica, beneficamente pluri-angular, hoje asfixiada, imposta que é por programas de ensino pré-concebidos e estratificados que mais não fazem do que atrofiar a imensa capacidade humana de produzir o novo e decifrar o enigmático. Espartilhou-se o pensamento em nome do progresso e de uma pretensa alfabetização.

A cultura de hoje – tal como a vejo – pretende transmitir ao homem de uma forma compacta e necessariamente imperfeita o somatório dos conhecimentos básicos de uma qualquer actividade – denominada profissão – a que este deseja dedicar-se, melhor dito, a que tem de dedicar-se sob pena de não sobreviver no seio do parasitismo social criado por esse instrumento do mal que é o dinheiro!

O homem de hoje, pretensamente livre mas, de facto, impedido de o ser, é obrigado a assimilar o pensamento de outros homens não lhe restando mais do que tornar-se escravo de uma cultura dada como certa, que lhe não pertence e para a qual a sua concordância ou discordância nada importarão. Júris de outros homens, pragmáticos doutores, aferirão, por estandardizadas tabelas o grau dos seus conhecimentos e, em função disso, lhe passarão um diploma que o autorizará a exercer a acção ou o mister para que foi tornado autómato.

E quantos homens conseguem fugir e fogem hoje deste ciclo? Meia dúzia apenas, talvez nem tanto! E aos que fogem, o epíteto de “louco” será o mais brando com que a conspurcada e parasitária sociedade dos nossos dias saberá tratá-los. Na verdade e pelo caminho que trilhamos, onde a ficção de ontem já é uma tristíssima realidade de hoje, não me surpreenderá que o homem venha a ser mero instrumento sobresselente de uma máquina competindo-lhe apenas oleá-la porque ela pensará e decidirá por si.

Mas cuidado! A juventude dá já sinais de intolerância perante a pseudo cultura que estamos querendo impor-lhe. Os extraordinários movimentos juvenis a que assistimos – violência nos subúrbios, concertos que arrastam multidões e atroam os ares, criminalidade em bandos, desportos radicais e culto por quanto seja violento - são, quanto a mim, prova evidente de que algo está errado e terá de mudar já que a verdadeira cultura não poderá ser assim espartilhada e servida ao povo, escolarmente atrofiado, em ingleses “giga bites”. Primeiro há que voltar à escola, àquela escola de aldeia, isolada, em que o professor, qual segunda mãe, quase senta ao colo os seus alunos e os ensina, com tempo e com diálogo. Assim aconteceu na Grécia antiga onde o homem indubitavelmente terá aprendido a pensar.

publicado por Júlio Moreno às 12:53
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1 comentário:
De contoselendas a 26 de Junho de 2006 às 12:47
Na verdade não "podemos" fugir a uma cultura que nos é imposta se tivermos preguiça de pensar e de dizer o que se pensa sobre um determinado assunto seja ele na escola ou noutro local.É verdade que as crianças teem menos capacidades para poder comfrontar um adulto que lhe impoem uma ideia, mas a mente desta não é obrigada a aceitar todas as "verdades".
Vejamos o dilema de uma criança que aprendeu na catequese que Deus criou o mundo e na escola que foi o Big Bang. uma criança inteligente percevera que na ciencia como nas outros sistemas de pensamento não há verdades absolutas o que lhe dá espaço para o seu pensamento e a criação de valores que podendo ter de "inibilos" para não ser discriminada não a impede de ter um pensamento. Concordo quando diz que isto já se vê, em certos actos da juventude. Pena é que muitos desse actos manifestem que alguma desta juventude perdeu valores,skin heads, etc, porque não pensa ou tem preguiça de pensar sobre as verdades dos seus "mestres".


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