Sábado, 24 de Junho de 2006

O que também se pensa numa urgência hospitalar

Nada tenho escrito porque nada tenho pensado que julgue valer a pena. Não quero, com isto, dizer que, o que aqui já escrevi, tenha valido a pena. Pedaços de pensamentos, sentimentos, arroubos de ocasião, normalmente derivados das injustiças que observo e que, no meu entender, vão sendo cometidas. Isso me incomoda e, por tal motivo, esvazio assim o meu saco de revolta. Depois fico melhor, mais leve.

Leio, releio, volto a ler e se, quanto ao conteúdo, as mais das vezes fico satisfeito, quanto à forma isso nunca acontece. Fica sempre algo por corrigir, algo de que tenho mesmo de abdicar contra vontade sob pena de nunca aqui vir a publicar o que escrevi. Mas, curiosamente, sinto que isso talvez ajude a comprovar o facto de que a hereditariedade tem muito a ver com tudo o que somos, mesmo com aquilo que não é palpável e que nada – ou muito pouco – se relacionará com o fisiológico. É que descendo de um prosador insigne e de um filólogo dos mais brilhantes que já teve a nossa língua; de um estudioso nato e figura grande entre os grandes mestres do português falado e escrito! Sem pretender, de modo algum, comparar-me a ele, hoje deleita-me ler, escrever e falar e acho mesmo que muito mais e melhor teria feito na vida se esta febre me tivesse dado mais cedo e se, por não ter tido nunca a percepção de como ela corre e o tempo passa, noutros campos não me tivesse dispersado tanto.

Queridos avô e pai, que o continuaste e que me deste esta vida que hoje tenho, a ambos peço perdão por não ter sido, de vós, um digno seguidor. Possam estas linhas, que neste espaço surgem como que um parêntesis de sentida e singela homenagem que vos presto, suprir para vós, que da outra dimensão da eternidade me olhais agora, o que me falta de engenho nas outras que nunca serei capaz de escrever.

Mas é assim. Nada tenho escrito nestes dias talvez um pouco perturbado por um estado a que chamarei “pré-tensional” e sem causa aparente, mas que eu conheço bem, e que me levou anteontem à urgência do hospital, às duas da manhã, cheio de falta de ar e com a estranha e indescritível sensação de progressiva asfixia e de desfalecimento eminente. Não foi esta a primeira vez que tal se verificou mas talvez tenha sido esta a primeira em que me senti infinitesimamente minúsculo e inesperadamente tão sensível perante os acontecimentos que me rodearam.

Comparada com as outras, pelo menos quatro, já aí vividas, esta era uma noite relativamente calma naquele serviço de urgência. Aí se podia observar claramente a competência e a dedicação e distingui-la, sem esforço, do laxismo e, talvez até, da má vontade. As batas amarelas, e de outras cores, eram iguais entre si e igualmente se moviam naqueles corredores e salas pouco concorridas; mas os pacientes que, deitados em macas, sentados ou por ali, ainda em pé, esperavam pelos seus cuidados, instintivamente iam escolhendo e chamando à atenção só de algumas que, em se aproximando, deixavam antever a figura humana do médico, médica ou enfermeira que ali se encontrava por verdadeira vocação, dedicado ao seu mister e imbuído do espírito de verdadeiro sacerdócio que tantas vezes vi na saudosa figura de meu pai. E era essa aura que consigo transportava que desde logo começava a aliviar os aflitos e a curar os males de que estes, timidamente, se queixavam mesmo antes de qualquer outro cuidado ou medicamento lhes ter sido ministrado.

E foi assim, à luz de uma consciência, também ela assaz dependente do momento que vivia, que pude, mais uma vez, aferir da grandiosidade de certas profissões e, por puro paralelismo mental, concluir da tremenda nocividade de tantas outras. Estou a referir-me, como bem por certo já concluíram, aos profissionais de saúde e àqueles que, arrogando-se legitimados por uma qualidade emprestada e quase sempre extorquida ao povo através da propaganda enganosa que junto dele fazem, tão aleivosamente vêm construindo o mundo em que vivemos com políticas que só a si mesmos e aos seus acólitos servirão.

Pensei então que haverá ensinamentos na vida que só serão encontrados no anónimo ambiente dos que sofrem e dos que abnegadamente lhes procuram mitigar o sofrimento.

publicado por Júlio Moreno às 18:53
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De bibiana a 25 de Junho de 2006 às 03:13
Continuo a ouvir musica! Sempre musica dos mais lindos sons do violino...


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